12
maio
2016
Crítica: “Nausicaä do Vale do Vento”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no Tani no Nausicaä)

Hayao Miyazaki, 1984
Roteiro: Hayao Miyazaki e David Schmoeller
Versatil Home Video

5

Em seu último filme antes da fundação do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki adaptou uma de suas histórias homônimas escritas em mangá para os cinemas. Nausicaä do Vale do Vento fez bastante sucesso no Japão e aqui no Brasil chegou até o volume 5; todos publicados pela Editora Conrad. A história mostra todas as responsabilidades e anseios do diretor e seus produtores de levar uma valorosa e dedicada mensagem de esperança na humanidade para o grande público. Os temas utilizados neste filme vão desde às guerras cegas causadas pelos seres humanos em favor de interesses e jogos políticos próprios até as consequências destes atos culminando na derrubada de tudo o que natureza ainda pode oferecer.

Aqui estamos após a guerra apocalíptica dos Sete Dias de Fogo onde os últimos povoados humanos lutam para sobreviver longe de uma floresta tóxica chamada de “Mar da Corrupção” habitada por insetos gigantes e, magnificamente bem inseridos na trama, que avança sem controle por toda superfície do planeta. É aí que somos apresentados à Nausicaä, uma princesa da casa real do Vale do Vento, um pequeno reinado alheio às guerras de seus países vizinhos. Trata-se de uma personagem encantadora, determinada e bastante inteligente. Com sua inteligência, ela tenta entender a floresta tão abominada (e seus habitantes) ao invés de tentar destruí-la. A primeira protagonista de Miyazaki é, sem dúvidas, uma de suas mais fortes e mais humana e seu nome vem da princesa Nausicaä que ajudou Odisseu no épico grego. Parte de sua personalidade veio de um conto oriundo do folclore japonês A princesa que amava insetos.

Fazendo abertamente uma crítica à ganância, ao egoísmo. Nausicaä descobre com a vivência e com as ironias do destino que o lugar tão abominável era na verdade um grandioso ecossistema valioso e importante para a manutenção das espécies, incluindo a espécie humana, tendo em vista que as árvores por lá encontradas purificavam a água consumível da população; sem falar nos insetos tão demonizados que traziam mais benefícios do que malefícios, mesmo parecendo agressivos. Aliás, vale ressaltar que Nausicaä é uma protagonista bastante humana, logo é passível de erros ao mesmo tempo que trilha uma luta constante por seus ideais.

A trilha sonora composta por Joe Hisaishi (um grande parceiro de Miyazaki e Takahata nos longas do estúdio) é genuinamente bem harmonizada com todas as cenas do longa, sobretudo as em que a dramaticidade é a principal linguagem empregada. As cenas de perseguições aéreas no clímax também trazem ótimas composições que influenciam no sentimentalismo e nos anseios para a conclusão do longa em seus espectadores.

O longa também é carregado de todo estilo que Miyazaki consagraria mais tarde em outras obras. Além das críticas a diversos meios, que continuam muito atuais, há a presença das máquinas voadoras, fascinantes ao diretor que ajudam na construção de uma trama fantasiosa, mas cheia de elementos realísticos e precisos. As metáforas utilizadas se fazem muito presentes para levar a principal mensagem do longa adiante. É um filme feito para que todas as idades pudessem compreender que estamos todos no mesmo barco; humanos, insetos, natureza e etc.

A animação também é um dos pontos fortes do filme, que fazem dele tão sensacional e cheio de simbolismos, mesmo que em alguns momentos partes “cegas” dos personagens apareçam de vez em quando, mas vale lembrar que é uma animação feita totalmente desenhada a mão e feita há mais de 30 anos. As cores são tão bem administradas junto às formas dadas aos personagens que tudo parece ainda mais humano. O design dos personagens, inclusive, remete muito ao estilo steampunk, subgênero da ficção científica onde as tecnologias principais são as das máquinas a vapor. Junto de seu planador, a raposa-esquilo Tato e o Mestre Yapu, Nausicaä tenta passar valores importantes, não só aos seus semelhantes que tenta alertar durante o decorrer da história, mas também aos espectadores, que possivelmente adicionarão este filme em sua lista de favoritos da vida.

Em suma, Nausicaä do Vale do Vento aborda de forma incrivelmente harmoniosa as relações mais profundas entre homem e natureza. É um filme importante com grandiosa qualidade técnica e narrativa que continua ainda em bastante sintonia com os dias atuais. Merece ser visto e apreciado até que possamos aprender com os erros de seus personagens gananciosos.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.