31
maio
2016
Crítica: “Pom Poko – A Grande Batalha dos Guaxinins”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Pompoko

Pom Poko – A Grande Batalha dos Guaxinins (Heisei Tanuki Gassen Ponpoko)

Isao Takahata, 1994
Roteiro: Isao Takahata
Toho Company

4

Aprendi assistindo os filmes de Isao Takahata que tratava-se de um diretor sério. Não que Miyazaki, seu colega de produtora, também não esteja engajado com críticas severas à sociedade, mas devo admitir que Takahata tem um jeito mais sério de passar essas críticas para a tela, embora Pom Poko seja um filme totalmente engraçado e com referências a várias coisas bacanas. Digamos que Takahata deixa a cargo do público o que preferem para aproveitar o filme.

O diretor de O Túmulo dos Vagalumes (Hotaku no Haka) de 1988, é um diretor com um olhar preciso e duro para com a sociedade. Miyazaki sempre fez filmes fantasiosos com várias coisas ocultas ou as vezes explicitas pra contar em torno de sua narrativa. Mensagens muito profundas e ensinamentos incríveis, além de diversas vezes estampar várias críticas à diversas coisas. Takahata também faz muito disso como diretor e roteirista. Em Pom Poko, conhecemos um grupo de tanukis, espécies de guaxinins antropomorfizados, para tratar do avanço desenfreado dos seres humanos por desenvolvimento a todo custo. O longa é uma fábula moderna que usa e abusa de elementos folclóricos orientais, algo bastante ousado, tendo em vista que boa parte da plateia insiste em dizer que por não entender desses mitos e lendas não irão compreender o conjunto da obra. Estão enganados e nosso diretor nos conduz de maneira brilhante pela história com um roteiro forte, crítico, mas sobretudo, muito divertido.

Pode ser que o roteiro nos lembre um pouquinho Nausicäa do Vale do Vento de 1984 por conta da temática e as relações do homem com a natureza, mas o longa traz protagonistas diferentes, são todos animais antropomorfizados, muito cômicos, fortemente diferentes e bem moldados, com características marcantes e transformadoras. Na década de 60, uma ameaça à vida dos tanukis por conta de um projeto de desenvolvimento da cidade de Tóquio que vai avançar ao seu habitat natural, provoca revoltas nestes animais por sua sobrevivência. Mas é na década de 90 que o longa começa a ser desenvolvido. Tudo o que havia sido começado cerca de trinta anos antes agora é realmente posto em prática. Os místicos tanukis, porém, resolvem se unir para quem sabe de alguma forma impedir que toda sua espécie seja extinta. Dentro deste grupo estão os que querem fazer isso pacificamente e outros que querem exterminar a raça humana.

Acompanhamos os tanukis, que possuem incríveis habilidades de se metamorfosear no que bem entenderem (seja humano, objeto, planta ou fruto) e são completamente inteligentes, atrapalhando a vida dos trabalhadores do projeto. Aqui podemos perceber que esses animais não estão preocupados com eventuais mortes, pois eles provocam vários acidentes. Nem que alguns sejam sacrificados em prol do bem coletivo, tudo que é feito, só é feito porque foi planejado anteriormente e, talvez fosse uma maneira de dizer aos seres humanos que eles poderiam intervir no que fosse possível para não morrerem. Com os jornais noticiando toda e qualquer atrocidade que ocorresse por volta das obras, muitos acreditam que algum tipo de magia está interferindo no local. Mais uma vez, vemos os tanukis unidos tentando decidir o melhor para eles, principalmente os anciões tidos como os mais sábios. Neste momento, podemos encontrar conflitos internos que desembocam para algo grandioso.

Um fato curioso de toda essa revolta aos humanos é que muitos dos tanukis não querem seu extermínio completo, pois não saberiam viver sem certos comodismos, como hambúrgueres, batatas fritas e outros tipos de comida. Além do que, alguns deles enquanto transformados em humanos, passam a se viciar em jogos e bebidas alcoólicas. Outra curiosidade a ser lembrada, é a maioria deles trocando suas atividades rotineiras para ficarem imersos à alienação televisiva, onde estão espionando tudo o que a mídia divulga acerca do projeto de construção.

Nem preciso mencionar que a qualidade da animação é exímia. Talvez este também seja o filme mais ágil do Studio Ghibli até agora, principalmente por conta de seus personagens e narrativa. Também poderemos encontrar por aqui referências a Dragon Ball, Meu Vizinho Totoro, Porco Rosso e O Serviço de Entregas de Kiki em um momento divertidíssimo e cheio de aspectos visuais interessantes. E por todos esses motivos, Pom Poko é um dos filmes mais incríveis do estúdio, seja por seu caráter crítico, seja por sua construção deslumbrante, seja por suas metáforas e moral latente, o fato é que o filme é importantíssimo tanto para crianças quanto para adultos.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.