01
maio
2016
Crítica: “Ventos de Agosto”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier
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Ventos de Agosto

Gabriel Mascaro, 2014
Roteiro: Gabriel Mascaro
Vitrine Filmes

4

A relação do homem com a natureza, a forma como lidamos com a vida e a morte e as fracassadas tentativas de controlá-las são as tônicas de Ventos de Agosto (2014), primeiro longa de ficção do brasileiro Gabriel Mascaro. O diretor, após consolidar a sua carreira no gênero documentário, com destaque para o inspirador Domésticas (2012), também discute na sua obra de ficção questões de identidade e pertencimento, com uma intensa crítica ao desenvolvimento social, e nos apresenta uma produção que traz consigo a impressão de ser dois filmes dentro de um.

Em um primeiro momento somos apresentados à Shirley (Dandara de Morais), uma jovem que mora numa vila pobre do litoral de Alagoas, cercada por rios e mares. A personagem, a contragosto, foi morar no local isolado para cuidar da sua avó idosa. Enquanto desempenha a sua tarefa, Shirley trabalha com outros homens na colheita de cocos e tem uma relação com Jeison (Geová Manoel dos Santos). A jovem, diferente das pessoas que habitam a vila, possui um pensamento moderno, gostando de ouvir rocks pesados e sonha em ser tatuadora. Jeison, no entanto, é um garoto sem muita personalidade, dominado pelo seu pai, e divide os seus dias entre Shriley, o trabalho com os cocos e mergulhos de pesca.

Após sermos apresentados ao vilarejo, Shirley e Jeison, conhecemos um meteorologista (interpretado pelo próprio Mascaro), que vai à vila para pesquisar o vento e a subida das marés. Ele acaba morto em um acidente no mar e a rotina dos personagens, junto com a narrativa do filme, muda completamente.

Apesar de Ventos de Agosto desenvolver a sua narrativa a partir deste argumento, percebe-se que a obra não possui um começo, meio e fim, sendo como uma espécie de recorte temporal de um cotidiano que já existia e que continuará existindo após o final do filme. A produção explora as belezas naturais em contraste com a miséria do vilarejo e o silêncio das personagens, dando a sensação da falta de um arco narrativo e uma ação motivadora definidos. O ar naturalista-realista-contemplativo dá o tom.

Posteriormente, em seu segundo longa de ficção, Boi Neon (2016), notamos que essa é uma estética presente na bagagem do autor, que conta a sua história por este viés naturalista, dando a impressão de um filme sensível e ao mesmo tempo bruto. Por Mascaro ter vindo do documentário, pode-se dizer que a estrutura de seus filmes bebe na fonte do gênero que o consagrou. Este estilo documental está impresso também na forma como os atores da produção se posicionam perante às câmeras, a forma natural como os diálogos desenrolam, parecendo que não há um roteiro e uma direção a serem seguidos.

No entanto, por mais que o filme preze pelo silêncio e possua esse estilo, ele se mantém interessante em seu desenrolar, com as belas tomadas da paisagem local, que desempenha um papel fundamental na história. Na verdade, a natureza é o grande antagonista, com os seus ventos e ondas indomáveis.

Em contraste com a natureza e a sua exuberância, somos apresentados à insalubridade presente na região. O vilarejo, cercado por rios e mares, é isolado da civilização e os seus personagens mais velhos carregam traços de uma cultura atemporal, saudosos de um tempo que passou e eles não viveram, se tornando verdadeiros ermitões. Eles encarnam a figura dos sábios, sempre com falas marcantes, e traços que hoje são considerados ultrapassados e tribais, com benzedeiras e pescadores que confeccionam a sua própria rede de pesca à mão e estranham fotografias e tudo o que diz respeito à modernidade. Temos a impressão de que o tempo não passou naquele local e somente percebemos sinais do “desenvolvimento” por meio de objetos como televisores, antenas parabólicas, celulares (que precisam ser utilizados em cima de um cume para que obtenha sinal), a Coca-Cola que Shirley usa para bronzear seu corpo, motos que chegam ao continente através de barcos.

Essa oposição entre o moderno e o ultrapassado é responsável pela crítica ao desenvolvimento social do país nos últimos anos, e Mascaro consegue fazê-la sem se tornar panfletário ou pedagógico. Além disso, o diretor também discute temas contemporâneos, como a subida do mar, que devasta diversas regiões do país, e mais uma vez ele imprime o seu tom realista e documental ao mostrar Jeison assistindo a um telejornal real com imagens reais do mar subindo e devastando outros locais de Alagoas.

Outro fato recorrente na cinematografia de Mascaro é a forma como ele discute – com bastante propriedade – as características masculinas e femininas em contraposição e a força da mulher. Shirley tem um caráter independente e realiza afazeres considerados masculinos, como pilotar um trator na lida com os cocos e trabalhar cercada de homens. Mesmo lidando com essas tarefas brutas, Shirley possui traços de feminilidade, como na forma como ela cuida de sua avó, e é dona do seu próprio corpo, pois é ela quem decide quando quer transar com Jeison, e encara a sexualidade e a nudez sem tabus. Oposto à Shirley, Jeison é um rapaz sensível, que nos mostra uma passividade, tanto com o pai, quando com a namorada. O jovem, inclusive, é o único que se padece com a morte do estrangeiro, lavando e cuidando do seu corpo em decomposição.

A forma natural e brutal como os personagens lidam com a morte causa uma estranheza e se torna, ao mesmo tempo, curioso, principalmente por fazermos parte de uma sociedade que abomina assuntos relacionados à ela. Adultos e crianças passam pelo defunto e falam sobre a forma como ele morreu e como o seu corpo se decompõe sem esboçar sentimento. Em paralelo a isso, podemos observar essa brutalidade seca no trabalho dos personagens, que trepam em árvores, colhem o coco e o descascam como se estivessem fazendo a tarefa no piloto automático, sem emoção. Os moradores da vila, na verdade, são conformados com a sua realidade e imunes a todos os estímulos, incluindo a morte.

Ventos de Agosto discute todas essas questões com o recheio das belas cenas do local, uma trilha sonora e momentos espirituosos que conseguem despertar o riso e ao mesmo tempo questionamentos sobre a dura realidade do Brasil contemporâneo, que se desenvolveu e modernizou, porém não foi igual para todos. Enquanto eles tentam conter a chegada do mar na praia em que estão as lápides de seus defuntos com barreiras inúteis, a natureza avança sem conseguir ser domada, assim como a morte. O filme pode ser definido pela frase de um pescador da vila: “Quando morremos não vamos nem pro céu, nem pro inferno. Voltamos pro mar”. Na primeira cena, vemos um pequeno barco desbravando um rio e indo para as águas profundas do mar; no decorrer do filme, é o mar quem desbrava a terra, mostrando que, na verdade, é a natureza devastadora que controla a realidade, a vida e a morte do ser humano. É um filme muito poético!



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.