26
maio
2016
Crítica: “Porco Rosso: O Último Herói Romântico”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Porco Rosso

Porco Rosso: O Último Herói Romântico (Kurenai no Buta)

Hayao Miyazaki, 1992
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

3.5

O que você imaginaria ao ver um porco de bigode pilotando um avião enquanto resgata crianças do sequestro de piratas do ar? As crianças em questão logo ficaram animadas e o chamaram respeitosamente por Buta-san (em japonês, a partícula do “san” é uma forma de se referir com respeito às pessoas, seria como chamar de senhor ou senhora). Mas seria mesmo um porco piloto desde que nascera? Ou alguém cuja uma maldição sofrera? Estas perguntas poderão ficar ecoando na mente do espectador mais atento de Porco Rosso: O Último Herói Romântico ou Kurenai no Buta, no original.

O longa se passa na Itália do entre guerras e isso é perceptível desde o início tendo em vista que o hidroavião que Marco, o Porco pilota se vê claramente a bandeira do país em questão. Inclusive os personagens conversam sobre as consequências da grande depressão no país, além de existir toda uma reconstrução através do design de personagens e de algumas situações específicas do roteiro. Marco é um caçador de recompensas e pertencera à Força Aérea Italiana em um passado não tão distante, mas agora se vê obrigado a trilhar outro caminho e a viver isolado em uma ilha remota no mar Adriático. Em determinado momento da história, Marco precisa perde seu avião e recorre a um antigo amigo para lhe arrumar um novo. Sendo assim, os elementos que Miyazaki mais gosta de trabalhar vêm à tona. Além dos aviões e outras máquinas voadoras que se fazem presente neste filme, a força das mulheres aparece em meio a uma sociedade machista e que se preparava para ser dominada pelas qualidades imbatíveis femininas.

O espectador é apresentado a Pio, uma jovem engenheira que projeta um novo hidroavião a Marco e que chama todas as mulheres que conhece em sua vizinhança para ajudar na construção do mesmo. Marco por vezes questiona a seu amigo (e avô de Pio) a aglomeração de tantas mulheres para a construção de sua nova máquina voadora, mas após visualizar e entender fielmente o projeto através das explicações de Pio passa a ver que tudo o que pensara antes era bobagem e que todas aquelas moças, jovens e mais velhas, são inteiramente capazes de trabalhar naquilo que achava que era de competência apenas dos homens.

Além desta primeira crítica, que segue ainda por outras cenas do filme, tendo em vista que Pio viaja junto de Marco após o avião ficar pronto, o roteiro de Miyazaki também aborda de forma primorosa o entre guerras, a ascensão do fascismo e as consequências que uma guerra pode causar. Além disso, a jornada e o mito do herói são desconstruídos e mostrados de uma nova forma. Outros personagens recorrentes vão sendo adicionados à trama e mesmo tímidos em suas primeiras aparições, mostram-se importantes no desfecho da narrativa. A animação ainda brinca com os easter eggs (ovos de páscoa, no literal, que significam certas referências específicas espalhadas e escondidas) e em determinado momento vemos uma máquina de escrever estampando o nome do estúdio Ghibli, brincadeira que já pôde ser vista em O Serviço de Entregas da Kiki.

A qualidade da animação é sempre um ponto a ser observado nos filmes de Miyazaki e do Estúdio Ghibli. E desta vez o espectador é agraciado com a mescla de cores e a retratação de uma Itália diferente da que comumente se vê na maioria dos filmes. As relações entre o protagonista Marco e outros personagens do filme são bem trabalhadas, mesmo com o pouco tempo de projeção que o longa tem. Além disso, os diálogos são engraçados e interessantes na maioria das cenas e é simplesmente incrível ver Pio rebatendo todas as piadinhas machistas que aparecem e fazem com ela.

Mesmo com certos problemas de ritmo, que prejudicam um pouco o início do longa, Porco Rosso: O Último Herói Romântico é um filme divertido e que faz o espectador escolher alguém para torcer durante os impasses que os personagens se colocam. É um filme com vários elementos que marcam a filmografia de seu diretor e que merece ser visto pelos personagens carismáticos que são apresentados na tela.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.