08
jun
2016
Crítica: “Alice Através do Espelho”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Alice Através do Espelho (Alice Through The Looking Glass)

James Bobin, 2016
Roteiro: Linda Woolverton
Disney/Buena Vista

3

Alice Através do Espelho é, assim como seu antecessor (Alice No País Das Maravilhas, 2010), um filme nada mais do que mediano, mas que mesmo com sérios problemas de roteiro consegue divertir por algumas boas ideias e um visual inventivo.

Ambientado alguns anos após os eventos do filme anterior, o roteiro segue a protagonista Alice (Mia Wasikowska) em sua volta ao País das Maravilhas e sua jornada para tentar resgatar os pais do Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), o que envolve viagens no tempo através da “cronoesfera” roubada do Tempo (personificado por Sacha Baron Cohen).

Adotando mais uma vez uma estrutura episódica que impede um ritmo narrativo envolvente, o filme ainda encontra um sério problema ao não conseguir estabelecer o sentimento humano de seus personagens, principalmente ao resumir o drama vivido pelo Chapeleiro em basicamente uma cena artificial – e levando em consideração que é a sua dor que leva a protagonista a embarcar em toda sua aventura, isso acaba sendo um problema ainda mais sério do que normalmente já seria.

Além disso, a caracterização exagerada do personagem (mais ainda do que no filme anterior), somada a atuação no automático de Johnny Depp (que surge em cena sempre com os olhos arregalados e expressões exageradas desprovidas de qualquer sutileza) transformam o personagem que deveria ser o centro dramático da narrativa em apenas uma figura visualmente peculiar.

Mas não há como negar que a melhor coisa do filme é realmente sua estética. Mais uma vez apostando em cenários grandiosos e coloridos, o designe de produção e a fotografia são muito eficientes não apenas em criar um visual curioso, mas também em fazer a distinção entre os diferentes locais onde a história se passa. O “mundo real” é cheio de luzes de velas, enquanto no País das Maravilhas tudo é bem iluminado e recheado de cores vivas e vibrantes. Já o castelo que abriga o Tempo é todo preto, azul, cheio de sombras e misterioso, enquanto os domínios da Rainha de Copas são todos cheios de vermelho.

Aliás, é interessante notar como a casa do Chapeleiro tem, mais do que apropriadamente, o formato de um chapéu, enquanto a casa (ou castelo?) da Rainha de Copas tem o formato de um coração. Igualmente interessante é a maneira como o filme representa visualmente elementos quase abstratos, como a cronoesfera (uma esfera utilizada para viajar no tempo) e os pequenos soldadinhos chamados Segundos, que quando se unem formam combatentes mais poderosos chamados Minutos. Também é interessante notar que o local onde o Tempo para um relógio com o nome de uma pessoa para simbolizar sua morte seja um ambiente cheio de nuvens, o que até dá um curioso e discreto subtexto religioso ao filme.

Uma pena que a trilha sonora de Danny Elfman deixe tanto a desejar, sendo completamente onipresente o filme todo, e mudando de ambiência diversas vezes no meio de diálogos como se temesse que o espectador não fosse entender o que está sendo dito.

Em relação ao elenco, o maior destaque é a jovem e talentosa Mia Wasikowska, que protagoniza o filme com segurança e muito carisma. Já Helena Bonham Carter não traz nada de novo a sua Rainha de Copas, enquanto Anne Hathaway abusa dos maneirismos de fada com sua Rainha Branca. E Sacha Baron Cohen mostra que nada que ele faça em um filme chegará aos pés do que ele fazia com seus personagens (Borat, Brüno e Ali G) ao atuar com pessoas reais que não sabiam que ele na verdade estava interpretando. Mas mesmo assim, não há como negar que o ator se diverte imensamente, e mesmo com um sotaque forçado, consegue ser o centro das melhores piadas do filme (aquela que envolve a expressão “o tempo está voando” é a minha preferida).

Sendo visualmente interessante em vários sentidos, mas deixando bastante a desejar em relação à sua estrutura e seus personagens, Alice Através do Espelho ainda é uma boa diversão que vale o ingresso e mostra que nem todas as continuações se limitam a copiar as ideias temáticas e estéticas de seu antecessor.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael