21
jun
2016
Crítica: “O Mundo dos Pequeninos”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
O Mundo dos Pequeninos
O Mundo dos Pequeninos (Kari-gurashi no Arietti)
Hiromasa Yonebayashi, 2010
Roteiro: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa
Walt Disney Pictures

4.5

Adaptações literárias se tornaram cada vez mais constantes dentro do Studio Ghibli e, quando bem realizadas tratavam-se de ótimos filmes, com abordagens incríveis e qualidade exímia. O Mundo dos Pequeninos é adaptado do livro da escritora britânica Mary Norton, intitulado The Borrowers, publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes sob o título de Os Pequeninos Borrowers. Logo após re-assistir ao filme fiquei com uma gigantesca vontade de conhecer a história pela versão literária, pois sabe-se bem que o Studio Ghibli sempre dá sua própria visão junto de sua bagagem para as histórias que conta. O filme é dirigido por Hiromasa Yonebayashi, que desenvolve um trabalho muito competente diante do que resolveu propor. Aliás, o diretor também atuou em outras produções da produtora em outros ramos, como o de animador.

O longa conta a história de Arriety, uma pequenina que vive com seus pais às escondidas em uma mini casinha abaixo do solo da casa de uma importante família. Seu pai é um emprestador de coisas da casa dessa família, que consiste agora apenas na tia de Sho, um rapaz que a partir do começo do filme está indo morar com ela afim de se tratar de sua doença. Com a tia, mora também a criada Haru, que está sempre desconfiada da presença dos pequeninos e trama algumas por lá. Aliás, é notável que os pequeninos sempre acharam que nunca foram vistos por ali, mas a família de Sho (incluindo seu avô e mãe) haviam deixado uma casinha para estes a fim de que aparecessem, sempre desconfiados que os mesmos existiam e estavam mais perto do que nunca. A trama tem seu ápice quando junto de seu pai, Arriety acaba vacilando e deixando que Sho a descubra. Desta forma, os dois vão se tornando amigos, mesmo com quase nenhum dos dois se vendo na realidade.

Os detalhes da animação são maravilhosos. As cores estão bem harmoniosas e chamativas; os movimentos e ações dos personagens são milimetricamente bem orquestrados e as pequenas ações novamente são destaque. Espirros, desesperos, coçadas e outros detalhes são mostrados de forma natural e simples, focando nesses pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Aliás, a atenção aos detalhes estão ainda mais vivos e percebidos neste filme por conta de coisas pequenas terem enfoques maiores. Os detalhes na animação, os designs dos personagens, o roteiro bem trabalhado e a trilha sonora maravilhosamente bem condensada às cenas são apenas algumas das maiores qualidades deste longa. É preciso mencionar também a direção primorosa retratada por Hiromasa Yonebayashi, que teve um cuidado muito grande ao contar a história, com um ritmo perfeito à trama e deixando seus personagens seguirem adiante no final de forma bela e exuberante.

Vale ressaltar que os personagens do filme são acima de tudo muito humanos, até mesmo os pequeninos. Todos possuem erros e acertos; apesar de Sho ser uma rara exceção e um personagem bacana que está ali para cativar o público e reunir todos os personagens em torno da história. O longa é frenético e bem amarrado, com cenas aflitivas, situações cômicas e detalhes, mais uma vez mencionando, maravilhosamente bem percebidos e realizados. Contudo, é uma das mais belas animações do estúdio. Tem um roteiro livre de furos e uma amizade muito bem construída ao longo de seus minutos de projeção.

É uma pena que não tenha estreado nos cinemas brasileiros no ano em que fora lançado, mas é bacana saber que uma animação com tal potencial conseguiu chegar por aqui e fazer sucesso através de distribuição em DVD. Vale também mencionar que O Mundo dos Pequeninos cativa de forma surpreendente, começando tímido e ganhando grandes proporções conforme avança, uma das coisas mais incríveis para se observar em direção de filmes com histórias do tipo. É delicado, sensível e bem feito, além de ser, sobretudo, um ótimo entretenimento.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.