16
jun
2016
Crítica: “Contos de Terramar”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Contos de Terramar

Contos de Terramar (Gedo Senki)

Gorō Miyazaki, 2006
Roteiro: Gorō Miyazaki e Keiko Niwa
Walt Disney Pictures

2

Gorō Miyazaki não foi feliz na direção e concepção do longa que até então é o mais fraco do Studio Ghibli. Mesmo que tenha uma animação ainda muito exímia, característica forte da produtora, tal artifício não foi suficiente para o projeto conseguir ser no mínimo bom. Contos de Terramar tem uma trama esquisita, desinteressante e muito fraca comparada às outras belas histórias cheias de mensagens e personagens carismáticos do famoso Studio. O então jovem Gorō é filho de Miyazaki, co-fundador do Studio Ghibli, mas este não demonstra nenhum pouco da genialidade do pai na direção deste longa, o que já seria errado de se esperar tendo em vista que os dois são completamente diferentes.

O filme é inspirado em uma série de livros de Ursula K. Le Guin, escritora norte-americana. Miyazaki já havia demonstrado interesse em adaptar as histórias da mesma em animação para o cinema, que acabou sendo recusado pela autora que até então não conhecia o trabalho do cineasta, após vencer o Oscar em 2003 o pedido fora aprovado. Miyazaki não se envolveu com a direção do filme, pois já estava ocupado com a produção de O Castelo Animado (2004) e escolhido pelo produtor Toshio Suzuki, seu filho Gorō então assumiu a direção. Um fato curioso sobre isso é que a autora, não satisfeita com o resultado do filme, alegou não tratar de sua história, mas sim de um filme a parte.

O longa narra a história de Arren, um jovem príncipe (este não é o nome real dele, mas o que pode ser revelado aos habitantes de Terramar) que ao matar seu próprio pai e fugir com a espada mágica deste, encontra-se com um mago andarilho chamado Sparrowhawk e passa a andar com ele, tendo o mago como mentor e protetor. Os dois são acolhidos por uma bondosa moça chamada Tenar que adotou Theru, uma jovem de tranças com poderes suspeitos. Todos eles terão de entrar em confronto direto com Cob, um mago do mau que deseja muito liquidar com Sparrowhawk, que representa certa ameaça a seus poderes. A trama soa muito fraca e previsível quando tudo é reunido, sem falar que é bastante desinteressante, pois os personagens não são carismáticos, cativantes e não merecem ser acompanhados. A única coisa que realmente chama a atenção é a qualidade insuperável do design de produção.

As cores são bem utilizadas e o designs de personagens são bem formulados, mesmo que não sejam tão marcantes e chamativos. Os magos, tanto Sparrowhawk quanto Cob tem cores que os definem e isso é uma boa característica dentro do que poderia ter sido um filme bacana, se não fosse a demora em desenvolver os acontecimentos ou até mesmo os personagens; talvez pudéssemos ter um filme um pouco mais apresentável, mas o roteiro peca muito em seus clichês e seus personagens pouco interessantes. Além disso, a direção parece perdida ao misturar drama com aventura, sem mencionar que o diretor perde vários minutos tentando construir um falho suspense. O clímax também soa desinteressante por ser previsível e mal conduzido.

Além dos personagens nada convincentes e tampouco bem trabalhados, de um roteiro falho e direção enrolada, uma coisa valiosa e maravilhosamente bem criada, além da qualidade da animação em 2D do sempre competente Studio, pode-se encontrar uma trilha sonora perfeita que tenta harmonizar com a péssima história e narrativa, composta por Tamiya Terajima. Em dado momento o personagem Theru, em um cenário encantador e deslumbrante, canta uma bonita composição que dá um tom legal ao filme. Mas apenas isso.

Em suma, Contos de Terramar não é completamente dispensável, tem uma boa trilha sonora e boas imagens, cores bem harmoniosas e animação impecável, mas o roteiro, diálogos e personagens são completamente descartáveis e nada marcantes. Serão esquecidos a qualquer momento por caírem na obviedade. A direção inexperiente de Gorō pesou muito para o fracasso do filme, o que é bem triste.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.