04
jun
2016
Crítica: “Princesa Mononoke”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin
Princesa Mononoke

Princesa Mononoke (Mononoke Hime)

Hayao Miyazaki, 1997
Roteiro: Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures e Miramax

5

Hayao Miyazaki faria apenas Princesa Mononoke e se aposentaria, mas o sucesso que o longa fez no Japão foi tão monstruoso que o querido mestre da animação se sentiu impedido de encerrar de vez sua carreira no cinema. Não é para menos, Princesa Mononoke é uma obra prima. Aliás, todas as obras de Miyazaki são, de uma forma geral, grandiosas, belas e cheias de significados. Não fez tanto sucesso ao redor do globo por conta de sua temática, mas mesmo assim o diretor não desistiu de continuar seu trabalho cheio de críticas às formas de vida da sociedade contemporânea, mesmo utilizando personagens em épocas remotas.

Carregado da história folclórica japonesa, cativando a alma mais apática com relação a esta cultura; animado de forma inovadora e completamente deslumbrante e, sobretudo, com um roteiro cheio de aventura, ação e romance na medida, temos um filme incrível e completamente único em vários aspectos. Miyazaki tem certo fascínio por críticas ao sistema Homem-Natureza e aqui volta novamente a explora-lo. Mas completamente diferente da forma em que vemos em Nausicaä do Vale do Vento.

No longa, conhecemos Ashitaka, um jovem pertencente ao clã Emishi durante a Era Muromachi, que ao matar um javali gigantesco possuído por uma espécie de espírito demoníaco, acaba recebendo uma maldição que lhe deixa uma marca no braço. Tal marca poderá crescer e se desenvolver magistralmente se o mesmo não tomar medidas contra isso. Depois de sair em busca de cura floresta a dentro, ele é incentivado por um monge a procurar o Espírito da Floresta, entidade da montanha que poderá lhe salvar da morte iminente. E é nesta montanha que está localizada a Cidade de Ferro, povoado que está destruindo toda e qualquer tipo de floresta ainda existente, acabando com todos os seus recursos sem pensar nas consequências que isso pode trazer à sua população. A Cidade de Ferro é comandada pela Lady Eboshi, mas a mesma parece não perceber o quão grave é a destruição que está causando a tudo o que há de verde por ali.

Eis que surge uma jovem selvagem, San ou Princesa Mononoke, que viveu toda a sua vida criada e guiada pelos lobos brancos, já que fora salva pela mãe deles, a deusa Moro e criada como uma não-humana. San é o exemplo de determinação e proteção aos animais e a natureza. A mesma tenta fazer o possível e também, quem sabe, o impossível para preservar tudo o que consegue, atacando até mesmo a Cidade de Ferro e ameaçando a vida de Eboshi. As mulheres de uma forma geral são todas muito bem trabalhadas como lutadoras e guerreiras pelo coletivo, não deixando se abater por eventuais piadinhas machistas vindas de outros de seu clã, aliás sempre que estas piadinhas parecem aparecer elas logo rebatem mostrando sua força e sua garra. Devem muito à Lady Eboshi e, portanto, sempre se encorajam a protege-la. Aliás, Eboshi é uma personagem bastante controversa e o expectador pode se confundir facilmente se deverá torcer ou não por ela, o que é algo muito interessante dentro da narrativa, principalmente por existirem outros personagens do tipo durante a trama.

A obra de Miyazaki é deslumbrante e um encanto para os olhos até dos menos atentos aos detalhes. Temos uma fotografia enriquecida por cores vibrantes e brilhos intensos com as aparições misteriosas e fantásticas do Espírito da Floresta, além das maravilhosas e intensas corridas de javalis e lobos, que são personagens muito bem estruturados e trabalhados pelo roteiro, mostra-se muito da importância da fauna para a manutenção das espécies dentro da floresta e a união ou desunião da mesma para lidar com uma guerra entre humanos e animais. San também é uma personagem maravilhosa de se acompanhar, assim como Ashitaka que não se deixa abater e demonstra ser forte em quase todas suas cenas. Seu fiel companheiro, o cervo Yakul também é maravilhosamente bem inserido e cativa o espectador de tal forma que é impossível não se comover com sua trajetória. Aliás, todos os animais são muito cativantes, até mesmo os que não querem saber de conversa e simplesmente atacar que os atacar. Durante o clímax percebemos as mudanças acontecerem com os personagens gananciosos, quando tudo o que fora alertado a eles passa a se tornar uma realidade. E é aqui que se pode encontrar a maior crítica feita por este longa: ainda há tempo para consertar nossos erros, é só prestar atenção ao nosso redor e ver o mundo que estamos deixando para trás.

A simbologia também está presente no longa, com a personificação do Espírito da Floresta, das incríveis aparições dos deuses protetores da floresta, a magia e os kodamas, que seriam uma espécie de guardiões, que indicariam se aquela floresta é protegida ou sustentável. São criaturinhas que com suas cabeças barulhentas ajudam e alertam quem precisa de ajuda e quem precisa ser alertado. Aliás, a trilha sonora de Joe Hisaishi é incrível e merece ser citada.

Princesa Mononoke tem uma temática avassaladora. Trata de ecologia, fidelidade, humildade e sobretudo o humanismo. Mesmo que San negue ser uma humana e odeie todos os seres humanos, vemos que ela acaba aprendendo, principalmente com Ashitaka, que nem todos são iguais e cada um possui uma peculiaridade. E, com isso, Miyazaki mais uma vez nos ensina que a vida é muito curta para se ser individualista e só pensar no nosso próprio bem. No mais, é um grandioso e fabuloso filme sobre amores à natureza e amores aos animais, além de mostrar que existe um mundo ao redor de nós que precisa ser preservado.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.