24
maio
2016
Crítica: “Omohide Poro Poro”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Omohide Poro Poro

Omohide Poro Poro

Isao Takahata, 1991
Roteiro: Isao Takahata
Walt Disney Pictures

4.5

A vida é uma trajetória, muitas vezes injusta e cheia de obstáculos imbatíveis. Mas de cabeça erguida tentamos ao máximo passar por todas essas barreiras que nos impedem de ser feliz, de conquistar algo que nos realizará e nos fará ter sucesso; seja ele profissional ou pessoal. Omohide Poro Poro (que significa Memórias que Desmoronam, em uma tradução livre) é baseado no mangá homônimo de Hotaru Okamoto e Yuko Tone e traz muitas dessas questões à tona. Ainda não pude conferir o mangá no qual o longa dirigido e roteirizado por Isao Takahata é baseado, mas li em algum lugar que tratava-se de uma criação mais aprofundada da personagem principal, tendo em vista que o foco do filme é sua vida adulta rememorando seus tão marcados 10 anos de idade.

Em meados dos anos 80, a história se inicia com Taeko, já com cerca de 27 anos, indo realizar um de seus antigos sonhos: conhecer e viver no campo. Após uma melancólica viagem de trem, ela é acolhida por uma família muito pacata de agricultores, constituída por um pai, uma mãe, dois filhos e uma avó (ou ba-chan, como preferirem). Por lá ela trabalha os ajudando nas plantações, colheita, preparação do terreno e os conquistando de diversas formas. Durante o tempo que passa com a família camponesa um sentimento latente de incrível nostalgia invade seus pensamentos e suas recordações para quando tinha 10 anos, onde ocorreram diversas coisas marcantes em sua vida, passam a se tornar presentes; Takahata, com este recurso do roteiro, mescla o passado e o presente de Taeko para mostrar como aquele passado marcado a transformou na pessoa que é nos dias atuais.

A Taeko de 10 anos era uma garota com muitos sonhos e muita vontade de conquista-los, mas mesmo com tudo isso (ou até mesmo por tudo isso) era bastante reprimida tanto por suas colegas de classe, quanto pela família, constituída pelas irmãs mais velhas, pela mãe, o pai e a avó. Isso pode ser claramente notado com as situações que são relembradas conforme a Taeko de 27 anos vai realizando suas tarefas nas plantações, colhendo frutos e flores e compartilhando-as com Toshio (com quem protagoniza diálogos maravilhosamente bem estruturados) e sua irmã, Naoko. Na escola, Taeko descobriu que um garoto estava apaixonado por ela, mas tanto os colegas do garoto quanto as suas colegas acabaram resolvendo as questões sem se importar com os sentimentos alheios, fazendo com que os dois acabassem distantes, ao mesmo tempo que gostariam de estar mais próximos; além disso, nesta fase escolar também pode-se ver a repressão por parte da instituição e dos meninos que por lá estudavam por conta das garotas entrarem na puberdade e passarem a menstruar. Tal fato era visto com nojo por todos e Taeko se incomodava com isso, mesmo algumas de suas colegas completamente alheias a este sentimento e não se importando, continuando a viver suas vidas da melhor forma e ignorando eventuais problemas.

Taeko precisou ir amadurecendo cada vez mais cedo, sobretudo por conta das repressões familiares, das imposições que suas irmãs completamente dominadas pela cultura machista a oprimiam.  A garota acabou não indo bem na disciplina de matemática, não tinha talento algum para resolver contas envolvendo frações, quando sua irmã tenta ensina-la é esculhambada por tentar dar uma lógica mais simples às convenções. E mais tarde, Taeko descobre que seu verdadeiro talento era o de atuar, representando personagens em peças de teatro. Mais uma vez foi reprimida, pois segundo seu pai, uma pessoa bastante distante e fria ao mesmo tempo que era admirada e uma figura bastante importante naquela instituição, os bastidores do show business era antro de vagabundos.

Contudo, todas essas repressões fortaleceram a vivência e experiência no mundo de Taeko, que aprendeu a lidar com os preconceitos da sociedade da forma como podia por ser uma mulher sonhadora, que não deveria ser tão independente como queria. E aqui já pode-se ver mais uma vez a responsabilidade e a retratação incrível dos cineastas do estúdio, construindo personagens multidimensionais com várias críticas sendo tomadas e o fortalecimento destes personagens por conta de tudo o que passam.

A animação e a trilha sonora também são pontos altos e marcantes no longa. Os anos 80 do filme é construído com cores muito vivas, chamativas; houve um trabalho bem cuidadoso para construir os figurinos da época, lembrando que o longa fora lançado no comecinho dos anos 90, quando algumas mudanças na moda e no comportamento já haviam ocorrido. As paisagens do campo são retratadas de forma esplendorosa e os personagens possuem traços interessantes que os diferem muito dos filmes anteriores do estúdio. Acredito que houve um certo esforço para que estes traços contribuíssem para uma maior proximidade à realidade, tendo em vista que a animação se pauta muito nesta perspectiva. Enquanto as cores vibrantes dão tom ao presente, o passado que visita Taeko é frio, com cores mais opacas, tons pasteis, diferenciando muito bem o tempo que está sendo retratado. As cores mais quentes ficam nas roupas dos personagens, que com seu carisma conquistam o espectador. A trilha sonora, composta por Katz Hoshi, traz canções interpretadas por Harumi Miyako e uma melancolia gostosa de se ouvir. É notável ressalta-la, ainda, por conta de toda a ajuda que a mesma possui na construção narrativa de diversas cenas; chega a emocionar o espectador mais sensível.

Omohide Poro Poro é uma das mais belas animações do Studio Ghibli e uma das mais esquecidas também quando seus filmes são mencionados. É um longa importante e grandioso por tudo o que propõe e envolvente por mexer com os sentimentos mais profundos do espectador, principalmente aquele que já passou pelos 10 anos de idade e que gosta de relembrar das coisas boas, marcantes e até mesmo as ruins que passaram pela sua trajetória.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.