10
maio
2016
Crítica: “O Castelo de Cagliostro”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

O Castelo de Cagliostro (Rupan Sansei: Kariosutoro no Shiro)

Hayao Miyazaki, 1979
Roteiro: Hayao Miyazaki e Haruya Yamazaki
Focus Filmes

4

Lupin III é um personagem que Miyazaki já estava bastante familiarizado. O neto de Arsène Lupin, personagem do escritor francês Maurice Leblanc, já havia protagonizado uma outra uma série de TV com alguns episódios dirigidos por Hayao (e também por Isao Takahata). As histórias de Lupin III foram escritas e ilustradas em mangá por Monkey Punch, pseudônimo do mangaka Kazuhiko Kato e então adaptadas para anime.

O Castelo de Cagliostro mergulha o espectador em um mistério um tanto simples junto do famoso ladrão Lupin III (ou Rupan Sansei, como é chamado no Japão) que após roubar um cassino percebe que todas as notas eram falsas. Disposto a investigar o que estaria acontecendo, junto de seu companheiro Daisuke Jigen parte para o país Cagliostro. Porém, enquanto Jigen trocava um pneu próximo da estrada, um carro passa em alta velocidade e quem dirige é uma moça vestida de noiva. Ela é seguida por um outro carro com homens em trajes que lembram mafiosos. Logo, Lupin e ele saem correndo em direção dos carros e acabam perdendo a moça que é aprisionada no alto de um castelo (de Cagliostro), onde o Conde de Cagliostro quer se casar a todo custo por conta de sua ambição e ganância. Só que Clarissa, a moça aprisionada, deixou em sua fuga um anel muito importante e valioso para trás que fica em posse de Lupin, este por sua vez está indo em direção da libertação de Clarissa, a herdeira dos Cagliostro, contando com a ajuda de seus aliados.

A divertida e bem humorada trama possui oscilações entre perseguições policiais, vilões com aparências estranhas, aventuras por lugares complexos, drama e confusões quase intermináveis. A animação é um dos pontos altos do filme, que trazia muitos traços das animações para a TV. Miyazaki opta por ilustrar cenários em planos abertos com uma riqueza de detalhes magnífica; as belas paisagens possuem pequenas flores pequeninas e o castelo (cheio de mistérios e segredos) por dentro é um deslumbre. Os tapetes, as cortinas, os lustres, todos são muito bem retratados. Aliás, o castelo é quase um personagem à parte da trama, já que conta com infinitas armadilhas, passagens secretas e arquitetura complexa. O ambiente por si só já é capaz de causar certas ilusões nos personagens e até nos espectadores.

Os personagens possuem características marcantes e com um design chamativo. As cores são muito bem administradas junto aos cenários e suas facetas são reveladas pouco a pouco. Lupin é cheio de astúcia, determinação e, apesar de ser um ladrão, o espectador se sente atraído pelo seu sucesso. Clarissa é outra personagem que parece ser objeto de opressão por conta do Conde, mas que mostra sua força aos poucos, assim como sua coragem. Além dela, Fujiko, aliada de Lupin, é outra personagem feminina interessante que se revela durante a narrativa; uma marca dos filmes do Miyazaki são as mulheres que mostram-se extremamente fortes e independentes aos seus objetivos. Jigen, um atirador e Goemon Ishikawa XIII, uma espécie de espadachim também estão em busca de descobrir os mistérios junto do amigo ladrão. Em determinado momento da trama quem também se destaca é o Inspetor Koichi Zenigata, que faz de tudo para tentar prender Lupin; que sempre tem uma carta na manga para escapar.

A trilha sonora e sonoplastia também são muito cuidadosas e bem orquestradas. A música de abertura e encerramento traz à tona os sentimentos dos personagens e um pouco do espírito um tanto quanto mítico da trama. A sonoplastia, aliada às expressões as vezes exageradas dos personagens (de certa forma uma marca dos filmes japoneses), é marcante, sobretudo por conta das explosões e de barulhos externos de coisas em movimento. Um trabalho excelente e com o gostinho da época em que foi feito.

Obviamente as críticas sociais que Miyazaki nunca deixa de inserir em suas fantasias não poderia deixar de estar presente neste filme. Há uma cena muito bem orquestrada durante o clímax da história que exemplifica muito bem as denúncias de problemas internacionais feitas através da mídia, mas para me aprofundar teria que contar certos detalhes da trama que poderiam soar como spoiler.

Carregado de simplicidade e clichês bem administrados, O Castelo de Cagliostro é um longa divertido e bem construído em sua totalidade, mostrando um Miyazaki em ascensão. Traz mensagens muito interessantes e bonitas para o espectador com um protagonista cheio de truques, carisma e esperteza para a tela. Aliás, é notável observar e ficar atento a certas coisas que podem trazer referências a filmes posteriores do Studio Ghibli. Vale a pena conferir e se divertir!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.