16
jun
2016
Crítica: “Invocação do Mal 2”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier
conjuring

Invocação do Mal 2 (The Conjuring)

James Wan, 2016
Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson
Warner Bros. Pictures

3.5

Continuação do filme que foi considerado um dos mais relevantes do gênero na última década, em 2013, Invocação do Mal 2 (James Wan, 2016) traz o casal Warren em mais um caso de investigação paranormal. A obra, baseada em fatos reais, narra a história de uma família humilde que sofre a perturbação de um espírito dentro de sua casa, tendo a jovem Janet (Madison Wolfe) possuída por um demônio. Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga), famosos por desvendar o caso de Amityville e outros fenômenos paranormais a partir da década de 1970, são contatados para ajudá-los.

Invocação do Mal 2 possui uma premissa e alguns momentos bastante parecidos com o seu antecessor. No entanto, certas sutilezas presentes na direção de Wan são responsáveis por imprimir uma carga humanizada em seus personagens e trazer a história para um universo crível, alternando as passagens de horror com um humor leve – e em alguns momentos até piegas – e realçando o drama familiar das duas tramas paralelas – a de Peggy (Frances O’Connor), uma mulher abandonada pelo marido que precisa se virar para criar seus quatro filhos (e ainda lidar com a possessão demoníaca de um deles), e a do casal Warren que, após uma visão de Lorraine e a sua súplica para Ed, decide abrir mão de trabalhar com casos sobrenaturais.

O cenário e a fotografia também foram certeiros para marcar os dois núcleos – colorido, iluminado e asséptico no universo de Warren, pálido, escuro e sujo para representar a família que sofre com a possessão. Outros elementos reforçaram a situação de Peggy e de seus filhos, como a casa bagunçada, com mofo e infiltração nas paredes e os móveis puídos, denotando a situação de abandono das personagens após o pai ter ido embora. No entanto, em algumas passagens notamos um certo exagero na direção de arte, como no início, quando o casal está em Amityville realizando uma sessão espírita, um personagem fecha a janela, inundando os personagens na escuridão, com um número excessivo de velas acesas ao redor deles.

O roteiro, que se mostra eficiente e redondo na retomada das histórias e situações que foram plantadas ao longo do filme, também não escapou de escorregar em algumas ocasiões em que tentou imprimir um humor para que pudéssemos respirar após o medo da história principal. Vemos duas crianças com um cigarro nas mãos recebendo uma bronca da professora. Em seguida, a professora toma o cigarro delas e o fuma. Quando Janet está levando a bronca da mãe em casa por conta do cigarro, a mesma está fumando. É um humor fácil, que se torna repetitivo.

Na passagem em que a mãe não acredita na filha e vê um móvel sendo arrastado, há um corte brusco e a vemos, com os e seus quatro filhos, correndo desesperada para a casa do vizinho. Na sequência seguinte, os policiais estão na casa com Peggy e veem uma cadeira se mexer. Há o mesmo corte brusco e vemos novamente Peggy e os policiais correndo. Essa retomada com humor de uma cena tensa foi até divertida e quebrou com o pacto inicial da narrativa. A propósito, Wan parece brincar com o gênero e causar rupturas com frequência durante o filme, como quando utiliza a trilha sonora pautada pelo rock da década de 1970 para nos ambientar, e com o título do filme, que sobe na tela com uma cor over, nos remetendo aos diversos filmes de horror produzidos na época em que ele é ambientado, com uma aura trash aceitável.

A forma como o horror é utilizado ao longo da obra também impressiona, pois somos levados a locais escuros e assustadores lentamente junto com o personagem, acreditando que algo será revelado e pularemos da cadeira com o susto. No entanto, essa expectativa é quebrada pela falta do áudio incidente e da imagem assustadora que poderia surgir. Os poucos momentos em que o filme utiliza do artifício de susto, nos pega desprevenidos. Na verdade, Invocação do Mal 2 é um filme que “assusta sem sustos”, e essa é a grande sacada do filme. O que nos faz sentir medo é a escuridão e a aura mórbida do local. Inclusive, algumas assombrações parecem ser reais, como se estivessem no mesmo plano que o nosso, nos levando ainda mais para perto delas (ok, o Homem Torto soou exagerado, mas mesmo assim, ainda temos essa impressão com os outros demônios e espíritos).

O filme também brinca bastante com os elementos do horror enquanto tece a sua narrativa, como a tábua de Ouija, a caixinha de música com uma imagem e uma música horripilantes, a cabaninha escura que o filho mais novo utiliza para brincar e que se torna bizarra na noite escura, o balanço do quintal, a poltrona e camas que se mexem sozinhos, a voz do demônio que sai da boca de Janet, as milhares de cruzes que se invertem no quarto, entre outros. Apesar de todas essas alternativas já serem consideradas corriqueiras no cinema do gênero, a produção conseguiu trazer uma boa carga de suspense e, em algumas passagens, gerarem pistas falsas de susto. Quando a trama dá um “pause” para que respiremos e começa a narrar o drama da família despedaçada, temos uma sequência que foi explorada com bastante sutileza, retomando uma conversa que Ed e Peggy tiveram quando se encontraram. Ed, mais próximo da família e penalizado pelo abandono que eles sofreram, resolve tocar violão para todos, nos levando para um momento mais intimista e humanizado dos personagens.

Sobre as atuações, a jovem Wolfe rouba a cena com a sua Janet, dosando o medo e o drama da personagem com os seus trejeitos assustadores nos momentos em que está sofrendo possessão. Farmiga também conseguiu elevar a sua Lorraine do filme anterior, com a intensidade do seu olhar, decidido em algumas cenas e assustado em outras. Já Patrick Wilson não chega a interpretar um Ed desastroso, porém, é perceptível que o ator poderia imprimir mais camadas ao seu personagem, que em determinadas cenas parece estar um pouco travado – a sina de ser o galã! Os personagens secundários que acompanham os Warren para desvendar o mistério são um mix de clichês e exageros, com características unilaterais e sem importância para a trama principal. Já os outros filhos de Peggy poderiam ser mais explorados na trama. Eles trouxeram suas características principais no início, mas foram perdidos ao longo do enredo.

O movimento de câmera utilizado também é responsável pelo engajamento do medo dos telespectadores, como as várias subjetivas do monstro observando e perseguindo os personagens e na passagem em que Ed tem um problema de áudio e de visão, com uma sequência subjetiva do personagem desfocada, junto com um som menos audível do ambiente. Acompanhamos essa imagem com medo do que iremos encontrar. Na cena em que Ed conversa com o demônio virado de costas para Janet vemos em um breu que esconde a silhueta da jovem e só é perceptível a sua boca se mexendo com a voz possuída. Neste momento, o rosto disforme da criança começa a se tornar o do monstro. Não vemos o monstro, porém, com os artifícios utilizados pela direção, conseguimos ter a noção da completude da figura sobrenatural que ali está. Essa cena é uma das mais impactantes e originais de toda a obra.

Invocação do Mal 2 é um filme que consegue suprir todas as expectativas do público, dosando o seu horror na medida certa em seu desenrolar. Não tão original quanto o primeiro, porém, não menos relevante para o gênero.

E para que vocês tenham a experiência completa do filme, não saiam de suas poltronas até assistirem às cenas dos créditos finais, com o áudio e as fotografias horripilantes da Janet da vida real.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.