02
jun
2016
Crítica: “Sussurros do Coração”
Categorias: Críticas, Maratona Studio Ghibli • Postado por: Matheus Benjamin

Sussurros do Coração (Mimi wo Sumaseba)

Yoshifumi Kondō, 1995
Roteiro: Cindy Davis Hewitt, Donald H. Hewitt e Hayao Miyazaki
Walt Disney Pictures

4

Gatos, livros e música. Talvez esta seja a santíssima trindade, ou as ironias do destino da protagonista deste filme. Sussurros no Coração consegue ser fofo e delicado mesmo quando não precisa; consegue entreter e deslumbrar mesmo aquele espectador distante. É um bom filme para se apreciar enquanto tenta desvendar os mistérios da trama ou torcer pelo sucesso de seus personagens

Neste longa dirigido por Yoshifumi Kondō, estreante no Studio Ghibli em tal função, conhecemos Shizuku Tsukishima, uma estudante de 14 anos que sempre tira boas notas e passa a maior parte do tempo livre lendo na biblioteca, lugar onde visita frequentemente, aliás, seu pai é bibliotecário. Ela possui uma melhor amiga e confidente e vive com os pais e a irmã mais velha que faz boa parte dos serviços domésticos, mas sempre pegando no seu pé para que também ajude. Conforme a protagonista vai visitando a biblioteca e emprestando livros por lá, acaba ficando intrigada com o fato de muitos dos livros que lê terem sido lidos também por um tal de Amasawa Seiji. A partir de então, ela resolve investigar quem é a pessoa com quem compartilha os seus mesmos hábitos (maravilhosos) de leitura. Além de toda essa investigação, também poderemos conhecer um pouco mais sobre uma vida escolar nada privativa e as primeiras relações amorosas dos jovens japoneses.

O roteiro foi desenvolvido por Cindy Davis Hewitt, Donald H. Hewitt e Hayao Miyazaki, sendo um filme focado na realidade mesclada à fantasia de escape, quase a mesma utilizada em Meu Vizinho Totoro, tendo em vista que desta vez a protagonista não passa por nenhum problema grave ao seu redor, a não ser sua constante busca por identidade pessoal e realizadora. Em alguns momentos o expectador poderá acompanhar alguns devaneios e sonhos de Shizuku que são muito divertidos e proporcionam boas imagens e viagens. A menina é bastante criativa e deseja ser escritora, com toda a sua bagagem adquirida lendo os mais diversos romances, a mesma resolve sentar para escrever em determinado momento, passando a se dedicar intensamente e quase sem descansos, levando em consideração que para isso ela passa a despencar em suas notas na escola.

Conforme a história vai avançando o espectador descobre quem é o misterioso Amasawa Seiji, além de se aventurar pelos romances que tendem a ser formar à volta de Shizuku, pois sua melhor amiga Harada é apaixonada por um dos meninos da classe, que por sua vez é apaixonado por Shizuku. O mais duro para Shizuku é ter ficado frustrada com a descoberta do tal leitor ávido de mesmo gosto literário que o seu, pois o mesmo havia criticado uma das versões de música que ela havia feito e deixado no meio de um dos livros que acabara esquecendo no banco da escola. A propósito, os primeiros encontros com o misterioso Amasawa Seiji são regados a boas doses de esquecimento. Quem gostar da música Take Me Home, Country Road de Josh Denver vai com certeza se identificar bastante com o longa.

Mesmo que Shizuku tenha encontrado Seiji e tenha tido uma impressão não muito boa a princípio sobre ele, os dois vão se conhecendo melhor, impulsionados pelo avô de Seiji, proprietário de uma loja curiosa que desperta o interesse da garota. O mesmo acaba sendo o leitor beta de Shizuku que se vê bastante insegura com relação a seu livro e seus sentimentos acerca de Seiji. O primeiro e doce amor é tratado com bastante delicadeza e sensibilidade. Com as reviravoltas que a vida lhes dá, o roteiro vai explorando ainda mais a narrativa da protagonista e mergulhamos em tudo, ou quase tudo o que ela estava tentando expressar em seu romance. Uma ótima abordagem, que me fez lembrar muito de O Reino dos Gatos (Hiroyuki Morita, 2002) que teremos crítica em breve na maratona Studio Ghibli.

É baseado no mangá de Aoi Hiragi, sendo a adaptação muito feliz ao retratar de maneira singela as primeiras escolhas que a vida nos obriga a fazer além de mostrar um belo primeiro amor, que resulta em um romance muito cativante. As belas paisagens criadas pelo sempre muito competente Studio Ghibli contrastadas com a imaginação fértil de nossa protagonista são pontos importantes para o longa. Yoshifumi Kondō acabou falecendo após entregar esta deliciosa obra para o mundo e ressalto que o mesmo desempenhou um belíssimo trabalho de alta qualidade e com grande competência.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.