07
jun
2016
Crítica: “Meus Vizinhos – os Yamadas”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Meus Vizinhos os Yamadas

Meus Vizinhos – os Yamadas (Hōhokekyo Tonari no Yamada-kun)

Isao Takahata, 1999
Roteiro: Isao Takahata
Walt Disney Pictures

3.5

Isao Takahata é, de fato, bastante inovador. Quando já temos diversas histórias incríveis dentro do Studio Ghibli, eis que o diretor de O Túmulo dos Vagalumes e Pom Poko se envolve no comando de uma obra muito simpática e também bem diferente das que já haviam sido apresentadas. Meus Vizinhos os Yamadas infelizmente também não foi lançado no Brasil, mas é sem sombra de dúvidas um filme muito cativante e único. A obra é baseada no mangá Nono-chan de Hisaichi Ishii, o que acabou exigindo um cuidado diferenciado por parte da direção e roteiro.

O longa vai seguir o cotidiano de uma família excêntrica e disfuncional, diga-se de passagem, mas com personagens totalmente humanos e verossímeis. Aqueles tipos que podem ser facilmente encontrados na sua vizinhança, mesmo que estejam totalmente separados por suas culturas. Os Yamadas são unidos ao mesmo tempo que são desunidos; bagunçados e arrumados; carinhosos e simpáticos; folgados e corretos. Um conjunto de características divergentes que os difere entre si e também os faz parecerem únicos. O roteiro divide-se em vários capítulos nomeados previamente e rapidamente antes de serem desenvolvidos. Temos situações bem cotidianas, algumas um pouco exageradas, mas que bem inseridas se mostram divertidas e apresentam uma família fugindo (sem querer) dos padrões convencionais.

A família Yamada é composta pela filha mais jovem com cerca de cinco anos, Nonoko; o filho mais velho com cerca de treze anos, Noboru; o pai das duas crianças, o medroso Takashi; a mãe das duas crianças, Matsuko; a avó/sogra da casa, mãe de Matsuko, Shige e o cachorrinho da família, Pocchi.

Algumas das situações que esta família passa são inteligentemente cômicas e com isso, o espectador poderá acabar se identificando com algumas delas de maneira muito fácil. Desde todos os membros da família se esquecendo de Nonoko em uma loja de departamentos bastante movimentada até uma visita inesperada que os faz arrumar artimanhas inusitadas para que as visitas não reparem em algumas coisas fora do lugar, esta parte, inclusive, é uma das mais engraçadas e geniais orquestradas no roteiro. Uma cena também muito cotidiana e anormal ao mesmo tempo é quando Takashi quer a atenção de sua família que parece se importar mais com um programa de televisão do que qualquer outra coisa.

Animado de forma aparentemente infantil, tendo em vista que alguns dos fatos são narrados pela pequena Nonoko, temos um filme delicado com surpresas não muito profundas ou surpreendentes de fato, mas que são divertidas e engraçadas. Talvez seja um dos filmes com a proposta mais engraçada de todos os outros do Studio Ghibli e, sobretudo, de Isao Takahata que gosta muito dos temas cotidianos e parece os preferir ao invés dos inteiramente fantasiosos.

A animação também é um traço importante de toda a obra, sempre muito bem feita e acabada; desta vez vemos cenários e personagens desenhados com certa imperfeição o que dá um tom maravilhoso a todo o filme, um traço rico e ao mesmo tempo desleixado sem retratar com muitos detalhes tudo o que quer se fazer em tela. Os personagens, inclusive, são desenhados de forma única e autoral, fazendo-os distintamente de qualquer outro personagem dentre tantos outros do estúdio. A trilha sonora de Yano Akiko também é um dos pontos altos da trama e se faz presente nas melhores cenas. É notável observar que a família disfuncional em questão permanece em conjunto nas piores situações, quase sempre demonstrando seu afeto um pelo outro. Alguns personagens são bem maluquinhos por si só e suas loucuras são compartilhadas e compradas por outros membros, como é caso da mãe e da avó que ao descobrirem que Noboru fala com uma garota pelo telefone tentam escutar a conversa a todo custo, deixando o menino completamente desconfortável.

Mesmo não tendo feito tanto sucesso, Meus Vizinhos os Yamadas é um filme bacana, mesmo com alguns probleminhas de ritmo e com algumas histórias não tão interessantes quanto outras. É um filme sem grandes metáforas e críticas, mas que certamente é muito descontraído e bem feito.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.