03
jul
2016
Crítica: “Procurando Dory”
Categorias: Críticas, Maratona Pixar • Postado por: João Vitor Moreno

Procurando Dory (Finding Dory)

Andrew Stanton, 2016
Roteiro: Andrew Stanton e Victoria Strouse
Disney / Buena Vista

3

Quando o assunto é animação, não tem nem o que se discutir: a Pixar é imbatível. Responsável por pelo menos 5 das 10 melhores animações já feitas, a produtora praticamente definiu, no final dos anos 90, o modelo de animação infantil a ser seguido, sendo eventualmente “copiado” (embora este termo não seja completamente justo) por estúdios como a Dreamworks e Blue Sky (excluem-se aqui as animações mais “adultas”, como os trabalhos do Studio Ghibli e outros como Mary e Max e Anomalisa).

E agora, após mais de 20 anos do lançamento de seu primeiro longa (Toy Story, 1996), eles lançam o que talvez seja seu trabalho mais fraco (por mais que ainda seja competente) e desprovido da criatividade pulsante de seus realizadores, este novo Procurando Dory.

Ambientado um ano após os acontecimentos do primeiro filme, o roteiro segue a personagem título em sua jornada para reencontrar seus pais (dos quais, devido a seu problema de memória, se perdeu quando criança), sendo acompanhada, obviamente, de Nemo e seu pai, Marlin.

Apostando em uma estrutura completamente batida, com constantes flashbacks para ilustrar o gradual resgate de memórias da protagonista, o filme ainda se prejudica por não trazer absolutamente nada de novo ao universo criado pelo filme de 2003 – algo nem um pouco usual em trabalhos da Pixar, já que até mesmo continuações como Carros 2 e Universidade Monstros expandiam bastante os universos já amplamente explorados por seus antecessores.

Além disso, ao acompanhar dois núcleos da trama simultaneamente (um seguindo Dory e o polvo Hank, e o outro seguindo Nemo e Marlin), sendo que nenhum dos dois é particularmente interessante, o filme ainda fica com um ritmo bastante irregular e as sequências de ação ainda pecam por serem complemente absurdas e (mais uma vez) não fazem jus à experiência do estúdio em criar sequências inventivas e plausíveis dentro do contexto dos filmes (como a aventura no aeroporto em Toy Story 2 e a “montanha russa” das portas em Monstros S.A).

Vale apontar também que o elemento que servia de motor para o primeiro filme (a relação de pai e filho entre Marlin e Nemo) aqui simplesmente desaparece, e os dois personagens desempenham uma função que poderia facilmente ter sido feita por um personagem só.

Ainda assim, eu estaria mentido se dissesse que o filme é ruim, ou até mesmo regular, já que a doçura e simpatia de seus personagens, somadas à já conhecida capacidade da Pixar de criar momentos emocionalmente memoráveis, acabam tornando a experiência no mínimo bem agradável (e a breve sequência no terceiro ato ao som de What a Wonderful World já está entre os melhores momentos do Cinema no ano).

Já a parte técnica é impecável (não é novidade tratando-se da Pixar), surpreendendo pela quantidade de detalhes que deixam a animação visualmente impecável, desde o efeito do movimento de água e o nado dos personagens, até os pequenos detalhes de iluminação (reparem nos raios de sol trémulos e ondulantes que jamais parecem algo feito por computador). O 3D também é muito bem trabalhado, já que o diretor Andrew Stanton constantemente deixa a tela inteira em foco e abusa de planos com grande profundidade de campo, aumentando o espetáculo visual e a imersão do espectador.

Sendo um filme bem abaixo da média da produtora, mas bem acima das convencionais continuações feitas em animação, Procurando Dory pode até não trazer muita coisa nova, mas conquista pela doçura de seus personagens e seu visual deslumbrante, sendo uma experiência divertida e agradável, ainda que decepcionante.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael