27
maio
2016
Livro e Filme: Planeta dos Macacos
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

Me interessei por Planeta dos Macacos (tanto livro, quanto filme) por conta de um vídeo que assisti na internet sobre a maquiagem revolucionária que o filme trazia para a época – você pode assisti-lo AQUI. Assinada por John Chambers, logo fiquei interessado, procurei os filmes e os assisti seguidamente, gostando muito de alguns e detestando outros. O fato é que eu tenho mais motivos para gostar e admirar os filmes originais, a quintologia (?) de Planeta dos Macacos, do que parar odiar. Com o lançamento do livro e a leitura do mesmo, trago a vocês um texto que tentará ilustrar de várias formas os elementos que me fazem gostar muito dessa história a ponto de compartilhar para que mais pessoas também se interessem.

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Livro: O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. Aleph. 216 páginas. Skoob.

Filmes: Planeta dos Macacos (1968), De Volta ao Planeta dos Macacos (1970), Fuga do Planeta dos Macacos (1971), A Conquista do Planeta dos Macacos (1972) e Batalha do Planeta dos Macacos (1973).

O Livro

Publicado no brasil pela Editora Aleph com um projeto gráfico bastante interessante e que remete um pouco ao que Boulle escreve logo nas primeiras páginas do romance, o livro traz uma capa bastante sugestiva e chamativa: um crânio de macaco, com um fundo vermelho e uma tipografia que lembra algo escrito à mão – remetendo a algo primitivo, talvez. Em seu objeto, há a imitação de um moleskine, com os cantos arredondados, páginas mais grossas (e amareladas), fonte em um tamanho confortável e algumas ilustrações discretas para a passagem das três partes e os textos de apoio presentes no livro.

Pierre Boulle nasceu em Avinhão, França em 1912 e se formando engenharia, trabalhado durante a Segunda Guerra Mundial, como agente secreto e começando a escrever quando de mudança pra Paris residiu em um hotel. Em 1952, publicou A Ponte do Rio Kwai, que se tornou um bestseller mundial, ganhando o Prix Sainte-Beuve. O romance traz muito das experiências de Boulle durante a guerra. Acabou indo morar com a irmã, recém casada. A experiência de Pierre com o cinema se deu inicialmente quando David Lean adaptou A Ponte do Rio Kwai em 1957, filme que lhe rendeu vários prêmios. Ele acabou ficando com o Oscar de melhor roteiro adaptado, mesmo sem tê-lo feito porque os roteiristas originais estavam na lista negra que Hollywood tinha na época para escritores considerados comunistas.

Mas, vamos falar sobre um outro romance do autor. Planeta dos Macacos começa com uma história dentro da história. Dois astronautas, Jinn e Phyllis, passam o tempo contando histórias um pro outro. É a partir daí que a verdadeira trama começa. Ulysse é um humano que junto de seus colegas aporta no Planeta Sóron, onde percebem que alguma coisa está errada e que humanos são tratados como animais irracionais enquanto macacos são vistos como grandes seres racionais e importantes. Isso é constatado quando os tripulantes se deparam com Nova, uma humana desprovida de qualquer traço de “civilização”. Sendo todos capturados pelos macacos, Ulysse, revoltado com sua situação tenta mostrar aos chimpanzés, gorilas e orangotangos que o observam que também é capaz de raciocinar, falar e agir como eles. É a partir daí que entra Zira e seu noivo Cornelius, dois chimpanzés doutores e pesquisadores que acreditam em Ulysse e se mobilizam para ajuda-lo.

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Zira e Cornelius.

As três partes em que o livro se dividem são bem marcadas. Na primeira, temos esta introdução dos personagens e a captura de Ulysse; na segunda, temos as pesquisas de Zira e uma importante reviravolta, culminando na terceira parte que tem um desfecho fenomenal para a história e que nos faz refletir sobre diversas questões. Aliás, já que estamos comentando o livro e os filmes, é válido ressaltar que o filme apenas se inspira no livro e, digamos que, apenas na primeira parte, já que a segunda e a terceira se diferem muito ao conteúdo e rumos da história adotados no cinema, aliás, muitas coisas da mitologia do livro são bem diferentes do filme.

A escrita de Boulle é muito aprazível. O texto tem uma forma muito interessante e é narrado em primeira pessoa por Ulysse, mostrando todas as suas impressões deste novo planeta em que se encontra, além de suas emoções e a forma como enxerga alguns dos personagens mais incríveis do romance, como Zira, uma personagem fantástica, cheia de nuances e perspicácia. Já Cornelius é mais interessante (e gentil) nos filmes; a forma como é retratado nos livros, um tanto quanto desconfiado e frio o distancia de alguma empatia por parte do leitor. As descrições do autor para com este novo planeta e o aprofundamento da mitologia criada são muito bem trabalhados.

E esta edição da Aleph não é só bacana por conta do texto e si do livro e o trabalho gráfico, os textos de apoio são muito interessantes. Além de alguns introdutórios, onde o o leitor já pode se familiarizar com o que virá pela frente, há ainda uma entrevista do autor para o periódico francês Cinefantastique, publicado em 1972, que esclarece algumas possíveis dúvidas do leitor para com o romance; um texto de Hugh Schofield para a BBC News, que ilustra muito sobre a trajetória do autor traçando um paralelo com suas obras e um posfácio do escritor Bráulio Tavares, que traz um panorama bem interessante sobre o universo de Planeta dos Macacos. O livro é traduzido diretamente do francês pelo tradutor André Telles.

Os Filmes

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Em 1968, Franklin J. Schaffner dirigiu o primeiro filme que iniciaria a série de filmes, sendo um grande sucesso de público e de crítica e marcando o cinema mainstream da época. Até hoje este primeiro filme de Planeta dos Macacos é um ícone da cultura pop, com diversas cenas famosas (a maior delas – que estampa diversas capas de dvds e posteres – é um grande spoiler). A trama é bem distinta da apresentada do livro, em sua forma e alguns nomes diferentes. Taylor (Charlton Heston) é um astronauta que aterriza com sua equipe em um planeta muito semelhante à Terra, logo ele descobre que trata-se de um novo império gerido pelos macacos (as três espécies: orangotangos, chimpanzés e gorilas) e que estes estudam humanos. Conforme a história vai avançando Taylor é estudado pelos doutores Zira (Kim Hunter) e Cornelius (Roddy McDowall), dois chimpanzés que acreditam em suas palavras. Com o desenrolar da história, destinos bem diferentes para as personagens são dados e que culminam num plot twist interessante para segurar o espectador para o próximo filme.

De Volta ao Planeta dos Macacos foi lançado em 1970 e dirigido por Ted Post, com novos personagens e situações. O astronauta Brent (James Franciscus) é enviado para resgatar Taylor e seus companheiros, mas quando chega no Planeta dos Macacos acabam encontrando uma sociedade de humanos completamente modificados e abduzidos, de certa forma, que moram no subterrâneo da sociedade dos macacos e que têm uma bomba capaz de destruir toda o planeta. Com isso, os personagens tentam a todo custo lidar tanto com a sede dos macacos de prendê-los, quanto com os humanos que também têm grande ambição e querem destruir os macacos. Confesso que acho esse segundo filme bem arrastado e confuso, tendo um desfecho bem mal desenvolvido e personagens, efeitos e direção grotescos. Mas com o terceiro filme da franquia tudo melhora.

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Fuga do Planeta dos Macacos (Don Taylor, 1971) é o filme mais divertido e mais interessante da série. A trama acompanha a chegada de Zira, Cornelius e Milo (Sal Mineo) na Terra na época atual. Os três conseguiram voltar no tempo com uma nave espacial para escapar do que aconteceria no final do segundo filme. Com isso, passam a serem visto pela sociedade homo sapiens como aberrações, mas ficam interessados em estuda-los. Com o passar dos acontecimentos, das tentativas da macaca carismática Zira e de seu marido Cornelius de mostrarem ao mundo que têm inteligência, o governo passa a temer o que os dois chimpanzés representam e descobrem que o filho que Zira está esperando pode ser uma ameaça ao futuro da humanidade. O roteiro e a direção deste longa são as principais virtudes do mesmo, que é o melhor da franquia, junto do primeiro. E é a partir deste filme que o espectador pode especular sobre a série tratar de um looping infinito no tempo.

O longa seguinte, Conquista do Planeta dos Macacos foi dirigido por J. Lee Thompson em 1972 e se passa vários anos depois dos acontecimentos do terceiro filme. Neste longa, o filho de Zira e Cornelius, César (interpretado também por Roddy McDowall) está no meio de uma escravidão de macacos, onde estes servem aos humanos, já que possuem uma inteligência e facilidade de adaptação acima do esperado. Armando (Ricardo Montalban) é o único que ajuda César, porém logo é descoberto pelo governo e passa a ser investigado. Enquanto isso, os macacos planejam uma rebelião para se libertarem das garras dos humanos. Este também é um filme bastante interessante, que dá continuidade ao terceiro filme de forma satisfatória, mas que não chega a ser tão incrível quando o seu antecessor.

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Para fechar a série, A Batalha do Planeta dos Macacos (J. Lee Thompson, 1972) traz à tona, alguns vários anos depois, a formação de uma nova sociedade liderada por macacos, no caso, liderada por César, com o apoio de alguns humanos, que já começam a ser discriminados pelos gorilas. Com uma batalha se aproximando, macacos e humanos precisam se unir ou se distanciar. O longa traz um desfecho bacana pra tudo que fora construído nos filmes anteriores, reforçando a ideia de ser uma franquia cíclica, com grandes acertos e também alguns erros.

Curiosidades

Algumas diferenças marcantes entre o filme e o livro: No filme, os humanos usam roupas feitas de peles de animais, enquanto no livro estão todos nus; A tecnologia da sociedade símia é bastante primitiva no filme, enquanto no livro, os macacos tinham vários equipamentos tecnológicos como carros, helicópteros, televisores. O estúdio decidiu fazer o filme com a tecnologia primitiva por conta dos gastos de produção que seriam elevados; No filme, os macacos falam inglês, enquanto no livro falam uma língua completamente diferente, tendo Ulysse aprendido para poder se comunicar com os macacos, Taylor, no filme, sofre um ferimento na garganta e não pode falar até se curar.

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Existe uma cena específica e bastante famosa no filme que também está presente no livro, só que em um contexto completamente diferente. Quando li esta cena em questão automaticamente me lembrei do filme e de como a cena acontece por lá.

O personagem do filme, Dr. Zaius (Maurice Evans), inspirarou alguns anos depois a criação do vilão Doutor Gori e seu capanga Karas do seriado japonês (tokusatusu) Spectreman, que também tratava de macacos.

A maquiagem do filme era feita alguns intantes antes da gravação. Os atores principais que interpretavam macacos colocavam uma máscara e em seguida maquiados, tendo que permanecer com essa maquiagem durante todo o  dia de gravação, comendo apenas líquidos de canudo. Inclusive, suas maquiagens eram bastante diferentes umas das outras, o que deixava o filme ainda mais interessante, já que todos tinham traços completamente distintos. Os figurantes que interpretavam macacos utilizavam apenas uma máscara, já que não teriam closes em seus rostos e muito menos diálogos. A Academia reconheceu a maquiagem de Planeta dos Macacos com um Oscar especial, tendo em vista que naquela época ainda não havia uma categoria para premiar os maquiadores. Foi com o filme O Homem Elefante (David Lynch, 1980) que começaram a pensar em premiar os profissionais desta categoria e no ano seguinte o longa Um Lobisomem Americano em Londres (John Landis, 1981) venceu o primeiro Oscar de maquiagem.

Concluindo

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A franquia original de Planeta dos Macacos merece ser vista por uma série de motivos. Existem mais filmes bons, com acertos do que filmes ruins e erros. Existem personagens bastante cativantes para se apegar, tramas interessantes para acompanhar e algumas discussões para se levantar. Assim como o livro, que tem uma genialidade ao tratar de certos temas. Acredito que o maior mérito de Pierre Boulle tenha sido o de contar uma história simples de ficção científica, com grandes metáforas e várias reflexões. Recomendo!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.