05
jun
2016
Crítica: “Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft)

Duncan Jones, 2016
Roteiro: Charles Leavitt e Duncan Jones
Universal Pictures

3.5

Warcraft é um filme divertido e competente, e que mesmo com sérios problemas em relação a seus personagens, consegue se estabelecer como uma obra coerente que se sustenta independente do material fonte.

Baseada em uma franquia de games, a história se passa no reino de Azeroth, que está enfrentando uma grande invasão de orcs, que procuram por prisioneiros para alimentar sua magia e salvar seus lares. Nesse contexto temos o orc Durotan (Toby Kebbell), que acabou de ter um filho e começa a alimentar suspeitas em relação a seu líder (Daniel Wu).  E do lado dos humanos temos Lothar (Travis Fimmel), que está perdendo seu filho para a guerra e vai buscar ajuda de um sábio mago (Ben Foster) para deter a ameaça do portal do outro mundo.

Trazendo em diversos momentos imagens que remetem ao designe de games de maneira orgânica (como a cena passada um uma cidade flutuante, e outra que traz um personagem evocando raios no meio de uma batalha), o diretor Duncan Jones (dos ótimos Lunar e Contra o Tempo) é hábil em criar um visual arrebatador e envolvente, mas deixa bastante a desejar em relação a seus personagens.

Todo o núcleo dos personagens humanos é estabelecido de maneira muito rápida (basicamente em uma única cena apressada), e falta ao roteiro um centro emocional (parecendo não saber quem é o seu protagonista), e isso impede um envolvimento maior por parte do espectador e prejudica bastante alguns momentos-chave da narrativa. Além disso, falta carisma aos atores, que não apenas são inexpressivos, como estão mal escalados: na trama tempos um pai de um jovem guerreiro, um rei, e um sábio mago, e todos eles não aparentam ter mais de trinta anos.

Mas se o núcleo humano deixa a desejar, o mesmo não pode ser dito em relação aos orcs, já que estes se estabelecem como as figuras mais complexas e humanas (olha a ironia!) da trama, e aqui o roteiro encontra seu centro emocional: no personagem Durotan, que traz uma tocante fragilidade justamente por ter acabado de se tornar pai – aliás, créditos para o trabalho de performance capture (que captura também os trejeitos dos atores para as criaturas digitais, diferentemente do motion capture que pega apenas as expressões faciais) impecável do filme, que permite dar humanidade para as criaturas que são quase todas feitas por computador.

Também é muito interessante como os núcleos humanos e orcs acabam se refletindo conforme a trama avança, mesmo que um funcione melhor do que o outro: de ambos os lados temos um personagem preocupado com o filho, uma desconfiança interna, uma necessidade de proteger seu lar, etc.

E o contraste entre estes dois lados da guerra também é muito bem representado visualmente. Os orcs são criaturas brutamontes, com mãos gigantes, vozes roucas e graves, e de aparência completamente tribal e primitiva, cheios de piercings feitos de madeira e armaduras feitas de esqueletos animais.  O que é o oposto da aparência dos humanos, que sempre aparecem com longas e luxuosas vestes, e que mesmo em batalhas não abrem mão de armaduras estilizadas recheadas de detalhes brilhantes.

Os efeitos visuais também são muito bons. Além do já citado performance capture, as criaturas em CGI também surpreendem pela quantidade de detalhes nos movimentos (reparem nos enfeites das vestes sendo balançados pelo vento), o que os tornam ainda mais críveis, por mais que as cenas que trazem dezenas de orcs correndo juntos para batalhas ainda sejam artificiais e exageradas. Já os efeitos de magia, que remetem muito ao visual de games, são muito funcionais e competentes, e a separação de cores (azul para magia do bem e verde para magia do mal) não tem nada de original, mas indiscutivelmente funciona.

Já a trilha sonora talvez seja a melhor coisa do filme, funcionando para dar energia às sequencias de ação, justamente por remeter a musicas de guerra, com muitas percussões e vocais em coro.

Pecando um pouco em seu clímax (tanto pelo excesso de CGI, quanto pelo ultrapassado clichê de trazer dois personagens conversando heroicamente enquanto uma batalha ocorre em câmera lenta ao fundo) e também por já ter sido feito pensando em continuações (o que, aliás, faz com que o clímax seja ainda mais insatisfatório), Warcraft é um filme bastante divertido, que mesmo deixando a desejar em relação a seus personagens, consegue estabelecer um universo inventivo e interessante (mesmo que não seja particularmente original) e se equilibrar muito bem entre a linguagem de cinema e de vídeo games.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael