22
jun
2016
Pipoca Clássicos: “Cidade de Deus”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: Pedro Bonavita
Cidade de Deus

Cidade de Deus

Fernando Meirelles, 2002

Roteiro: Bráulio Mantovani
Prêmios:  Melhor Filme – Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2003
O2 Filmes

5

“Cidade de Deus é o maior barato; E te pergunta, brigar pra que? (pra que?)”

Lançado há 14 anos, Cidade de Deus foi um marco do cinema nacional. Não só pela grande repercussão que teve, mas porque conseguiu após a retomada aliar qualidade artística com apelo popular, algo que ainda hoje o cinema brasileiro busca conseguir.

Cidade de Deus conta a história das primeiras décadas da comunidade de mesmo nome localizada na zona oeste do Rio de Janeiro. Buscapé é o narrador central, é a através da locução em off da personagem que começamos a conhecer as histórias que cercam aquela favela: o início da violência com o trio ternura, meros assaltantes, até chegarmos em Dadinho, ou Zé Pequeno, um traficante perigoso, que transformou a vida daquele lugar primeiro em um local seguro e depois em um campo de guerra, já que colecionava inimigos na mesma proporção que dinheiro e armas.

É difícil definir qual o maior ponto forte do longa, já que o que vemos na tela, em 2h9min é uma obra prima do nosso cinema, Fernando Meirelles e sua co-diretora Kátia Lund estavam em jornadas inspiradíssimas, assim como toda a equipe, com destaque principalmente para a montagem que dá todo o ritmo necessário. A montagem de Daniel Rezende é a maior aliada do roteiro, já que contando com raccords perfeitos, somos levados de um tempo ao outro sem causar qualquer sensação de desconforto. As sequências de ação, além de muito bem montadas, com ritmo, contam ainda com uma fotografia competente, principalmente na escolha de usar câmera na mão, que faz com que o espectador seja imerso naquele universo.

Além da diferente fotografia durante as fases, como não notar o tom totalmente desértico de uma favela sendo construída, trazendo em sua paleta de cor um calor, não só falando em clima, mas também no calor humano daquele tempo, onde até os assaltantes do local roubam um caminhão de gás para que todos da favela tenham acesso ao item, contrastando com o tom sombrio das sequências da guerra entre Zé Pequeno e Cenoura/Mané Galinha, que como em qualquer guerra tira todo o calor humano e respeito ao próximo que se pode ter. O sombrio da fotografia da segunda fase demonstra uma Cidade de Deus sitiada, onde ninguém quer viver, onde as pessoas tem medo de sair de casa.

O Desenho de produção é outro aspecto impecável do longa, principalmente no que diz respeito ao início, quando acompanhamos com detalhes a favela sendo erguida, em um terreno ainda vazio. A trilha sonora soma ainda mais e tem destaque principalmente quando Bené, braço direito de Zé Pequeno começa a se transformar, visual e psicologicamente ao som de Metamorfose Ambulante do mestre Raul Seixas.

E o elenco? Talvez seja essa a maior surpresa do longa, já que conta apenas com um ator profissional (na época), Matheus Nachtergaele, o restante são atores locais, pessoas escolhidas pela direção e que contaram com a sempre eficiente (e polêmica) preparação de elenco de Fátima Toledo. Destaque principal para Douglas Silva e Leandro Firmino, os dois atores que deram vira ao Dadinho/Zé Pequeno, que aliados a competente direção e à um roteiro praticamente sem furos, construíram um personagem, bandido e psicopata, mas com constantes conflitos internos, conflitos esses que mesmo não sendo o foco do roteiro ficam evidenciados no olhar dos atores.

Ainda falando sobre a direção, a sequência da festa onde Bené morre é emblemática, não só para o desenrolar da trama, mas também porque nela nota-se todo o talento de Meirelles, Lund e sua equipe. Enquanto a fotografia e montagem dando todo o ritmo necessário à narrativa da cena, os diretores cuidam muito bem de toda misc-en-scène e principalmente dos seus atores. E, voltando a falar sobre Zé Pequeno, é aqui que podemos ver toda sua loucura e seus conflitos, já que na mesma sequencia ele consegue ficar triste porque seu melhor amigo vai o abandonar, humilhar o namorado da garota de que gosta, brigar com seu amigo e chorar (muito!) quando ele morre. Afinal, ali se fora a única pessoa ele foi capaz de amar e que também foi capaz de amá-lo.

É icônico também perceber como o roteiro aliado à direção de Meirelles consegue na sequência inicial apresentar os três principais personagens da trama, já que dentro daquela montagem frenética mostrando a preparação de uma galinhada promovida por Zé Pequeno, conta não só com o personagem mais famoso do longa, como também com Buscapé (na narração off e no encontro com Zé no final da sequência, quando ele fica entre os traficantes e a polícia) e também com Mané Galinha, representado aqui por uma .. galinha. Interessante notar nesse aspecto que desde o começo do longa Zé Pequeno persegue a galinha. Pensando nisso ou não (e duvido muito que não tenha sido pensado), fato é que foi uma sacada genial a maneira escolhida para apresentar os principais personagens.

Não satisfeito em ser apenas entretenimento, Cidade de Deus ainda trata de questões sociais de grande importância. Questões tão atuais que assustam (já que o longa foi lançado há 14 anos e sua história é ambientada em mais de 30 anos). A desigualdade social nunca foi segredo pra ninguém aqui no Brasil, e o filme mostra isso, sem fazer um paralelo entre as classes A e C/D, mas mostrando como aquelas pessoas que nascem na favela tem dificuldade pra sobreviver. E, mesmo sendo completamente errado você assaltar ou matar, Cidade de Deus nos faz em determinado momento entender aquelas pessoas. Buscapé, inclusive, fica em dúvidas se vale a pena ser honesto, já que vê todos seus amigos de infância indo pelo caminho do crime e se dando bem. No fim, vimos que não vale a pena, porém fica um gosto amargo de saber que o que se tem nas comunidades espalhadas Brasil afora é uma verdadeira indústria do crime.

E a ideia de colocar crianças armadas matando o traficante do local, para tomar conta da boca de fumo, não é só chocante, mas também faz com que todos nós coloquemos a mão na consciência .. pena que o governo não faz o mesmo. Pena.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.