08
maio
2016
Crítica: “Samba”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Samba

Eric Toledano e Olivier Nakache, 2014
Roteiro: Eric Toledano e Olivier Nakache
California Filmes

4

A questão da imigração na Europa está cada vez mais atual e globalizada. Infelizmente, não são raras às vezes em que acompanhamos notícias tratando de atentados terroristas no velho continente. A França, no final do ano passado, foi vítima de um desses ataques. É óbvio que os ataques não acontecem por conta da ida cada vez mais frequente de sul-americanos, árabes e africanos para aquele continente em busca de uma melhora de condição social e financeira. Porém, a imigração serve como um prato cheio para que extremistas e xenófobos condenem e dificultem ainda mais a vida dos imigrantes em seus países. Em 2014, ano anterior aos ataques na capital francesa, os diretores Olivier Nakache e Eric Toledano lançaram Samba, um longa-metragem que trata muito bem dessa delicada questão.

Samba (Omar Sy) é um imigrante senegalês que vive em Paris há 10 anos de forma irregular, ou seja, sem possuir um visto definitivo para residir na França. Quando é pego pela polícia federal, acaba sendo preso até que o juiz decida qual será seu destino. Na prisão, conhece Alice (Charlotte Gainsbourg) e Manu (Izïa Higelin) duas voluntárias de uma ONG que ajuda os imigrantes a conseguirem o visto e uma vida digna. A partir daí começamos a acompanhar toda a jornada de Samba em se estabelecer no país.

A apresentação de Samba e toda sua trama é muito bem executada pela direção, já que na sequência inicial do longa, a câmera acompanha todos os ambientes de uma luxuosa festa, passando pelos convidados, seguindo por cada ambiente da casa de festas, até chegar na cozinha, onde mostra os trabalhadores, a maioria deles negros, em condições completamente diferente de todo o luxo visto anteriormente. Essa ambientação tira o espectador da ideia de uma Paris luxuosa na qual estamos acostumados e nos insere em uma cidade mais marginalizada, onde imigrantes vivem a sombra da sociedade em busca de sobrevivência.

Toda a ambientação dada pela fotografia e pelo design de produção é de suma importância para essa impressão de cidade marginalizada na tela. A fotografia hesita em usar cores quentes, trazendo sempre um tom mais sóbrio, quase invernal, enquanto a direção de arte e o figurino são responsáveis por criar ambientes desgastados e roupas surradas para os personagens. Esse contraponto da vestimenta fica muito bem evidenciado quando o tio de Samba, após ter seu visto negado, aconselha o sobrinho a se vestir como um “europeu”, ou seja, trajando ternos e malas de couro, para que dessa forma pudesse passar despercebido pela multidão parisiense. O trabalho de figurino na composição das personagens é realmente admirável, inclusive na escolha das vestes de Alice e Manu, enquanto a primeira é uma mulher mais tímida e se veste de maneira sóbria, praticamente social, a segunda é aparentemente muito mais jovem – e sabemos que é só aparência -, além de se vestir de uma maneira despojada, assim como sua personalidade sugere.

E, se a toda a ambientação visual do longa dá a impressão de um lugar mais triste e distante da imagem romântica clichê de Paris, o roteiro nos dá uma porção de alívios com um texto leve, e de fácil digestão, que consegue atingir todas as camadas de público, levando o tema à lugares onde talvez nunca antes alcançado. É claro que em nenhum momento o roteiro nos deixa esquecer a vida difícil pela qual os imigrantes passam, principalmente quando nos é mostrado a dificuldade em arranjar um emprego temporário e o sufoco que é viver portando documentos falsos por terem vistos negados. Mas nem por isso são evitados momentos engraçados como, por exemplo, quando Wilson um árabe que se passa por brasileiro, dança e faz um strip-tease pendurado em um andaime limpando vidros, além das sequências festivas, onde estrangeiros e franceses bebem e dançam em perfeita harmonia. E são nesses momentos em que a fotografia se torna mais iluminada.

Porém, é na escalação do elenco onde reside o maior acerto do longa. É inegável o carisma de Omar, e assim como é impossível imaginar Driss de Intocáveis (dir: Olivier Nakache e Eric Toledano, 2011) na pele de outro ator, o intérprete consegue fazer o mesmo com Samba. Muito da leveza do texto se dá por conta da atuação de Omar, já que ele consegue nos fazer rir e emocionar nos momentos mais improváveis, tão improvável que a impressão que pega de surpresa inclusive seus colegas, principalmente Charlotte Gainsbourg, que dá vida à uma personagem complexa, que toma remédios para dormir e não sabe lidar muito bem com as pessoas; mais uma vez faz com uma destreza invejável. E, por falar em Gainsbourg, nela se concentra um momento divertidíssimo do roteiro, quando ela falando sobre os exageros da sua personagem, cita um certo exagero sexual, fazendo uma referência ao seu longa anterior Ninfomaníaca (dir: Lars Von Trier, 2013) trazendo um pequeno exercício de meta linguagem, que se não atingiu à todos, é impossível que não tenha atingido quem conhece a obra do dinamarquês.

Samba é um retrato da Europa atual, ao menos do ponto de vista dos estrangeiros que lá tentam a sorte e nem por isso é um longa totalmente denso, conseguindo lidar com a trama usando um ótimo equilibro entre a leveza e o peso, com que certamente os imigrantes passam em sua vida.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.