19
maio
2016
Crítica: “Meu Vizinho Totoro”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Tonari no Totoro

Meu Vizinho Totoro (Tonari no Totoro)

Hayao Miyazaki, 1988
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

5

Apesar de parecer ser um filme apenas com ares fantasiosos e com algum melodrama envolvido, Meu Vizinho Totoro (ou Meu Amigo Totoro – Tonari tem um significado mais próximo de vizinho) é um filme bastante triste e melancólico com várias doses de escapismo e com uma mensagem confortante: as coisas podem ficar bem na dor, é só sonhar um pouquinho.

O personagem mítico do Totoro tornou-se o símbolo principal do Studio Ghibli e o longa dirigido e roteirizado por Hayao Miyazaki se popularizou, ficando bastante famoso tanto no Japão como fora dele. O enredo é aparentemente simples: um pai e suas duas filhas (Satsuki e Mei, as protagonistas do filme) se mudam para uma nova casa, mais afastada da cidade e que ficaria mais próxima do hospital onde a mãe das meninas está internada. O pai, que aparentemente é professor universitário precisa pegar um ônibus para ir à universidade e as filhas sempre o esperam no ponto de ônibus (faça chuva, faça sol – e daí já pode-se prever o porquê de uma certa cena muito famosa existir). A casa em si é repleta de mistérios e está rodeada de aparente magia, segundo Satsuki e Mei. Uma vizinha muito generosa passa a ajuda-los e seu neto Kanta passa a viver observando a nova família que por ali se instala.

Mei é uma garotinha que tem por volta de 3 anos de idade, bastante curiosa e sonhadora. É ela quem primeiro encontra Totoro durante o desbravamento de seu quintal quando encontra uma árvore bonita, grandiosa e mítica. Já Satsuki tem por volta de 8 anos e já frequenta a escola. Ela é da mesma turma de Kanta e com toda a situação familiar em que se encontra acaba criando uma certa maturidade antecipada e cria responsabilidades para com a nova casa e as novas condições de vida, cuidando de sua irmã mais nova quase a todo momento já que o pai precisa trabalhar e a mãe está no hospital; claro que as duas contam com a supervisão da vovó vizinha. Conforme a narrativa vai avançando, o espectador percebe várias metáforas visuais, que podem ser reforçadas em uma revisita posterior do filme, que é uma delícia de se assistir.

A fantasia encobre quase que constantemente a situação triste das meninas. A mãe parece ter alguma doença muito difícil de se lidar e as duas precisam passar juntas por este sofrimento com ela, que aparece serena e confiante em todas as suas cenas. É emocionante ver a relação das três fortalecidas quando são postas lado a lado, contando coisas do cotidiano que mostram-se bastante valorosas já que estão separadas por uma enfermidade. E mais uma vez Miyazaki mostra a importância e responsabilidade para retratar personagens femininas, que além de multidimensionais em suas nuances fazem o filme passar com graça e folga no teste de Bechdel, já mencionado em críticas anteriores desta maratona.

Mas, por falar em fantasia, Totoro surge em diversos momentos para a alegria das irmãs que sempre quiseram encontra-lo. Mei, depois de um tempo, acredita ter sonhado apenas, mas quando sua irmã também o vê claramente em uma divertida situação, volta a acreditar que o animal diferente e inusitado realmente existe. Aliás, não só ele, como o ônibus gato que as ajudam em momentos muito difíceis. E é com essas determinadas cenas do filme e com outras metáforas que o espectador começa a se perguntar se tudo não passava de uma invenção infantil ou se tudo realmente existe naquele universo. Fica o questionamento, pois algumas coisas da fantasia se misturam com a realidade de forma muito clara e precisa. Na minha opinião, de crítico e fã do filme (e do cineasta em questão) Totoro e suas magias – como a cena em que as sementes que são dadas de presente pelo bicho se transformam em pequenas folhas, mesmo que na visão das meninas uma grandiosa árvore tenha se formado – são uma válvula de escape para os sofrimentos que as duas passam. A mãe está doente no hospital, o pai está distante por conta do trabalho; logo a imaginação fértil das crianças afloram-se e um amigo imaginário é criado para que as duas possam continuar a serem crianças, mesmo com algumas responsabilidades injustas batendo na porta. Como já dito anteriormente, fica difícil explicar quando a realidade e a fantasia se misturam, mas deixo isso pra uma análise posterior em que poderemos visualizar todas essas metáforas com cuidado.

Aliás, acredito que o Totoro e o ônibus-gato só são da maneira que são por conta da realidade das meninas. Logo no início do filme temos alguns indícios do que viria aparecer. Ficaria um pouco redundante mencionar o maravilhoso e fascinante trabalho dos profissionais da animação que se destacam cada vez mais nos filmes do estúdio. O diretor opta, mais uma vez, pelos planos longos e abertos, que mostram devaneios constantes e profundos de suas protagonistas. É notável ressaltar as cenas iniciais, da mudança, quando as histórias de assombração sobre a casa em que estão residindo e a fuligem (com olhinhos) que está por toda a parte estão presentes.

Em suma, Meu Vizinho Totoro é um filme belo, delicado e triste, em minha singela opinião. Mesmo com a música de abertura e encerramento sendo bastante alegres. É um filme com muitas simbologias e metáforas, com momentos calmos, de ação, mas sobretudo com uma história maravilhosamente bem contada. Merece ser visto por todas as gerações!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.