21
maio
2016
Crítica: “O Reencontro”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes
hqyqxvfnbce8jfpwptqn

O Reencontro (Aterträffen)

Ana Odell, 2013
Roteiro: Ana Odell
Imagine

5

nota

Que influência as cicatrizes adquiridas na infância têm na nossa vida adulta? O que você faria se tivesse a chance de confrontar aqueles que te humilharam no passado? Esses são alguns dos questionamentos provocados pelo longa-metragem sueco O Reencontro, dirigido e escrito por Ana Odell (artista conhecida por trabalhos performáticos, experimentais), lançado no ano de 2013.

No filme, a personagem Ana Odell (Ana Odell), cineasta e roteirista bem sucedida,  após ser a única a não ser convidada para a festa de reencontro organizada por seus ex-colegas de classe, decide escrever e realizar um filme no qual busca responder algumas questões: o que aconteceria se tivesse comparecido ao evento? O que seus colegas temiam ou tentavam evitar ao deixá-la de fora?

A obra se divide em duas partes. A primeira parte (O discurso) possui um arco dramático fechado. Assistimos Ana Odell comparecer à festa e reencontrar pessoas que não via há 20 anos, desde a época da escola. Ela surpreende ao fazer um discurso inflamado no qual expõe toda a mágoa a respeito do bullying sofrido ao longo dos anos de convivência com aquele grupo. A partir daí, o clima descontraído de celebração começa a dar lugar ao confronto e ao caos. Esses são os primeiros 30 minutos.

A segunda parte (Os encontros) não possui o mesmo ritmo da primeira, e mais se aproxima de um epílogo, pois nela ocorre uma longa reflexão a respeito da sequencia anterior. Temos a revelação de que a primeira parte era na verdade um filme dentro do filme. A “verdadeira” Anna Odell convida seus ex-companheiros de classe para mostrar o filme e discutir as impressões deles a respeito do que veem e de como são representados, o que provoca as mais diversas reações.

A diretora faz uso inteligente do recurso da metanarrativa (narrativa espelhada/historia dentro de outra historia). Esse recurso expande as possibilidades de leitura dos personagens, sua psicologia, sua identidade. O que vemos na primeira parte é um universo imaginado, fruto da indagação, percepção e memória de Odell. A Ana “real” que conhecemos na segunda parte, assim como os outros personagens, se mostra menos caricata, menos solitária, mais equilibrada e em paz com seu passado. Ela não demonstra raiva ou mágoa ao abordar seus colegas e possui certa frieza ao conduzir o experimento social e analisar as reações. A ficção lhe possibilitou ir mais além do que demonstrou ser capaz na “vida real”.

O filme também faz bom trabalho ao problematizar a questão do narrador. Visto que, além de atriz, Ana Odell  foi roteirista e diretora da sequência apresentada na primeira parte, sendo uma narradora-personagem. Ela é o olho por trás da câmera. Estamos limitados a sua interpretação  da realidade. As cenas nas quais ela não está presente, mas ainda assim é tema da conversa, evidenciam esse caráter subjetivo. Se cada um dos personagens tivesse a chance de realizar um filme a respeito do reencontro, seriam obras bem diferentes.

Segundo o teórico Paul Ricoeur: “A vida é vivida e a historia é contada”, a lembrança de acontecimentos passados vem sempre acompanhada da interpretação subjetiva de quem narra. Talvez seja essa a explicação para o fato dos ex-colegas de classe de Ana demonstrarem pontos de vista distintos com relação ao passado. Um exemplo disso é o momento em que alguns rapazes relembram com nostalgia um episódio da infância no qual convenceram Ana que um menino estava apaixonado por ela apenas para caçoarem dela mais tarde. Para eles, foi apenas uma brincadeira juvenil; para Ana, uma lembrança dolorosa. O passado não é  objetivo, mas fruto da experiência e percepção de vários sujeitos.

A problemática do bullying é um ponto forte. O argumento recorrente usado pelos antigos agressores para se defenderem é que eles eram apenas crianças na época, a resposta recorrente de Ana: “Eu também!”. É difícil encontrar alguém que nunca tenha sido vítima ou mesmo presenciado um episódio envolvendo bullying, na infância, na adolescência e na vida adulta. Todos têm uma história pra contar com relação ao tema. Odell realiza o sonho de todos que já sofreram esse tipo de abuso, de forma catártica, pode-se dizer.

O enredo baseou-se na realidade. Na vida real, Ana Odell sofreu mesmo bullying quando mais jovem e foi a única a não ser convidada para a festa de reencontro com seus ex-colegas de classe. Ela planejava ir ao evento para realizar o discurso e filmar as reações. Como seu convite nunca chegou, teve a ideia para a primeira parte do filme e após realizá-lo, entrou em contato com algumas pessoas. Parte dos diálogos da segunda parte tiveram como base diálogos reais entre ela e seus antigos agressores por telefone e durante os encontros. Ela afirma que sua motivação para discursar na festa não era a necessidade de externar seus sentimentos, mas sim fazer um experimento enquanto artista performática, pois considera fascinantes as reações e relações humanas dentro de um grupo social.

O filme inova ao problematizar a questão da narrativa no cinema, assim como a representação do real. A primeira parte não enrola em estabelecer os personagens, o conflito, a tensão e o clímax. A segunda parte não apresenta um arco dramático fechado e levanta questões para o espectador mais do que as resolve. Tratam-se de duas experiências cinematográficas distintas a partir de uma mesma obra. O filme serve também como um bom exercício de reflexão a respeito do bullying, da complexidade da hierarquia dentro de um grupo social e da transgressão de normas de conduta que dominam a vida adulta.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em “The Big Bang Theory”, alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.