20
jun
2016
Crítica: “A Juventude”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Petris
youth

A Juventude (Youth)

Paolo Sorrentino, 2016
Roteiro: Paolo Sorrentino
Fox

5

Existem momentos na vida que são de pura reflexão, seja ela positiva ou negativa. Quando enfrentamos a nós mesmos em um embate com a consciência, dificilmente sairemos ilesos. Youth é a mais congruente amostragem disso.

E isso é nos apresentado através de seus personagens:

A quantidade de personagens tratados no filme é grande, assim como suas angústias. ‘Pela dificuldade de ser capaz’. Sejam elas:

– Pela dificuldade de demonstrar seus sentimentos para com o próximo, através de palavras ou ações, mesmo o demonstrando de outras maneiras, lê-se ‘apatia’;

– Pela não aceitação de que seu apse criativo chegou ao fim, e seu dom artístico o qual lhe permitiu momentos célebres tinha se eclodido;

– Pela falta de amor recebida, seja por um pai ausente ou um marido que lhe abandonaria sem uma explicação lógica;

– Pela infelicidade de que algumas escolhas acabaram lhe concedendo por ignorar seu real talento e se abraçando a coisas materiais, lê-se ‘papéis comerciais’.

Citando os quatro personagens centrais, já é perceptível como o arco dramático poderia ser bem construído e impactante, mas temos algo mais inteligente, temos um local inteiro de pessoas em crise, pessoas infelizes consigo mesmas, pessoas que querem uma segunda chance para mudar, ou aquelas que desistem de tudo após perceber que nunca mais serão as mesmas. Um “hotel” repleto de pessoas que querem se sentir capazes.

Nisso a juventude é bela, nos conduz a momentos de alegria intrínsecos a qualquer jovem. Nos leva a se arriscar, buscar, aprender, se frustrar… E alguma ponta disso acaba por contagiar ao próximo. A juventude está em aprender, e ao mesmo tempo ensinar. O diálogo¹ do personagem de Paul Dano (Os Suspeitos – 2013) com um outro personagem é essencial para exemplificar isso. Onde, a criança sendo uma das poucas pessoas que reconheceu sua arte, e conseguiu aprendeu algo com isso. Coisa que ele próprio, não o fez.  Em contrapartida temos o personagem de Michael Caine, que é reconhecido apenas por uma obra popular, porém, com um significado imenso a ele. Afinal, essa era sua forma de expressar amor, com sua música.

O roteiro do filme nos permite diversas linhas de pensamento, quase que infinitas. Poderíamos divagar sobre cada um dos personagens, e mesmo assim teríamos muito a discutir sobre. Mas o filme não se trata de um estudo de personagem, e sim de “envelhecimento”. Ele as usa como maneira de exemplificar os anseios que a vida pode nos propiciar, e a direção de Paolo Sorrentino (A Grande Beleza – 2013) é essencial para que isto funcione. Seguido pela fotografia de Luca Bigazzi (A Grande Beleza – 2013), o qual é sempre assertiva, seja pelo uso de luz natural, ou nos momentos internos nas locações, com ou quase sem iluminação, em determinados momentos de angústia ou incertezas, bem representados em plano. Eles, juntos, nos entregam lindos planos, quase como pinturas. Em grande parte utilizando de planos gerais ou abertos, buscando nos passar um ambiente tranquilo, já que os personagens e suas mentes fazem justamente o contrário, auxiliados pela trilha de David Lang (A Grande Beleza – 2013), dramática e comovente, novamente, nos momentos certos, nada em excesso.

Apesar da subjetivade do filme, algo é certo: ele é impactante e desolador. Paolo Sorrentino nos entrega uma obra difícil de ser esquecida. Temos aqui um diretor para ser observado, devemos também torcer para que ele não seja engolido pelo mercado, ou, viva momentos como o do personagem de Harvey Keitel (O Grande Hotel Budapeste – 2014).

Sei que é injusto citar apenas um diálogo deste filme, mas acredito que esse tenha uma importância maior neste texto, sendo que ele o resume.

¹ – Já vi você em um filme
– Você também gosta de “Mister Q”?
– Não. Eu vi aquele filme em que você é o pai que nunca conheceu o filho. Você o encontra pela primeira vez num bar de estrada quando ele já tinha 14 anos
– Ninguém viu aquele filme.
– Tem um diálogo de que gosto muito: Quando o filho diz – “Por que não foi um pai pra mim?” E você responde – “Não pensei que fosse capaz.” Naquele momento eu entendi algo importante.
– O quê?
– “Que ninguém no mundo se sente capaz. Então não há razão para se preocupar.”



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: “Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente”. Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.