28
jun
2016
Crítica: “Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo

Afonso Poyart, 2016
Roteiro: Afonso Poyart e Marcelo
Rubens Paiva
Downtown Filmes

4

Desconfiança: essa foi a minha sensação ao saber do projeto de um longa-metragem contando a história do lutador de MMA José Aldo. Os motivos foram vários, por exemplo: seria o atleta mais indicado para receber uma cine biografia, tendo em vista sua pouca idade e o fato de ainda estar na ativa? José Loreto é realmente o nome certo para interpretá-lo? É claro que eu não conhecia a fundo toda a trajetória do manauara, principalmente de sua vida pré UFC, mas tinha na minha cabeça que não valeria a pena gastar tempo e dinheiro (ainda) nesse projeto. Passado o momento de desconfiança e após sair do cinema no último domingo, percebi que o nome correto para aquilo que eu tinha sentido era outro: pré-conceito, preconceito. Logo eu, que defendo tanto o cinema nacional e acho que precisamos sempre produzir mais e mais, fui preconceituoso com um produto nacional. Não é do meu feitio. Devo então aqui um pedido de desculpas à toda equipe envolvida no projeto.

Após esse pequeno desabafo pessoal, vamos ao que interessa!

Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo acompanha a vida do lutador de MMA manauara já a partir de sua juventude até sua primeira luta no UFC. O roteiro foge de ser uma cine biografia convencional, já que o diretor e roteirista Afonso Poyart, junto de Marcelo Rubens Paiva evita blocar a narrativa por episódios e escolhe contar a história através dos conflitos de José Aldo (José Loreto) com seu pai, também José (Jackson Antunes). José Loreto dá vida a um personagem difícil, que vive, desde a sua juventude com o fantasma de se transformar em alguém como seu pai, que apesar de toda admiração que ele tem por aquele que lhe deu a vida, Aldo sabe que os defeitos de Seu José são grandes (alcoolismo) e imperdoáveis (violência doméstica). Há de se elogiar e muito a atuação de Loreto, toda sua dedicação para perder gordura corporal e transformar seu corpo próximo ao de um lutador não seria tão reconhecida se não fosse por aquela energia e angustia que se vê na tela, nos apresentando um herói repleto de defeitos e ódio. Inclusive, é esse ódio que rege os fracassos e as glórias do lutador. E é sintomático como seu treinador (Milhem Cortaz) percebe isso e ajuda Aldo a conviver com isso, trazendo o lado paternal que tanto fez falta durante sua infância, adolescência e juventude.  O ator consegue criar um José Aldo próprio, e foi então que toda minha desconfiança e preconceito caíram por água, já que na verdade o longa não é sobre a vida do lutador somente, é sobre aqueles que lutam para sobreviver e conseguir o seu lugar ao Sol, seja qual for sua profissão. A biografia serve aqui de pano de fundo para discussões maiores.

Ainda sobre o elenco, o longa mostra quão importante é a preparação dos atores (aqui conduzida por Fátima Toledo e Neco Villa Lobos), já que através de um período proveitoso de preparação, se consegue deixar as atuações homogêneas, destacando quem é necessário, sem que os coadjuvantes fiquem ofuscados e vice-versa. Cleo Pires impecável, encarando mais uma vez o papel que tanto lhe cai bem, a mocinha forte, que não foge do confronto (físico e psicológico) com qualquer homem. Jackson Antunes, Milhem Cortaz e Claudia Ohana não preciso nem comentar, corretos como sempre. Agora, se José Loreto impressiona pela forma como interpreta o personagem protagonista, é impressionante (e surpreendente!) o trabalho feito por Rafinha Bastos e Rômulo Neto, que dentro daquilo que é proposto a ambos (e o trabalho de Rômulo é muito mais difícil e fora da zona de conforto) conseguem transmitir verdade em suas atuações.

Afonso Poyart é sem dúvidas um dos melhores diretores de sua geração. No Brasil não vejo ninguém que dirija cenas de ação tão bem como ele. É novo, ainda peca por excessos e um pouco de vaidade. Ainda quer sua assinatura em todas as sequências do longa. Mas o amadurecimento vai fazer com que seus trabalhos fiquem cada vez melhor. Tanto é, que esse aqui é seu melhor trabalho. Surpreendendo em 2 Coelhos e nem tanto assim em Presságios de um Crime, Poyart nos mostra aqui veias de seu amadurecimento, que é visto não só na maneira impecável como roteiriza o longa, como também em muitas escolhas durante o longa. As cenas de luta são bem coreografadas e dirigidas, tendo a câmera posicionada exatamente onde deveria, não deixando a sensação falsa que muitos filmes deixam transparecer em sequências esportivas, porém faz isso sem parecer que estamos vendo a luta ao vivo, com os cortes de uma transmissão, o diretor consegue encontrar o equilíbrio certo, principalmente quando resolve utilizar da câmera lenta. Porém, é nessa mesma técnica que comete seus principais pecados, já que ao utilizar o slow motion em momentos inapropriados, deixa de surpreender quando a utiliza nos momentos corretos.

É brilhante também a montagem conduzida por Lucas Gonzaga, que usa a ótima decupagem das cenas a seu favor, conseguindo impor o ritmo necessário a filme de ação, não deixando cair nem nos momentos de diálogos e românticos. É tão poderosa, que consegue disfarçar (muitas vezes) o excesso da câmera lenta. A montagem é uma das responsáveis por aquele que talvez seja o maior mérito do longa, já que com um roteiro baseado nos conflitos internos de Aldo, assim como naqueles com seu pai, o longa não tem vergonha de recorrer aos flashbacks, que ajudam a explicar toda a psicologia do personagem. Além, é claro, de ajudar muito no jogo que o diretor propõe entre José Aldo e o personagem vivido por Rômulo Neto, que representa aqui o demônio interno que todos nós temos.

Bebendo em diversas fontes do cinema mundial, Mais Forte que o Mundo não é simplesmente a biografia de José Aldo Jr., é a história de muitos lutadores das camadas mais pobres de nosso país, que conseguem transformar (cada um ao seu modo) toda a dificuldade vivida em suas glórias pessoais. É, também, a afirmação de que Afonso Poyart está cada vez mais no caminho certo, mostrando o que todo mundo já sabia desde sua estreia em 2 Coelhos: tem um futuro brilhante pela frente.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.