22
maio
2016
Crítica: “O Serviço de Entregas da Kiki”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

O Serviço de Entregas da Kiki (Majo no Takkyūbin)

Hayao Miyazaki, 1989
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

4.5

Depois de Meu Vizinho Totoro, onde o roteiro aborda a questão do amadurecimento precoce em crianças para lidar com certas responsabilidades, Miyazaki explora tal tema novamente em um filme, mas desta vez sem o peso dramático que as irmãs carregam em Totoro. Kiki é uma bruxinha muito carismática que parece estar pronta para o ritual de passagem de sua vida. No longa, as bruxas quando completam 13 anos de idade devem sair de casa com sua vassoura voadora, seu gato e sua roupa preta para se estabelecer em uma nova cidade, afim de adquirir aprendizados e amadurecimento com as lições que a vida proporciona.

Notável é observar que neste universo do filme, as bruxas transitam livremente entre os humanos, que sabem de suas condições e as admiram, de certa forma. E engraçado é a forma como as coisas acontecem para Kiki, com uma certa ajudinha do caos. Logo em sua partida ela acaba pegando uma tempestade que a obriga a pedir abrigo em um trem, que acaba viajando durante a noite e a fazendo ficar muito distante, mas chegando a uma cidade encantadora e que até então não tinha nenhuma bruxinha como ela. Por lá acaba tendo que procurar algum lugar para morar e ao ajudar uma padeira a devolver a chupeta do filho de uma cliente, ela acaba ganhando a confiança da mesma e a ajudando na padaria, fazendo entregas. Com isso, o famoso serviço de entregas da Kiki passa a ganhar admiração e dar diversos trabalhos importantes, que se mostram verdadeiras aventuras para a protagonista.

Logo que chega na cidade, Tombo, um garoto acaba se encantando por Kiki e quer a todo custo ser amigo da bruxinha, que parece não se importar muito com ele. Aos poucos, o garoto, com sua ingenuidade e seu jeito de ser acaba amolecendo o coração de Kiki, que havia se fechado para ele sem motivos e os dois vão se tornando bastante amigos. Outra personagem que se torna uma forte amiga e que carrega junto de si a grandiosa mensagem passada pelo roteiro para os espectadores é a pintora Ursula. Juntas, elas protagonizam diálogos muito interessantes e até filosóficos sobre a arte de viver, de sonhar e de persistir nos seus sonhos, principalmente quando tudo parece estar perdido. Há também destaque para Madame e Bertha, que preparam tortas e são incrivelmente fofas em seus momentos com a bruxinha.

Durante as diversas entregas e aventuras de Kiki, quem também se destaca é o gatinho preto da mesma, Jiji, uma espécie de voz da consciência que está sempre tecendo comentários muito precisos e que podem expor a opinião de certos espectadores (aqueles que estão sempre conversando com o filme enquanto o assistem) diante de alguns acontecimentos do longa, como quando Kiki entrega a torta preparada por Madame para sua neta em uma festa e ela simplesmente dá de ombros para o presente da avó; o gato logo comenta que é quase impossível que uma pessoa tão chata e rancorosa seja neta de uma velhinha tão bondosa e carismática.

O design de produção é um dos mais chamativos até agora entre os filmes dirigidos por Miyazaki, tanto por conta do cenário que lembra muito as cidades europeias, com suas vielas, arquitetura preservada e horizonte marcado, quanto pelas cores utilizadas nas vestimentas das personagens. Embora a mãe de Kiki diga que sua roupa é preta (kuro, no original) o espectador percebe que trata-se de um tom de azul bem escuro que combina muito com o laço e sapatos vermelhos da jovem bruxa. Além disso, Tombo usa uma camiseta listrada e uma calça azul que lembram muito o personagem Wally, da charge Onde Está o Wally?.

Mesmo com todas as fantasias presentes e com as aventuras muito bem criadas e desenvolvidas, o roteiro, como já mencionado anteriormente, também traz à tona algumas questões importantes para serem discutidas, principalmente para quando não sabemos mais como lidar com certos bloqueios, angústias e situações difíceis que certamente passamos em alguns momentos da vida. Sem dúvida, é neste momento que o filme tem seu ponto alto, sem esquecer, é claro, do divertidíssimo clímax que traz à tela uma máquina voadora, tão apreciada por Miyazaki e ilustrada quase sempre em seus filmes. Além da vassoura de Kiki, há também a bicicleta de Tombo e o famoso dirigível que está passeando pela cidade.

Divertido e engraçado, O Serviço de Entregas de Kiki é um filme que traz muitas lições valorosas nas entrelinhas, proporcionando a seus espectadores um bom entretenimento e reflexões para se guardar e se praticar. Kiki é uma das personagens mais carismáticas criadas por Miyazaki e sua história promete cativar a todos que se encontrarem com ela.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.