09
jun
2016
Crítica: “A Viagem de Chihiro”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi)

Hayao Miyazaki, 2001
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

5

As obras fantasiosas de Miyazaki não são fantasiosas em todos os momentos, as vezes isso é só um artifício utilizado para suavizar as críticas que o cineasta quer passar para o público. Em A Viagem de Chihiro o diretor propõe e levanta várias discussões que se pode ter para com os sistemas sociais aos quais estamos vulneráveis; as formas de trabalho são mostradas de forma muito criativa.

O enredo segue a protagonista Chihiro, uma garota que acaba de mudar com seus pais para uma nova cidade. A menina que a todo instante reclama desta mudança fica emburrada no banco de trás e contra sua vontade segue seus pais quando os mesmos resolvem entrar em um túnel ao qual se deparam. Este túnel os leva para um outro mundo, onde encontram diversas casinhas e uma espécie de feirinha deserta, onde encontram comida. Os dois passam a comer tudo que está à disposição, enquanto Chihiro, com medo, começa a caminhar pelo local aparentemente macabro. É aí que a menina conhece Haku, um garoto de olhos verdes que possui poderes mágicos e que avisa que este mundo não é para humanos. Os pais de Chihiro acabam transformados em porcos e a menina precisa se esconder dos perigos que lá a cercam. Mas é através da ajuda de pessoas boas que por lá existem que ela consegue chegar à Yubaba, uma bruxa escravagista que pode lhe dar um emprego em sua casa de banhos para espíritos.

No caminho de Chihiro, alguns personagens bem interessantes cruzam seu caminho. O senhor Kamaji, é um humanoide que mais parece uma aranha, cuida dos banhos quentes na casa de banhos e é ajudado pelas incríveis e fofas fuligens, carregando carvão para alimentar o fogo. Este senhor utiliza todas as suas mãos e pernas disponíveis para executar seu trabalho de forma rápida e proveitosa, parando de vez em quando para descansar e comer. Quem lhe entrega a refeição do dia é Lin, uma trabalhadora da casa de banhos que ajuda Chihiro a subir todos os andares possíveis para chegar nos aposentos de Yubaba. Chihiro vê em Lin uma valorosa amiga neste mundo que não consegue compreender. A mitologia criada pelo roteiro para este mundo é uma das mais incríveis já vistas em filmes do estúdio, tendo em vista que por lá todos sentem um forte cheiro da menina e reclamam deste; é explicado que com alguns dias comendo a comida daquele local e o cheiro de humana desapareceria. Trabalhando na casa de banhos, um, misterioso cliente aparece e começa a comer tudo e a todos, trata-se de um monstro chamado Kaonashi, ou sem rosto, que aparentemente é mau só dentro daquele estabelecimento.

As referências a outros filmes do estúdio, sobretudo Meu Vizinho Totoro não acabam nas fuligens trabalhadeiras; em um determinado momento, no elevador, Chihiro se depara com uma criatura enorme que lembra muito o formato de Totoro, os mesmos olhares de quando Satsuki, no outro filme, ao ficar lado a lado com o bicho de sua imaginação são os olhares de Chihiro para esta estranha criatura.

Como já mencionado, apesar de ser um filme muito mágico, o roteiro aborda a questão do trabalho escravo, do trabalho infantil, da mais valia, da alienação nos meios trabalhistas, enfim, uma série de questões que facilmente o incluiriam em nossa lista de Filmes sobre Trabalho. Chihiro precisa trabalhar para continuar naquele mundo, já que não tem mais como voltar para onde vivia e seus pais estão transformados em porcos; aliás, porcos que nem a mesma consegue reconhecer mais. Haku logo explica para a menina que naquele mundo Yubaba retira os nomes de seus empregados para que eles não consigam mais saber quem são; no caso Chihiro passa a ser chamada de Sen.

Todos os personagens citados e mais alguns deles que vão sendo inseridos na trama conforme vai se desenvolvendo são muito bem construídos, até mesmo aqueles que aparecem só pra cumprimentar os protagonistas em suas jornadas. Zeniba, um bebê, uma mosquinha e um sapo também são personagens fundamentais. Aliás, há uma clara tentativa da desconstrução da jornada do herói, ou melhor, da heroína. Os principais elementos dessa jornada estão lá, mas não há um objetivo muito claro na trajetória de Chihiro, ela precisa apenas cumprir a manutenção de sua sobrevivência neste novo mundo em que se encontrar, mesmo quando algumas possibilidades de fuga e retorno para sua vida normal são jogados em sua porta; é interessante notar que a menina se preocupa com as coisas que estão consigo no momento mesmo que queira pensar em seu futuro. O amadurecimento está presente na trama e mostra que Chihiro consegue crescer como ser humano depois que reflete sobre tudo o que passa.

Ao chegar em seus minutos finais, o espectador pode começar a confabular as mais diversas teorias sobre aquele fantasioso e mágico mundo que acabara de presenciar. As evidências, possíveis provas e outros artifícios que possam comprovar algumas teses estão lá e são percebidos pelos personagens. A mensagem final é linda e mostra que o longa é um dos melhores da história da animação por todos os elementos de roteiro, design de produção, músicas e direção.

Com uma trilha sonora profundamente marcante composta pelo amado Joe Hisaishi, que aliás coleciona diversos trabalhos incríveis dentro dos filmes do Studio Ghibli, personagens muito bem construídos dentro de um roteiro insanamente fantástico e uma crítica social aliada à boa mensagem passada, A Viagem de Chihiro é um dos melhores filmes de Hayao Miyazaki e merece ser visto por todas as idades.

Abaixo um vídeo sobre o filme que fiz em 2014:


 

 

 



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.