01
jul
2016
Crítica: “Black Mirror” (1ª Temporada)
Categorias: Séries de TV • Postado por: Pedro Bonavita
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Black Mirror

Charlie Booker, 2011
3 Episódios de aprox. 50min
Netflix

4.5

A impressão que eu tenho é que eu demorei tempo demais pra assistir essa série. Diversas pessoas me indicavam e por algum motivo sempre adiava. Finalmente fui convencido, pela pessoa que mais confio. Assim que terminei o primeiro episódio tive a certeza de que demorei tempo demais para começar a acompanhar Black Mirror. Fábulas como essas fazem falta na televisão, apesar de não ser difícil encontrarmos nos cinemas alternativos festivais mundo afora.

A televisão é muito careta. É cada vez mais careta. Com medo de perder sua popularidade, as emissoras têm medo de polemizar, têm medo de chocar. Falo principalmente da televisão brasileira. Sendo a televisão um instrumento de comunicação que chega à casa de tantas pessoas, seria essencial que ela servisse mais do que um simples entretenimento.

Ao falar sobre Black Mirror é importantíssimo contextualizar a má influência que a evolução tecnológica causa na sociedade atual. O ser humano tem uma capacidade incrível de não usufruir positivamente das coisas. A internet, por exemplo, um instrumento tão útil que poderia ser usado para adquirir mais conhecimento, é usado de forma tão errada.

Black Mirror se torna essencial justamente por isso. Por denunciar os problemas causados pela tecnologia. Nos mostra – e nos choca em certos momentos – toda essa influência negativa da tecnologia na sociedade. É, provavelmente, o produto mais inteligente vindo da televisão mundial.

São fábulas modernas, uma ficção científica que conta com mais realismo do que ficção. Após assistir Black Mirror, é necessário colocar a mão na consciência e raciocinar qual o caminho que o ser humano está tomando.

Então: Se você ainda não assistiu: ligue sua Netflix urgentemente!

Ah, vai ter spoiler!

Episódio 1 – Hino Nacional (The National Anthem)

A princesa Susannah (Lydia Wilson) é sequestrada e Michael Callow (Rory Kinnear), Primeiro Ministro do Reino Unido é acordado no meio da noite pra receber a notícia, que chegou através de um vídeo onde ela suplicava por sua vida, já em poder dos sequestradores. O preço do resgate? Acreditava-se que poderia ser alguma reivindicação de um grupo religioso (muçulmano, especificamente) ou então uma alta quantia em dinheiro. Mero engano. A vida da princesa só seria preservada caso Michael fizesse sexo com uma porca, às 16h, ao vivo na televisão. A partir de então, a narrativa se desenvolve de maneira ágil e envolvente, deixando o espectador com olhos vidrados na tela por quase 1 hora de duração.

São várias as questões discutidas pelo roteiro. Arriscado já que se trata de apenas um episódio de pouco mais de 40 minutos. Porém, o texto é extremamente feliz em seu desenvolvimento, entrelaçando todas essas questões e deixando tudo sem algum nó solto. Em um primeiro momento, tudo parece ser uma crítica ao momento que a Europa e os Estados Unidos vivem desde os atentados de 11 de setembro de 2001, com o eterno medo do terrorismo árabe. Mesmo que o foco do episódio não seja exatamente esse, fica claro durante toda sua exibição uma clara preocupação que existe na Inglaterra com medo dos atentados (a série é anterior aos últimos atendados na Europa, causados pelo Estado Islâmico).

Apesar do terrorismo estar inserido, ao menos nas entrelinhas, o foco principal aqui é a tecnologia. Quando o Primeiro Ministro descobre o preço para libertar sua princesa, a primeira coisa que ele pede aos seus assessores é que o vídeo não vaze. Acontece que o vídeo havia sido postado no Youtube, e àquela altura já estava na rede, chegando no mundo todo mesmo com a equipe do governo britânico tirando-o do ar. O Twitter? Bombava! O assunto já era o mais citado. Ou seja, o mundo todo já estava atento, esperando o desenrolar daquela história. A velocidade da informação através da rede mundial de computadores fica nítida aqui, já que apesar do governo ter impedido a notícias nos meios de comunicação “oficiais”, através das redes sociais o mundo todo já tinha conhecimento do sequestro da princesa.

Mas, muito mais importante do que discutir esse domínio que a internet tem conseguido com o passar do tempo, é percebemos como a sociedade atual é movida pelo sensacionalismo. A Inglaterra é muito conhecida pelos seus tablóides. No Brasil, programas de televisão sensacionalistas possuem um público cativo e uma audiência considerável para o horário. Pelo furo de reportagem, jornalistas se arriscam cada vez mais: a jornalista de uma rede de televisão manda fotos nuas para sua fonte dentro do governo, conseguindo uma informação privilegiada que a faz levar um tiro. Vivemos a era da informação a qualquer preço.

O criador Charlie Booker e o diretor Otto Bathurst conseguem, através da atitude do sequestrador, provar o poder do sensacionalismo e como ele aquela movendo as atitudes das pessoas influenciando inclusive no dia-a-dia de cada um. Mostrando uma Londres com as ruas completamente vazias durante um dia útil à tarde, um hospital com as atividades paradas e um bar lotado como na final de um campeonato de futebol: tudo isso para assistir ao ministro fazendo sexo com uma porca afim de salvar a princesa mais querida do país, extremamente popular nas redes sociais (olha o efeito da internet mais uma vez). Apostando no poder de seu plano, o sequestrador ainda liberta a Susannah 30 minutos antes da transmissão.

Dentro disso tudo, o roteiro ainda consegue colocar um drama familiar, ao passo em que a esposa do premier britânico não aceita (óbvio) que ele faça sexo com um animal. Em seu final, fica claro como a influência da vida pública de alguém pode destruir suas relações familiares.

Contando com uma fotografia extremamente crua, cinzenta e realista, a força desse primeiro episódio de Black Mirror está totalmente no poder de seu texto fabulesco. Quando acaba, as reflexões são inevitáveis. O sensacionalismo realmente tomou conta da gente. E que bom que ao menos sabemos rir disso. Obrigado Sensacionalistas.

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Hino Nacional (The National Anthem)

Episódio 2 – Quinze Milhões de Méritos (15 Million Merits)

Ambientado em um futuro não tão distante assim, esse segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror narra a história de Bing (Daniel Kaluuya), um cidadão de uma sociedade que vive aparentemente em um prédio ou complexo, e que a vida se baseia em pedalar o dia todo em uma bicicleta ergométrica. As bicicletas geram energia para a sociedade e pontos para quem pedala. Pontos esses que servem como dinheiro. A diversão dessas pessoas? Programas de televisão produzidos por outros habitantes daquela colônia. No meio de tantas pessoas com sua vida inútil, Bing conhece e se encanta pela novata Abi (Jessica Brown Findlay) e logo decide ajudá-la a realizar seu sonho.

Assim como no primeiro episódio da série, em Quinze Milhões de Méritos temos também uma quantidade grande de assuntos no roteiro e novamente nada parece muito solto. A fábula aqui diz respeito ao cotidiano maçante que os trabalhadores passam. Trabalhar horas e horas sem fim para conseguir consumir coisas melhores. Será que é nisso que mora nossa felicidade? A felicidade e sensação de bem estar vai (ou deveria ir) muito além do dinheiro e do que ele pode comprar. Existe aqui um retrato quase exagerado da sociedade atual nas grandes (e pequenas) empresas e como o ser humano consegue ser babaca. Um determinado personagem humilha as pessoas que trabalham na limpeza do local, apenas por ter um cargo “menor” do que o dele. Cotidiano, não é mesmo? Acontece, porém, que ele não está em uma posição tão mais privilegiada assim.

Diferente do que se vê em seu primeiro episódio, o design de produção e a fotografia tem aqui uma importante contribuição para a narrativa da trama. Começando a falar pela direção de arte, é impressionante a forma como se criou esse universo fictício, porém extremamente real. Bicicletas ergométricas, espelhos negros, personagens vestindo apenas cinza, trazendo uma tristeza que contrapõe com a alegria vista no colorido dos shows de televisão e nos avatares que representam cada uma daquelas pessoas dentro do software. Por falar em software, é incrível também a criação daquele universo tão parecido com o sistema operacional do Windows Phone. Mostrando dessa forma o quão refém somos atualmente dos smartphones. Trazendo agora a discussão para o âmbito da fotografia, é notável como aquela luz extremamente clara e branca traz um desconforto total para o espectador. Essa luminosidade característica de hospitais e hospícios é muito angustiante e acaba enlouquecendo, porque ela nos traz uma sensação de aprisionamento maior ainda.

Ainda dentro do episódio tem espaço para um Reality Show nos moldes de American Idol, onde os participantes precisam pagar 15 milhões de pontos (méritos) para conseguir competir. E, é nesse momento que nos é mostrado como o ser humano é completamente corruptível. Abi canta muito bem sua canção, porém os jurados defendem que falta algo à mais pra ela e oferecem uma outra oportunidade de sucesso pra ela, que também vai tirá-la das bicicletas. Ela aceita. Acontece que ela aceitou porque tomou um “suco” antes, que a deixa mais maleável, mais influenciável. Lembrando: A TV nos influencia. Revoltado com a decisão de Abi, e sabendo que ela foi influenciada por conta do “suco”, Bing resolve se vingar e decide entrar também naquele concurso de calouro. Consegue. Finge tomar a bebida e entra no palco. Dá seu show. Os jurados gostam e o convencem a fazer um programa televisivo de 30 minutos dois dias por semana. Ele aceita. Mesmo revoltado com todo aquele sistema ele aceita. Ou seja, buscamos sempre o caminho mais fácil diante das dificuldades da vida. Nos vendemos fácil e barato.

Quinze Milhões de Méritos traz uma importante discussão para sociedade, tirando um pouco o foco da tecnologia e trazendo para o cotidiano do trabalhador. Apesar de a escravidão já ter acabado (praticamente), ainda somos escravos, agora nem tanto dos patrões, mas do dinheiro. Acredite: a felicidade está nas pequenas coisas e não em ficarmos trabalhando por 15 horas. Há vida lá fora. Há tempo para tudo.

Quinze Milhões de Méritos (15 Million Merits)

Quinze Milhões de Méritos (15 Million Merits)

Episódio 3 – Toda a sua História (The Entire History of You)

Antes de completar o primeiro terço do último episódio da primeira temporada, logo me veio à cabeça o filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. Na minha cabeça foi inevitável não fazer esse paralelo entre essas duas grandes obras do audiovisual mundial. Assim como no primeiro episódio da temporada, toda a ambientação é semelhante ao presente: carros, roupas, cenografia e o comportamento das pessoas. Apenas um elemento difere da sociedade atual, e é ele quem rege toda a trama. Em Toda a sua História, a grande maioria das pessoas possuem um chip (chamado de grão) atrás da orelha. Esse aparelho é responsável por guardar nossa memória, ou seja, tudo que nossos olhos veem ficam armazenados no “HD” do tal grão. Tendo essa tecnologia implantada em seu corpo, a pessoa consegue revisitar seu passado (distante ou não) através dos exibindo as imagens gravadas. Essa exibição pode ser particular (é projetada diretamente em seu olho) ou pública (podendo projetar em telas como televisores, quadros, ou mesmo em um táxi).

É usado como pano de fundo, a história do casal Liam Foxwell (Toby Kebbell) e Ffion (Jodie Whittaker), que parecem estar passando por uma pequena crise em seu casamento, após o nascimento de sua primeira filha. Liam, o marido, chega de surpresa em uma festa que sua esposa está e pega ela conversando de maneira íntima com um dos convidados. De princípio gera um desconforto, porém contornado, inclusive pelo contexto, já que ele estava fora da cidade em uma entrevista de emprego e sabia que sua esposa estava na festa: um encontro de sua ex-turma. Ou seja, natural a proximidade dela com todos ali presentes. Porém, Liam começa a desconfiar de uma traição e começa a investigar isso, usando exatamente o grão instalado em sua orelha. Através dele, o marido consegue rever as imagens captadas naquela noite e analisar as reações de cada um envolvido no jantar.

Mais uma vez me impressiona a capacidade do roteiro em lidar com diversos assuntos inseridos em um mesmo contexto e em pouco tempo. Não me canso de falar isso. Essa tecnologia é a que de mais próximo do real temos até aqui. Não tem como não fazer um paralelo com a forma que usamos os smartphones atualmente, onde através dele você consegue registrar o que quiser e ver depois. Acaba sendo nossa memória atual: ninguém mais decora um número de telefone, você anota tudo dentro dele, suas fotos estão armazenadas em sua memória, etc.. É sinalizado aqui o quão perigoso é: uma das personagens foi assaltada e roubaram seu grão, a deixando com uma enorme cicatriz; a crise do casal se aprofunda ainda mais graças ao uso dessa potente tecnologia; a invasão de privacidade acaba sendo ainda maior. Mas trás também alguns benefícios, por exemplo, ao implantar o chip em um bebê recém-nascido, você não precisa espalhar câmeras pela casa pra saber se a babá o maltrata ou não, já que qualquer um pode controlar o grão do outro tendo o “controle remoto” dele.

Em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” vimos como é importante deixarmos armazenada em nosso cérebro nossa memória natural. Nossas experiências acabam ajudando na formação de quem somos. Apagar frustrações pode resolver uma dor momentânea, mas não ajuda você aprender com seus erros e muito menos evoluir. Porém, aqui mostra como também não é bom você armazenar tudo. Existem coisas que não precisam ser revisitadas, principalmente com detalhes perfeitos. A natureza é sábia e não a toa temos uma memória seletiva, mesmo que essa seleção seja feita de maneira inconsciente pelo nosso cérebro. No longa roteirizado por Charlie Kaufman, as pessoas se submetem a um tratamento de lavagem cerebral pra se esquecer de alguma coisa, em Toda a sua História elas se mutilam para tirar aquele órgão intruso em seu corpo. De uma maneira ou de outra, o processo causa uma dor, não somente física, mas uma dor na alma.

A tecnologia criada por essa ficção científica pode deixar situações do dia a dia mais justas, discussões podem ser encerradas com argumentos provados com mais facilidade, mas será que existe algum benefício real nisso? Acredito que não. Se a tecnologia em um modo geral já acaba nos afastando um dos outros por motivos banais, um artifício como o “grão” pode acabar de vez com as relações humanas. Por conta dele, o perdão fica cada vez mais distante. Faz com que aquele velho ditado: “O que os olhos não veem o coração não sente” se torne completamente sem sentido. As relações acabariam se tornando ainda mais frias.

Para não deixar de falar um pouco sobre a parte mais técnica do episódio, há de se aplaudir e muito a direção de Brian Welsh, já que é impecável a maneira como ele filma os pontos de vista dos personagens (famoso “pv”). Me chamou bastante atenção uma cena através do ponto de vista de Liam, que ele ganha um selinho de sua esposa, o beijo quase no final da tela, muito bem enquadrado, já que a câmera estava obviamente na altura dos olhos do marido.

Apesar de ser o episódio que achei mais fraco da série (ainda sim é um dos melhores episódios de seriados que já acompanhei), considero esse o mais perigoso. Justamente por ser muito próximo do real. O registro instantâneo de fatos é extremamente interessante, porém nem por isso é 100% benéfico. Ainda mais vivendo em uma sociedade que não sabe como usar a tecnologia.

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Toda a sua História (The Entire History of You)

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Acompanhe o Pipoca Radioativa que em breve tem um post sobre a segunda temporada!



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.