13
jul
2016
Crítica: “Black Mirror” (2ª Temporada)
Categorias: Séries de TV • Postado por: Pedro Bonavita
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Black Mirror

Charlie Booker, 2013
3 Episódios de aprox. 45min
Netflix

4

Após assistir à primeira temporada de Black Mirror, praticamente emendei na segunda. Digo praticamente porque conciliei o tempo entre essa maravilhosa produção britânica com alguns filmes, Orange is the New Black e vida social e profissional. Ou seja, o tempo acaba sendo um tanto quanto escasso. No mais, sempre que o tempo permitiu consegui assistir à série. Dentro de toda a conciliação conseguida em torno do audiovisual, sem dúvidas Black Mirror foi durante esse tempo a prioridade. Não só porque ela de fato é viciante, mas também pelo bem do meu namoro (né, amor?).

Falando no teor viciante, é interessante notar isso, já que a série não tem uma ligação direta entre os episódios, nem ao mesmo é frequentada pelas mesmas personagens. Elas ao menos se conhecem. As histórias, de uma certa maneira, tem uma independência. Não cravo esse perfil independente entre elas porque com o passar dos episódios começamos a perceber que todas aquelas fábulas são ambientadas em um mesmo universo. Acredito ainda que são contemporâneas e faço aqui um “mea-culpa”, já que em determinado momento defendi que “15 Milhões de Méritos” se passava em um futuro não tão distante. De fato é em um futuro, mas todas as histórias acabam acontecendo durante a mesma época, ou seja, se no segundo episódio da primeira temporada tínhamos a impressão de estarmos assistindo a uma trama ambientada em um futuro mais longe, nos outros episódios toda a ambientação é tal como o ano em que vivemos. Partindo do princípio de que naquele que parece mais distante do “real” é rodado totalmente em um ambiente interior, é possível de que aquela colônia esteja realmente inserida em um universo contemporâneo aos outros episódios.

Lembrem que tem spoiler!!

Episódio 4 – Volto Já (Be Right Back)

O audiovisual vive de referências. Por mais criativo que algo seja sempre acaba “bebendo” em outra fonte. Principalmente quando se trata de produtos atuais. Black Mirror é uma série repleta dessas referências, algumas sutis, outras nem tanto. Se é proposital? Não sei. Mas duvido que não seja. Volto Já talvez seja aquele que mais tenha referências em suas tramas. Muito pelo assunto tratado por ele. “Ghost: Do Outro Lado da Vida”, “Her”, “Ex-Machina“, filmes de suspense, enfim. São realmente diversas. Mas vou focar mais nessas citadas.

No episódio, Ash (Domnhall Gleeson) e Martha (Hayley Atwell), formam um jovem casal. Viciado em tecnologia, o marido não larga o celular, fato que incomoda profundamente sua esposa, que chega a citar em determinado momento que o smartphone dele é um ladrão, já que o rouba dela. Ash acaba morrendo em um acidente de carro. Martha fica inconsolável e segue os conselhos de uma amiga, começando a utilizar um serviço tecnológico, onde através dele ela conseguiria interagir com Ash, mesmo após sua morte. Esse aplicativo pega o histórico da pessoa na internet e cria uma identidade semelhante à dela através da inteligência artificial.

Quem já assistiu aos filmes citados por mim no primeiro parágrafo, vai identificar situações parecidas por aqui. O mais óbvio é “Ghost”, né. Mas lá o contato com a pessoa falecida é através do espiritismo, é mais “real” por assim dizer. Em Her, o protagonista interagia com o software do celular, uma espécie de “Siri” do iphone. Lá ele tem relações sexuais com ela (!) é realmente um relacionamento, um romance. Em Ex-Machina, existe a criação de uma robô praticamente humana, feita para homens se relacionar com ela, mas que acaba tendo sentimentos, etc. Aqui, em Volto Já, o “Ash” é uma mistura de “Her” com “Ex-Machina”. Em um primeiro momento, ele acaba suprindo a falta do verdadeiro Ash, Martha fica empolgada, transa com o boneco-robô, tenta viver com ela uma vida normal, como de um casal. Mas a relação começa a se desgastar, a esposa vê que aquilo tudo não faz sentido e a faz sofrer ainda mais, afinal, diversos detalhes mais pessoais do marido não estão inseridos naquele software. É óbvio, ele é programado, age como um robô, por mais real que pareça, é claro que não consegue agir no improviso. Não sabe lidar com situações novas. Não é programado para isso.

A direção do episódio é completamente segura, mas o que me chamou atenção foi toda a ambientação criada, tirando totalmente o ar de romance que poderia se dar para aquele estranho relacionamento e trazendo um ar bucólico e melancólico, típico de alguns filmes de suspense, que fazem com que a tensão do espectador fique latente durante todo o desenrolar da trama.

Mais uma vez a série nos faz pensar em como a tecnologia pode ser maléfica para a nova sociedade que se forma no planeta. Se em outros episódios mostra como ela pode nos tirar algumas graças da vida, mostra que tudo pode tornar-se ainda mais perigoso, não no sentido de segurança, mas perigoso porque pode matar aos poucos um dos sentimentos mais difíceis e necessários do ser humano: o luto. Ninguém deseja passar por luto, mas talvez seja essa uma das certezas da vida, em algum momento passaremos por ele, seja pela morte de uma familiar próximo, de um amigo, de uma namorada, enfim. O luto existe e é importante para o crescimento da pessoa, da alma dela. E, se um dia existir uma forma de se criar uma tecnologia próxima da mostrada aqui, o luto acabará e fato é que não acabará com o sofrimento daquele que ficou vivo, como bem retratado em Volto Já. Mais uma bola dentro da série britânica.

Volto Já - Black Mirror

Volto Já – Black Mirror

Episódio 5 – Urso Branco (White Bear)

Sempre que estou mexendo no meu facebook pelo celular ou então pelo computador, paro pra pensar o que faz as pessoas utilizarem da ferramenta “live”, onde-se transmite a própria vida (ou aquilo que está fazendo no momento) em tempo real para toda sua rede de amigos ou seguidores. Assistindo a esse Urso Branco, quinto episódio de de Black Mirror, consigo começar a entender a cabeça dessas pessoas. Há algum tempo, e isso não é segredo pra ninguém, grande parte da população procura saber da vida pessoal de celebridades, é uma curiosidade natural, já que aquelas pessoas se tornam ídolos, e faz com que de alguma maneira seus fãs queiram se sentir mais íntimos.

Mas e quando essa curiosidade pela vida de famosos passou a integrar também à toda e qualquer vida anônima?

A resposta pra mim é simples: programas de Reality Show e as redes sociais. São duas modernidades que acabaram banalizando o cotidiano das pessoas. Tudo acaba virando um evento. Nada mais é simples na vida, questões pessoais se tornam públicas com a mesma facilidade que se espalha uma notícia séria. Aliás, muito mais rápido do que uma notícia. Fato é que tem público. Se tem público, tem patrocinador. Então, os anônimos estão vendo nessas novas ferramentas disponíveis pelas redes sociais para se tornarem famosos e ganhar dinheiro “fácil”. Tornar-se web celebridade parece ser a nova ambição dos jovens.

Victoria (Lenora Crichlow), desperta em um quarto estranho, completamente desnorteada, com os pulsos enfaixados, comprimidos espalhados pelo chão e um estranho sinal sendo emitido pela televisão. Assustada, Victoria sai do quarto e descobre mais coisas perturbadoras em sua casa, como a foto de uma menina. Ao sair de casa, depara-se com uma quantidade grande de pessoas apontando o celular pra ela, filmando seus movimentos. Encontra, Jem (Tuppence Middleton), uma mulher que explica para Victoria que o tal sinal estranho na TV transformou a maioria da população que nada fazem além de filmar e acompanhar um grupo de assassinos que caçam e matam suas presas: pessoas que não foram atingidas pelo estranho sinal.

Como de costume, a direção e fotografia estão impecáveis. A baixa do episódio vem por conta da atuação de Crichlow, que não consegue encontrar o tom de sua personagem. Trazendo um exagero que não cabe na tela, gritos e mais gritos que deixam o episódio como o mais fraco da série, até que o roteiro faz o serviço, de em seu final, transformar tudo aquilo em uma grande surpresa, que acaba chocando o espectador. É genial que parte dessa revelação venha durante os créditos finais, nos deixando com o olho vidrado na tela, lembrando de cada acontecimento da trama e de todas as pistas que o diretor deixou pelo caminho.

Urso Branco não trata somente da banalização do cotidiano, como também da violência. Mas, ao chegar no final do episódio, nota-se que a questão é muito mais profunda do que mostrar pessoas filmando tudo que acontece ao seu redor através do seu smartphone. O zoológico é, na opinião desse que vos escreve, top 5 entre as coisas mais imbecis criadas pelo ser humano. Então, um “parque de diversões” criado para acompanharmos uma ex-criminosa (será que ela era mesmo?) sendo caçada diariamente, em um roteiro já pré-existente, com uma plateia assídua, que parece se divertir horrores com todo aquele circo armado. O mais assustador nisso tudo, se concentra na questão de que não é impossível que isso um dia aconteça, não mesmo. Não depende de tecnologias ainda inexistentes (como nos outros episódios, com exceção do primeiro), basta um empresário ter uma ideia retardada como essa. E terá lucro. Assusta também, o fato de que enquanto “zapeamos” os canais de nossa televisão (seja aberta ou à cabo) vamos notar que programas como esse estão diariamente ali ao alcance de qualquer pessoa, da idade que for. Programas sensacionalistas e reality shows estão nas grades de televisão durante o dia todo, acessíveis a qualquer criança, por exemplo. É, com certeza, a forma mais inteligente da televisão emburrecer o ser humano.

É nesse episódio que Black Mirror mostra de vez para o espectador, como nossa vida está completamente banalizada.

Urso Branco - Black Mirror

Urso Branco – Black Mirror

Episódio 6 – Momento Waldo (The Waldo Moment)

Esse é, com toda certeza, o episódio mais fraco do seriado até o final da segunda temporada. Escrevo o texto antes de assistir ao episódio especial de natal “White Christmas” (que terá um post especial também aqui no Pipoca). Porém, mesmo sendo o mais fraco de todos assistidos até agora, há de se ressaltar que nele existem muitas qualidades e algumas questões interessantes de se discutir. Acontece que é inevitável não comparar com o restante produzido até então. O nível é altíssimo. Qualquer deslize, qualquer perda de ritmo, qualquer perda de surpresas acaba puxando um pouco pra baixo na comparação. Ainda assim é um produto de qualidade.

O comediante Jamie Slater (Daniel Rigby) dá voz a um personagem de animação, um urso azul chamado Waldo, que utiliza do humor negro e acaba fazendo um tremendo sucesso na televisão, algo parecido com o que acompanhamos em “Simpsons” e “South Park”. Integrante de um programa de televisão nos moldes de um talk show, Waldo entrevista o atual candidato ao parlamento, Liam Monroe e acaba o humilhando. Apostando na popularidade da animação, a emissora decide investir pesado e criar um programa próprio do urso. Aproveitando o momento político vivido na região, o diretor sugere que Waldo percorra a cidade, em um telão instalado na lateral de uma van afrontando os candidatos, em especial Liam. Nessa brincadeira, o urso acaba tornando-se candidato à eleição.

O defeito de Momento Waldo está concentrado no roteiro. É nítido, durante as duas temporadas, que a minutagem dos episódios não segue exatamente uma regra. Dessa forma, acredito que a trama poderia ser melhor desenvolvida, já que o que acontece na tela acaba passando rápido demais e é aqui a única vez que o excesso de informações e discussões acabam atrapalhando o andamento da narrativa. Me incomodou bastante o fato das personagens não serem muito bem desenvolvidas. As informações que temos dos dois candidatos ao parlamento são mínimas. Jamie tem um desenvolvimento dramático mais bem construído, mas longe do ideal. Os defeitos do roteiro, e principalmente da construção de cada uma das personagens, prejudica e muito a atuação do elenco, que em determinado momento parece um tanto quanto perdido na tela.

Em contrapartida, é interessante notar as discussões trazidas pelo texto. Dessa vez não se apoia tanto na tecnologia, mas traz um panorama maior sobre como a sociedade age atualmente. Como acontece a política e o poder da mídia no momento em que vivemos. Trazendo a discussão para o cenário da política brasileira, é impossível não comparar Waldo com o deputado Tiririca. Por que o palhaço foi elenco no país? Por que ele consegue arrecadar milhares e milhares de votos? Certamente não é por conta dos seus projetos políticos, até porque, ele deixa bem claro durante sua campanha que não tem muitas ideias de como melhorar a vida da população brasileira. Qual a questão então? Completamente desiludidos com a corrupção que assola o país, o eleitor acaba votando em personagens como Tiririca como um voto de protesto. Se é a maneira correta de se protestar não vem ao caso. Sabendo disso, o deputado e toda sua assessoria usam do seu carisma e popularidade para arrecadas os votos necessários para eleição, além de tirar votos de muitos outros (e talvez corruptos) políticos. Dessa maneira, mostra como a mídia usa isso como muleta para impor suas ideias, para manipular a opinião pública.

Ou seja, se tem algo de bom em Momento Waldo, é que percebemos que o Brasil não está atolado sozinho na lama. A política é nojenta em qualquer parte do mundo.

Momento Waldo - Black Mirror

Momento Waldo – Black Mirror



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.