14
maio
2016
Crítica: “O Castelo no Céu”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

O Castelo no Céu (Tenkû no shiro Rapyuta)

Hayao Miyazaki, 1986
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

4.5

Bem vindo ao Studio Ghibli. Seu primeiro longa oficial é O Castelo do Céu, dirigido por Hayao Miyazaki que conta com vários elementos recorrentes nos filmes do diretor: castelos, máquinas voadoras, protagonistas e personagens femininas fortes; além disso, é notável dizer que este é o filme que mais se aproxima do steampunk (que pra quem não sabe, como já mencionado na crítica de Nausicaä do Vale do Vento, trata-se de uma época onde as tecnologias avançavam com as máquinas a vapor).

Sheeta, é uma garota que cai misteriosamente do céu para os braços de Pazu, um garoto morador de uma pequena cidade nas montanhas. Sheeta está sendo perseguida pelos piratas do ar e pelo exército, logo Pazu também acaba sendo buscado ao lado da garota que carrega um colar cuja pedra traz poderes mágicos a quem a possuir, mas principalmente a própria Sheeta por ser descendente direta do clã do Laputa, o castelo no céu. Todos os personagens buscam nesse castelo algum tipo de sonho. Sheeta quer encontrar sua identidade; Pazu concretizar o sonho do pai de encontrar o castelo que diziam não passar de uma lenda; Dora, a titia dos piratas do ar quer os tesouros que por lá podem existir e Muska, o grande vilão da trama quer poder acima de qualquer coisa.

Buscando referências no livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Miyazaki traz um visual e um roteiro incrivelmente bem construídos. Os segredos do Laputa são aos poucos revelados aos personagens, mesmo que o castelo, propriamente dito, tenha poucos minutos de projeção, mostrando seus labirintos, armadilhas e tesouros. O design dos personagens os traz com figurinos em cores vibrantes e com penteados chamativos, como é o caso da pirata Dora com seu cabelo cor de rosa. A ambientação com os cenários reforça a ideia do steampunk e das máquinas a vapor, com trens e vilarejos remotos. Além dos personagens e cenários, vale destacar a importância e a construção narrativa das máquinas voadoras. Há navios do ar, no caso dos piratas e naves incrivelmente detalhadas para o pessoal do exército. Também é possível encontrar objetos voadores mais simples, como as vespas voadoras dos piratas e o pequeno planador de Pazu. Mais uma vez a animação é um dos pontos fortes, que aliado à trilha sonora consistente e marcante de Joe Hisaishi, que viria a se consagrar mais tarde e finalmente dentro das produções do estúdio, e ao roteiro fazem um dos filmes mais completos de Miyazaki e do Studio Ghibli. Em termos de ação, o roteiro caminha com maestria para suas estruturas narrativas de clímax e desfecho.

Os personagens também mostram complexidade conforme a trama vai avançando. Sheeta, apesar de parecer uma menina inocente e indefesa, não abaixa a cabeça em nenhuma situação, mesmo que esta pareça difícil. Ela tenta de todas as formas compreender o que possa ocasionar a ambição dos que a sequestraram e os mistérios que envolvem o Laputa. Quando junto da tripulação dos piratas do ar, mostra-se presente e mantém bons diálogos com a capitã Dora, fazendo com que o filme passe facilmente no teste proposto pela cartunista Alison Bechdel. Este, inclusive, é um dos pontos altos e mais interessantes do filme, por conta das mudanças que são estabelecidas. Os piratas passam a se tornar aliados de Pazu e Sheeta, mostrando que mesmo com o anseio e o desejo de encontrar riquezas escondidas no castelo do céu que poderiam encontrar junto deles, são pessoas com bons corações e com vontade de justiça. Dora é uma das personagens mais fascinantes por conta disso também e por ser uma capitã sem tréguas para seus subordinados. Sua força e inteligência mostram para qualquer um sua capacidade de liderança e astúcia para resolver impasses.

Vale também falar sobre a importância, a força e a esperteza de Pazu, que com o objetivo de não se separar de Sheeta e, de quebra, provar que é tão grande e forte como qualquer outro mesmo sendo apenas um menino, enfrenta todos os desafios que lhe são impostos, faz acordos perigosos e desafia os gigantes que o atormentam; Pazu carrega uma grande bravura e um desbravamento notável dentro de si.

A agilidade do roteiro ao tratar de um tema fantasioso cheio de perseguições não deixa de lado as críticas. Desta vez, pode-se perceber uma vontade de falar sobre o avanço de tecnologias e o quanto elas são boas para a humanidade. A ganancia e o egoísmo também são retratados de forma crua, mostrando que a falta de empatia ainda é um problema que pode nos custar caro. Na animação, é possível encontrar robôs criados para proteger quem precisa de ajuda e que são duros na queda, além de um castelo com vida própria guiado por um poder imenso vindo de uma pedra preciosa.

Vale a pena conferir este longa e ir descobrindo aos poucos o que Miyazaki buscaria para com suas animações; mostrar ao público histórias cativantes, com muito conteúdo dramático, complexidade em seus personagens e um visual deslumbrante. Tudo isso para falar de coisas mais profundas nas entrelinhas e fazer os espectadores pensarem sobre as coisas que os rodeiam. Uma jeito de se fazer cinema bastante valoroso!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.