30
jun
2016
Crítica: “As Memórias de Marnie”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2016, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
As Memórias de Marnie (Omoide no Mānii)
Hiromasa Yonebayashi, 2014
Roteiro: Keiko Niwa, Masashi Andō e Hiromasa Yonebayashi
Califórnia Filmes

5

Hiromasa Yonebayashi é um diretor com características muito interessantes quando constrói a narrativa de seus filmes. Seus trabalhos no estúdio são extremamente fofos, delicados e com uma sensibilidade marcante. Arrisco a dizer que o trabalho que encerra (por enquanto) as atividades do Studio Ghibli é um de seus mais íntimos; tal escolha de adaptar o livro homônimo da escritora inglesa Joan G. Robinson não poderia ser melhor, pois a história por si só já é encantadora.

Disposto a se aventurar em uma trama bastante real, com toques de fantasia e mergulhos intensos nas memórias pessoais de uma família, Yonebayashi conduz o longa de forma lenta, dando ao espectador tempo para se deliciar com as personagens que vão sendo apresentadas. Este recurso é muito bem utilizado, tendo em vista que o cineasta mexe no mais íntimo de sua protagonista Anna, uma garota muito tímida e retraída que não revela muito de si ao público nos primeiros instantes. Por recomendações médicas, a menina vai passar algum tempo na casa de tios que moram em uma cidadezinha litorânea e por lá sua história de vida vêm completamente à tona, quando se depara com um casarão para além da água. Suas lembranças mais escondidas aparecem e explorando o local conhece uma garota misteriosa chamada Marnie, com quem mantém uma amizade intensa e ao mesmo tempo dolorosa. Conforme a trama vai avançando, percebe que Marnie não está lá realmente e trata-se apenas de uma lembrança profunda e desconhecida.

Enquanto suas aventuras com Marnie acontecem, Anna conhece algumas pessoas da cidade, como Hisako, uma pintora paisagista que passa a maior parte de seu tempo ilustrando o que vê no horizonte. A garota que gosta muito de desenhar e desempenha isso com maestria já parara para fazer arte junto da mulher. Anna também conhece Toichi, que não fala quase nunca e que está sempre com seu barco navegando pelas águas calmas da região; Sayaka, a nova moradora do casarão, uma menina muito curiosa e companheira e é, claro, seus tios incríveis Kiyomasa Oiwa e Setsu Oiwa. Fica pairando no ar uma relação um tanto quanto fria e delicada com sua mãe adotiva, Yoriko, por conta de certas coisas descobertas e reveladas no decorrer da trama e que são muito bem construídas ao redor das outras situações. É um filme sobre memórias intimas, famílias que se unem nos mais delicados momentos e tristezas de histórias passadas. A história de vida de Marnie é algo muito triste e revelado de forma muito tocante ao público, mesmo que soe muito rápido para um longa que não tem pressa.

O design de produção é um dos pontos fortes, aliado ao belíssimo roteiro e primorosa direção. As cores lembram muito um outro trabalho de Hiromasa Yonebayashi, O Mundo dos Pequeninos (também baseado em um livro), os tons de verde, rosa e roxo estão muito presentes, assim como diversos tons de azul ajudam na melancolia que o longa traz consigo. O mar, o céu e as belas paisagens verdes do local onde o filme se passa são incríveis e desenhadas com grande leveza. Há uma delicadeza também muito grande na construção dos cenários, do movimento dos personagens e de seus figurinos. Anna é construída como uma menina simples, com timidez e com sentimentos fortes. E Marnie traz consigo uma força interior grandiosa, seja por conta de tudo o que passa e na época em que vive, suas roupas trazem à tona um retrato dos anos em que vivera na infância.

As revelações são postas na mesa para o espectador se encantar. A trama vai se amarrando de forma esplendida e tudo se encaixa perfeitamente; inclusive os reencontros que ocorrem são intensos e carregados de muita emoção. Uma trilha sonora igualmente delicada para o longa ajudou ainda mais em seu tom íntimo, que promete mexer com as emoções do espectador ao contar esta história. Destaque para a música dos créditos finais composta por Priscilla Ahn diretamente retratando o que fora contado no longa. É uma música muito bonita e que faz toda a diferença no final. Aliás, antes dos créditos subirem há passagens muito humanas e incríveis que demonstram ainda mais o amadurecimento de Anna e seu crescimento após suas descobertas. Eu diria que trata-se também de um final muito simbólico, trazendo algumas despedidas para a tela (lembrando que temporariamente este é o último filme lançado pelo Studio Ghibli, como noticiado aqui).

Com um sublime final, uma animação deslumbrante e um roteiro encantador, As Memórias de Marnie é um filme que merece ser visto e apreciado por vários grupos de pessoas sobretudo para se deliciar com as coincidências da vida, mas também para mostrar que quando o amor é verdadeiro nada está muito distante e nada mais importa; tudo vai ficar bem.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.