01
maio
2016
Crítica: “Midnight Special”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Midnight Special

Jeff Nichols, 2016
Roteiro: Jeff Nichols
Warner Bros.

4

Mesmo com apenas três filmes no currículo o diretor Jeff Nichols conseguiu se estabelecer como uma das principais esperanças da nova geração do cinema americano. E agora com seu quarto longa, Midnight Special, ele não decepciona e prova mais uma vez que é um nome para sempre ficar de olho.

O filme é melhor apreciado se você não souber muitos detalhes da trama, então serei bem breve com a sinopse: dois homens estão fugindo com uma criança com poderes sobrenaturais enquanto o governo americano está desesperado em sua procura.

Uma das coisas que mais chamam a atenção no início da projeção é o fato de o roteiro privar o espectador de diversas informações importantes sobre o que está acontecendo, como se houvesse cortado a parte da introdução e se iniciado no meio da ação, algo que aumenta o senso de urgência das perseguições e também a ambiguidade dos personagens – levando um bom tempo até que fiquem claras as motivações de cada um (uma manobra arriscada, mas que aqui funciona muito bem justamente por torna-los mais instigantes e aumentar o clima de suspense).

O diretor Jeff Nichols é muito feliz em criar um clima tenso e inquieto durante as primeiras sequências do filme (que envolvem várias perseguições em alta velocidade), e a partir do momento em que fica claro que há algo sobrenatural envolvido na trama (não é spoiler) ele é hábil em fazer a transição para um tom que investe mais no suspense e no fantasioso. Aliás, é interessante notar como a trilha sonora parece sugerir um toque de fantasia desde os primeiros minutos, mesmo antes de ela de fato aparecer, além de ainda ser muito eficiente em evocar tensão e energia para as sequências de ação.

Plasticamente a fotografia de Adam Stone (que também colaborou com o diretor em todos seus trabalhos anteriores) se prejudica um pouco pelo fato de a trama se passar quase toda a noite, deixando o visual um tanto quanto monótono, ainda que reforce o senso de mistério proposto pelo diretor. Já as cenas passadas de dia são fotografadas apropriadamente com cores secas e melancólicas, com constantes pontos de forte luz branca que refletem a ideia de fantasia.

O elenco é homogeneamente competente. O jovem Jaeden Lieberher (que já havia se destacado em Um Santo Vizinho) não decepciona ainda que seu personagem dependa muito mais das ações ocorridas em função dele do que de sua interpretação em si. Já Kirsten Dunst foge da unidimensionalidade com uma figura trágica que consegue passar toda a sua dor e sofrimento. Joel Edgerton é hábil em inspirar confiança no espectador mesmo com suas ações dúbias. E Adam Driver (recentemente conhecido por interpretar Kylo Ren na saga Star Wars) convence pela inteligência e maturidade de seu personagem, além de ser capaz de evocar fragilidade, conseguindo provocar identificação com o espectador e o impedindo de se tornar um vilão (o que não é o objetivo do roteiro).

Mas o maior destaque fica mesmo por conta de Michael Shannon (que também esteve presente em todos os trabalhos do diretor). Com um sotaque carregado e uma dicção difícil, o ator convence com a dedicação implacável de seu personagem, e o fato de ele ser completamente introspectivo só serve para tornar suas ações ainda mais impactantes – e poucos atores convencem tanto com overactings do que Shannon.

Mesmo decepcionando um pouco em seu desfecho (que contradiz a lógica criada até ali: que sugere que a história não é sobre o menino com superpoderes e sim sobre o drama das pessoas envolvidas ao redor dele) Midnight Special ainda é um filme muito bom e original que prova mais uma vez o talento de seu jovem diretor.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.