16
maio
2016
Crítica: “O Conto dos Contos”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
640x0_1455219692

O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti)

Matteo Garrone, 2015
Roteiro: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso
Mares Filmes

4

O Conto dos Contos é um filme que mesmo com uma estrutura irregular acaba valendo muita a pena devido à sua originalidade e sua capacidade de equilibrar fantasia, suspense e comédia.

O roteiro acompanha três histórias de fantasia medieval simultaneamente: a primeira acompanha um casal de reis (John C. Reilly e Salma Hayek) que tentam vencer a esterilidade com um ritual envolvendo um monstro marinho; a segunda envolve outro rei (Toby Jones), sua filha prestes a se casar e uma pulga gigante; e a última também acompanha um rei (Vincent Cassel), que se apaixona por uma bela voz sem saber que esta pertence a uma velha.

Contando sua história muito mais através de imagens e construção de atmosfera do que de diálogos (o que pode incomodar os espectadores mais impacientes), o filme consegue ao mesmo tempo ser uma grande produção hollywoodiana de época, mas também uma obra mais pessoal, apostando em um senso de humor peculiar e uma atmosfera sombria.

Toda a parte técnica é impecável. O uso de locações dá ao filme uma grande tangibilidade (destaques para a cena passada no terraço do castelo e outra passada em um labirinto de pedra), e o designe de produção é eficiente em criar um universo fabulesco, que traz ao mesmo tempo o exagero e o glamour característicos das cortes medievais, e também interessantes toques sombrios com um peculiar senso de humor. Já a trilha sonora, além de utilizar constantemente instrumentos característicos da época, se equilibra apropriadamente entre o fantasioso e o sombrio.

O elenco também merece créditos, principalmente por não se renderem a caricaturas e convencerem mesmo interpretando personagens que se encaixariam em contos de fadas unidimensionais.

O único problema do filme é mesmo sua estrutura. Ao contar suas histórias praticamente paralelas ao mesmo tempo, o diretor impede um envolvimento maior por parte do espectador, pulando de uma trama para outra sem fluência alguma (e o fato da projeção durar mais de duas horas agrava o erro), além de não encontra um desfecho satisfatório para nenhuma delas. Talvez o formato de antologia (contando uma história de cada vez) pudesse ter funcionado melhor.

Tendo ainda diversos momentos marcantes (a cena que envolve um mostro marinho e outra que traz uma corda bamba sobre um precipício são minhas favoritas), O Conto dos Contos pode até se prejudicar pela sua estrutura, mas pelo seu universo peculiar consegue se estabelecer como um filme muito competente e acima de tudo original.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael