17
maio
2016
Crítica: “O Túmulo dos Vagalumes”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka)

Isao Takahata, 1988
Roteiro: Isao Takahata
Versatil Home Video

5

Isao Takahaka começou seu trabalho no Studio Ghibli com um dos trabalhos mais sensíveis feitos em animação. Com uma linguagem simples, personagens muito bem trabalhados, visual chamativo e um roteiro bem escrito, O Túmulo dos Vagalumes (também chamado de O Cemitério dos Vagalumes por conta do título em inglês) de 1988 é baseado em uma semi-autobiografia (de Akiyuki Nosaka) e utiliza diversas metáforas visuais e também vários artifícios dramáticos para construir um belíssimo longa, que provocará lágrimas a uma plateia mais sensibilizada.

Setsuko e Seita são irmãos que acabaram se separando da mãe durante um ataque no final da Segunda Guerra Mundial no Japão. Depois deste ocorrido, o irmão mais velho, Seita procura pela mãe que estava em um abrigo e por lá ele descobre que sua mãe morreu carbonizada, mas prefere omitir este fato de Setsuko, sua irmã mais nova. Os dois então vão morar na casa de uma tia, com a esperança de conseguirem algum contato com o pai, um oficial da Marinha e por lá as coisas se tornam cada vez mais difíceis com o desenrolar dos acontecimentos, pois apesar de fazer parte da família, esta tia vive xingando os irmãos de vagabundos e se volta contra eles em todos os momentos que pode, fazendo com que, cansados de suas humilhações, passem a procurar abrigo em um outro lugar, sob sua própria tutela.

Apesar de se passar durante a Segunda Guerra, o foco é outro. Acompanhamos uma série de dificuldades da população japonesa durante este período onde a comida era escassa, além dos bombardeios que ocorriam inesperadamente várias vezes ao dia. Os ataques aéreos talvez fossem os mais angustiantes. A dificuldade em lidar com perdas de entes queridos também é colocada visivelmente no contexto da obra, e transformam quase todas as cenas com uma tristeza latente. Além de tudo isso, também é retratada a solidão, a ganância e a desconstrução de uma pessoa que acaba encontrando a única saída em algo visto como imoral. Seita acaba realizando pequenos furtos em busca de comida tendo em vista que sua irmã está adoecendo por conta da fraqueza e falta de alimento.

Os vagalumes são bem inseridos na história e podemos identificar facilmente o que eles têm a ver com o título. É interessante também observar a relação de amor e cumplicidade dos dois irmãos que se dá de maneira calma e aos poucos vai amadurecendo. Os personagens são muito bem trabalhados, em todas as suas ações e é aí podemos ver mais um importante traço da animação. A influência da tradição japonesa no cinema de livre atuação traz ao longa o grande diferencial entre as direções de Takahata e Miyazaki, tendo em vista que os momentos de dramaticidade são evocados com planos contemplativos e silenciosos; algo que também pode incomodar e fazer o espectador refletir e apertar seu coração para as cenas pesadas que vêm a seguir, afinal de contas são duas crianças que passam por todas essas difíceis situações.

A trilha sonora composta por Michio Mamiya só reforça esses sentidos. As músicas ornam cruamente com as cenas e ajudam na construção narrativa. As metáforas visuais para retratar a iminência da morte, do sofrimento e dar de não poder fazer nada em uma situação de calamidade parecem se fortalecer diante da tela com sua trilha simples e melancólica.

Notável também é observar a delicadeza e profundidade em sentimentos presentes dos protagonistas. Afinal de contas, apesar de todo o impasse da fome, o abandono e as dificuldades que os dois irmãos enfrentam, a esperança parece não ter se perdido. Os dois continuam sonhando com um futuro melhor, brincando sempre e com o que podem; também para esquecer de seus problemas. Ainda que Setsuko esteja enfraquecida, ela consegue sorrir e tenta ajudar seu irmão a melhorar progressivamente, mesmo que as situações cotidianas acabem culminando gradativamente no pior.

Considerado por vários críticos como um dos melhores filmes sobre guerra e com um final melancólico, mas muito bem construído, O Túmulo dos Vagalumes é filme um belíssimo e marcante, com as cenas mais tristes encontradas em um filme animado. Difícil é esquecer de todas as cenas que se passaram quando a projeção acaba e os créditos sobem, mas é necessário que seja admirado, ainda, por muitos e muitos anos.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.