23
jun
2016
Crítica: “Da Colina Kokuriko”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Colina das Papoulas
Da Colina Kokuriko (Kokuriko-zaka Kara)
Gorō Miyazaki, 2011
Roteiro: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa
Walt Disney Pictures

3

O filho de Hayao Miyazaki, Gorō Miyazaki assume pela segunda vez a direção de um dos filmes do Ghibli Studio. O longa da vez foi também roteirizado por Hayao ao lado de Keiko Niwa, que também já trabalhou como roteirista junto de Miyazaki em outras animações do estúdio, como O Mundo dos Pequeninos. Neste filme, nada de fantasia. Acompanharemos uma história delicada e com os dois pés fixados na realidade divagando sobre um suposto mal entendido de um fato ocorrido no passado. Aliás, o filme também é desenvolvido há muitos e muitos anos atrás, mais precisamente na década de 1960 e é baseado no mangá de Chizuru Takahashi e Tetsuro Sayama.

Umi é uma garota que mora em uma cidade japonesa, portuária por sinal, em meados do ano de 1964. Ela leva o hábito de içar bandeiras em respeito aos marinheiros da região e tal ato é observado e admirado por um garoto chamado Shun, que nem desconfia estudar na mesma escola da menina. Aliás, escola essa que tem um uniforme muito parecido com o de Kagome, da série InuYasha com alguns ajustes e cores. Até que um dia, os dois se encontram e se apaixonam quase que à primeira vista. Porém, conforme os dias vão passando, Shun acaba descobrindo, por conta de uma fotografia, um fato do passado que pode afastar os dois que, até então, são amigos apaixonados um pelo outro. Shun passa a evita-la e a mesma não compreende o que pode estar acontecendo até questiona-lo. Os dois tentam entender o passado separadamente, para que consigam saber se tudo é mesmo verdade. Desta forma, o passado assume grande influência no destino de suas vidas, mesmo que eles não tenham diretamente participado de nada do que descobriram.

O filme tem uma história e personagens muito cativantes, mas Da Colina Kokuriko (ou Kokuriko-zaka kara, nome original) tem um desenvolvimento arrastado, um ritmo lento e quase nada envolvente. As coisas demoram para acontecer, o primeiro ato do filme parece se perder com seu roteiro e demora para engatar, fazendo com que o longa desperdice um valioso tempo. Aqui temos um exemplo de história bem amarrada e organizada, além de personagens bem construídos totalmente perdidos em uma direção relaxada. O desenvolvimento lento aliado à uma história que merecia um tratamento mais ágil deixa a desejar em vários momentos que poderiam se tornar memoráveis.

Apesar dos pesares a trama é deliciosa e degustada aos poucos, uma característica do Miyazaki Pai, que seu filho tenta a todo custo trazer à tela. Seria injusto fazer tais comparações, aliás, as pressões que Gorō possa ter tido na realização do longa devem ter sido fortes, mas é de se notar uma tentativa de extrair e colher os estilos já antes testados nos filmes do Studio Ghibli; algo que ocorre sem grande sucesso por seu diretor. A trilha sonora está em total sintonia com as cenas, deixando um tudo um pouquinho menos arrastado e pouco mais interessante de se acompanhar.

A animação, como sempre, é um ponto de destaque e qualidade. Neste filme, nada é diferente do habitual; imagens lindas contrastadas com detalhes impressionantes e bem trabalhados, além de cores harmoniosas e designs de personagens altamente bem feitos e bonitos, apesar de visualmente e rapidamente falando alguns se pareçam muito com outros ficando até um pouco difícil em sua identificação.

No mais, existem animações melhores dentro da produtora. Acredito que Gorō Miyazaki seja um diretor que ainda irá crescer muito durante sua carreira. Ele tem potencial para se engrandecer, um pai fantástico como inspiração e profissionais competentes trabalhando ao seu redor. Espera-se que Gorō continue trabalhando para apresentar algo bacana, mesmo que Da Colina Kokuriko seja interessante por alguns aspectos; uma pena que seja desinteressante, também, em tantos outros.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.