28
maio
2016
Crítica: “Eu Posso Ouvir o Oceano”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

Eu Posso Ouvir o Oceano (Umi Ga Kikoeru)

Tomomi Mochizuki, 1993
Roteiro: Kaori Nakamura
Nippon TV

4

Produzido para a TV, e talvez não muito conhecido por isso, Eu Posso Ouvir o Oceano ou Umi Ga Kikoeru carrega consigo uma trama simples, cativante com personagens carismáticos e bastante dúbios. O filme é baseado no mangá fechado homônimo escrito por Saeko Himuro e conta com direção de Tomomi Mochizuki com roteiro de Kaori Nakamura, sendo o primeiro do estúdio que não foi dirigido nem por Takahata ou por Miyazaki.

A trama acompanha as desventuras de dois melhores amigos de uma escola em Koichi, cidade litorânea do interior. Taku Morisaki e Yutaka Matsuno são dois estudantes bem diferentes entre si, mas muito cumplices; Taku trabalha em um restaurante, dono do seu próprio dinheiro e consegue tirar boas notas, mesmo que não esteja em momentos bons, já Yutaka é mais centrado e o representante da classe. Por ter esta responsabilidade na escola, quando Rikako Muto, uma aluna de Tóquio chega na escola (onde consegue ficar nas melhores posições entre os alunos) é ele quem lhe dá as boas vindas, mas o rapaz logo se apaixona pela garota misteriosa que carrega consigo uma tristeza latente.

Conforme a história vai avançando, Rikako acaba conversando com Taku e lhe pedindo dinheiro emprestado. E a partir daí que as coisas começam a ficar mais claras ao espectador, tento em vista que durante uma confusão misteriosa, Taku e Rikako acabam viajando juntos para a capital, onde passam algum tempo se conhecendo melhor. E esta viagem culmina e na desconfiança de todos na escola, já que os boatos correm soltos pelos corredores. E são com esses boatos que a amizade de Taku e Yukata se compromete, assim como o temperamento distante de Rikako se aflora para com Taku e tudo desmorona.

O longa possui um ritmo bacana e consegue ser conciso durante seu tempo de projeção, tendo em vista que trata-se de um telefilme e uma tentativa dos produtores do Studio Ghibli de colocarem seus funcionários mais jovens para se ocupar em produções mais simples e menos caras. A animação mais uma vez reflete a qualidade presente em outros longas do estúdio, desta vez mais simples, com um design de personagens bem feito, com cores vivas e frias em contraste. Os cenários são bem explorados, por conta de planos abertos. As emoções das personagens são passadas de forma excelente, com um traço diferente e detalhista, por ora. Importante também ressaltar a trilha sonora que possui toques suaves e interessantes.

Rikako é uma personagem que possui diversos lados, muitos espectadores poderão julgá-la como chata ou prepotente, mas devido à sua situação é compreensível que seu temperamento seja um tanto quanto devasso. Seus pais estão passando pelo processo de separação e ela é obrigada a ir para um lugar que detesta e não tem muito interesse. Ela é franca demais com relação as pessoas, o que acaba magoando sem querer querendo. Por tudo isso e muito mais, Rikako é uma moça muito misteriosa, inteligente e com muito a revelar. Yumi, uma das amigas que faz durante a passagem pela nova escola acaba se surpreendendo com suas atitudes a cada dia e quase caindo em complicações por sua causa em alguns momentos.

Apesar de não ser um longa cheio de metáforas, fantasia ou críticas, Eu Posso Ouvir o Oceano retrata a vida de jovens que tem seus problemas rotineiros, mas que conseguem passar por cima de seus obstáculos quando desafiados. Mostra muito da vida escolar, sobretudo nos últimos anos; quem já foi adolescente poderá se identificar claramente com esses momentos da história, mesmo que muito da cultura seja diferente da nossa. É bacana também poder acompanhar este “triângulo amoroso” que se forma, com personagens bem distintos entre si escondendo sentimentos ao mesmo tempo que querem deixá-los o mais à mostra possível.

É um filme interessante para se conhecer no meio de tantos outros incríveis e cheios de críticas. A mensagem por traz desta narrativa é simples, direta e honesta para com seu espectador. Vale a pena se aventurar junto de Taku, Rikako e Yukata ao mesmo tempo que se lembra de sua época, provavelmente inesquecível, de adolescente.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.