22
jun
2016
Crítica: “Ilha da Aventura”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes

Ilha da Aventura (Standing Up)

DJ Caruso, 2013
Roteiro: DJ Caruso
ARC Entertainment

 4

Tendo como base o romance The Goats, escrito por Brock Cole e lançado em 1987, o filme (também passado nos anos 1980) conta a história de Howie (Chandler Canterbury) e Grace (Annalise Basso), de 11 e 12 anos respectivamente, que são despidos e abandonados como parte de uma cruel brincadeira durante um acampamento infantil. Ao invés de voltar e enfrentar a humilhação das outras crianças, eles decidem fugir para suas famílias e assim começam uma jornada de três dias, na qual desenvolvem uma amizade e aprendem sobre si mesmos.

O diretor e roteirista DJ Caruso, conhecido por seu trabalho prévio em filmes de ação e suspense blockbusters como Eu Sou o Número Quatro (I am Number For, 2011) e Paranoia (Disturbia, 2007) surpreende na direção desse road movie direcionado para toda a família e com enredo atemporal. Originado da vontade do diretor de realizar um filme de menor orçamento que não envolvesse 3D, e de sua relação pessoal com o livro, o produto final não decepciona. A obra retrata dramas humanos, personagens reais que buscam enfrentar juntos seus medos, recuperar a autoconfiança e superar o estigma de excluídos. Longe de despertar pena, inspira pela coragem, determinação e culminante autoaceitação dos protagonistas.

Ainda que tenham muito em comum, as diferenças entre Howie e Grace ficam claras desde o início. Grace, assustada, só pensa em se esconder e esperar até que alguém venha busca-la. Howie possui uma postura mais sensata, de alguém que já lidou com situações difíceis antes. Ele é o principal responsável pela ação dramática da trama, ao convencer Grace a fugir e a fazer diversas outras coisas que se mostram importantes para o seu amadurecimento ao longo da historia. Howie é o motor de Grace. Mais próximo do fim, entendemos o motivo da força emocional do personagem.

O filme faz uma boa analise da problemática do bullying e do valor dado a popularidade pelas crianças. Mesmo nunca tendo sido popular, logo no inicio, somos informados que Grace concordou em participar de uma brincadeira envolvendo uma outra menina que era popular entre o grupo. Quando perguntada por Howie se a teria ajudado, ela responde de forma honesta : “Eu não sei”. Mesmo condenando a pratica do bullying, a pressão daqueles a sua volta e a vontade de ser aceita pelo grupo fazem com que ela concorde se parte de algo que vai contra seus valores.

A postura dos adultos com relação a essa problemática também é tratada. A mãe de Grace, Meg (Radha Mitchell) e o responsável pelo acampamento, a principio não demonstram ter consciência da dimensão do sofrimento causado pelas “brincadeiras”. Assim que é informada da fuga de sua filha, observamos aparecer outro lado da personagem, que ate então havia demonstrado certa frieza, e priorizado sei trabalho, sempre assumindo que a filha conseguiria sair das situações sozinha.

A sequência final é uma das mais tocantes do filme. Pois é nela que tanto os personagens como o público se dão conta de que a aventura esta acabando, Howie revela muitos sentimentos contidos até então e os dois trocam as ultimas palavras e se despedem. Agora mais fortes , ambos precisam voltar para sua rotina, para a vida real que nem sempre (quase nunca) é emocionante ou divertida como um filme de Hollywood ou como tudo que viveram em pouco tempo, eles sabem disso, mas já não tem medo, e sim, coragem para lidar com seus problemas diários de forma diferente.

O titulo original do filme (Standing Up) não se refere a um enfrentamento físico ou psicológico com indivíduos ou pessoas que nos machucaram. Não é essa a questão, mas sim encontrar e cultivar aquilo que se tem de melhor, para assim, enfrentar e se recuperar da situação que for. Contendo elementos de obras como Conta Comigo (Stand By Me) e Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups), trata-se de uma obra que vale a pena ser vista n só por pré adolescentes mas também por pais e professores.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em “The Big Bang Theory”, alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.