11
jun
2016
Crítica: “O Reino dos Gatos”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
O Reino dos Gatos

O Reino dos Gatos (Neko no Ongaeshi)

Hiroyuki Morita, 2002
Roteiro: Aoi Hiiragi, Cindy Davis Hewitt, Donald H. Hewitt e Reiko Yoshida
Walt Disney Pictures

3.5

Ainda que o longa não tenha chamado tanto a atenção do público, principalmente por conta de seu antecessor na produtora A Viagem de Chihiro, sucesso estrondoso de Hayao Miyazaki e, este não tendo participado em quase nada de O Reino dos Gatos, o filme da vez é bem simpático e com uma história cativante, que resgata alguns aspectos deixados para trás por um outro filme do estúdio: Sussurros do Coração (Yoshifumi Kondō, 1995).

Dirigido por Hiroyuki Morita, o longa pode não ser tão inovador e também cheio de mensagens como os demais filmes do Studio Ghibli, mas possui, como dito anteriormente, uma história cativante e divertida. A história é a da menina Haru, descobre, ao salvar um gato, que carrega um embrulho na boca (chamando bastante a atenção desta forma) de ser atropelado por um caminhão, que este é um príncipe do Reino dos Gatos e, todos os gatos deste reino misterioso estão aptos a agradecer a garota das mais variadas formas, sendo lhe dando amuletos, ratos para se alimentar e outros presentes estranhos e oriundos de seu reino.

Além de todos esses presentes, o governante (o rei) do tal reino dos gatos junto de seus súditos vão pessoalmente agradecer a bondade de Haru, que antes de tudo isso era uma menina completamente desastrada e chegava atrasada quase todos os dias nas aulas da escola. O desejo do rei é que Haru vá com eles até o Reino dos Gatos e case-se com seu filho, o príncipe gato. Nem pensando muito sobre o assunto, a garota fica empolgada, mas logo percebe que é um pouco impossível uma humana casar-se com um felino. A partir de então, ela tenta reverter a situação pedindo a ajuda dos súditos que aparecem nas mais inoportunas horas no cotidiano de sua vida, mas as coisas só ficam mais confusas. Depois de parar definitivamente no Reino dos Gatos, guiada por um gato gorducho e rabugento, Haru acaba se metendo em diversas enrascadas, mas também conhecendo o misterioso Barão, que remete diretamente às cenas de Sussurros do Coração com a protagonista Shizuku escrevendo seu livro.

O caráter da animação é de total liberdade no desenvolvimento dos designs de personagens. Aqui os mesmos são desenhados de forma mais descompromissada, mais livre e um pouco menos detalhada, não deixando em nenhum momento de serem ótimos. A qualidade da animação é sempre preservada e melhorada a cada novo trabalho pelo Studio Ghibli. No currículo de trabalhos do animador Hiroyuki Morita pode-se encontrar filmes incríveis como o divertido Castelo de Cagliostro (Hayao Miyazaki, 1979) e o excelente Akira (Katsuhiro Ôtomo, 1988). O diretor também não usa e abusa das cores a todo momento, o colorido é bem mais suave, sendo em tons pastéis em diversos momentos, não lembrando muito das cores vivas utilizadas na maioria dos filmes de Miyazaki. A trilha sonora fica por conta de Yuji Nomi, com composições um pouco diferentes das criadas por outro compositor recorrente nos filmes do estúdio Joe Hisaishi. São músicas que ajudam muito no tom simples e cativante do longa.

O roteiro traz ótimas construções nos protagonistas e nos diálogos, que por alguns momentos é bastante engraçado. As desventuras de Haru e sua compreensão deste universo paralelo em que atualmente se encontra são muito bem orquestrados e as cenas são um deleite para os fãs de animações, de gatos e de histórias fantasiosas com protagonistas carismáticos.

Mesmo utilizando-se de técnicas de animação menos complexas, com uma resolução da trama dentro do roteiro de forma altamente divertida, O Reino dos Gatos não é uma animação montada com simbolismos e mensagens, como discorrido anteriormente, mas é também muito honesto com seu espectador em todos os minutos de projeção. E, apesar de ser um filme totalmente lúdico, talvez ele possua um apelo mais adulto que infantil, mesmo com uma protagonista adolescente e com um gato humanoide querendo retribuir um grandioso favor de uma menina atrapalhada.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.