11
jul
2016
Gilmore Girls e I Will Follow (1ª Temporada)
Categorias: Séries de TV • Postado por: Matheus Benjamin

Eis que a Netflix, uma plataforma muito interessante de serviço streaming de entretenimento para aproveitar no conforto do lar e que é muito boa para assistir seriados, anunciou que estaria disponibilizando totalmente Gilmore Girls, e com isso, fazendo a alegria de milhares de fãs. Pois bem, fui completamente influenciado por certos canais de literatura que sigo e que fazem um desafio muito peculiar onde pretendem ler todos os livros lidos e ou citados por Rory Gilmore, uma das Gilmore Girls do título. Tais canais fizeram vídeos em série dizendo seus motivos para amar o seriado e porque assisti-lo e, como sou bastante curioso, lá estava eu no segundo dia de disponibilização, na plataforma referida, me aventurando por uma cidadezinha do interior, com personagens característicos e dramas únicos.

Criada em 2000, por Amy Sherman-Palladino, Gilmore Girls possui ao todo 7 temporadas. E eu que não sou uma pessoa de assistir séries (porque acho que é tempo demais acompanhando apenas uma história) estava receoso com o que viria adiante, tendo em vista que cada temporada tem em média 20 episódios de 45 minutos cada, ou seja, é tempo pra caramba! 

Em Stars Hollow, uma cidadezinha do estado de Connecticut, Lorelai Gilmore (Lauren Grahan) é a gerente de um importante e grandioso hotel. Apesar de ser bastante jovem, tem cerca de 32 anos, a moça é mãe de Rory (Alexis Bledel), uma garota de 16 anos, muito inteligente que gosta de fazer diversas leituras e de estudar. As duas são bastante queridas por quase todos os moradores da pequena cidade e todos sabem sobre suas origens; Lorelai fugiu grávida dos pais para Stars Hollow quando engravidou e desde então vive uma vida distante da deles. Mas quando Rory é aceita em Chilton (já que quer estudar Comunicação em Harvard), um importante colégio da região, Lorelai precisa engolir o orgulho e pedir ajuda a eles, pois não tem dinheiro suficiente para bancar sozinha as mensalidades da instituição. Temos o nosso plot e a partir dele, os personagens vão sendo apresentados ao redor de suas bem definidas protagonistas. As personalidades dos familiares é um dos principais pontos a serem observados no seriado, tendo em vista que Rory e Lorelai são melhores amigas antes de serem mãe e filha, coisa que não acontece com Emily Gilmore (Kelly Bishop), mãe de Lorelai. A frieza com que as duas se tratam é algo que vai tentando ser desconstruído no decorrer dos episódios; Rory e Lorelai são muito parecidas enquanto Emily é completamente diferente. Já Richard Gilmore (Edward Hermann) é um homem dos negócios, ainda mais distante e conservador que sua esposa e com um pouco menos de abertura em ser desconstruído que a mesma. Conforme os episódios vão avançando, pode-se perceber que as relações familiares vão sendo estreitadas, mesmo que com certa relutância por ambas as partes, exceto Rory, que por conta de sua personalidade acolhedora acaba cedendo mais facilmente aos desejos da avó.

No Independence Inn, hotel onde Lorelai é gerente, Sookie (Melissa McCarthy) é sua melhor amiga, depois de Rory, com quem pode contar em todos os momentos. As duas compartilham todos os seus possíveis segredos, dramas e anseios, incluindo os romances e as desilusões amorosas. Sookie já seria incrível só por isso, mas a personagem vai além e é extremamente bem construída. É uma chefe de renome da região, com diversas criações culinárias, humildade e um pouco de distração. A mesma é um pouco desastrada e muito eufórica quando recebe uma boa notícia. Quem lida bastante com Sookie, é o seu fornecedor, Jackson (Jackson Douglas), com quem mantém algumas discussões engraçadas. No hotel, Michel (Yanic Truesdale) é o recepcionista e vive às turras com Lorelai, por conta de sua personalidade distante e esquisita. O mesmo não parece gostar muito de seu trabalho, embora o desempenhe muito bem e tenha um requinte encantador a quem o vê de longe. Apesar de não ser muito amigável Michel está lá e é isso que importa. Outros personagens que vale menção são Luke (Scott Patterson), o dono do Luke’s, um restaurante ponto de encontro onde os personagens estão sempre pela manhã ao tomar um caprichado e reforçado café; Paris Geller (Lize Wiel), a aparente rival de Rory no colégio novo; Lane (Keiko Agena), a melhor amiga de Rory e Christopher (David Sutcliffe), o pai de Rory. Nesta cidade também existem diversos personagens recorrentes, moradores e comerciantes, entre eles a mãe de Lane (Emily Kuroda), o dono do mercado (Michael Winters), Ms. Patty (Liz Torres) e Kirk (Sean Gunn). Os interesses amorosos de Lorelai e Rory, respectivamente, ficam a cargo de Max Medina (Scott Cohen), professor de Rory em Chilton e Dean (Jared Padelecki), colega da antiga escola de Rory.

Todos esses personagens se mostram completamente multidimensionais conforme aparecem nos episódios, inclusive os recorrentes que aparecem de vez em quando para interagir com os protagonistas. Essa primeira temporada serve como uma grande introdução aos diversos personagens e as relações que eles desenvolvem junto aos protagonistas. Há o estabelecimento de diversos conflitos que vão se resolvendo conforme as situações vão sendo desenvolvidas. A estrutura narrativa do seriado pretende colocar em cheque algum drama a ser solucionado durante o episódio e outros que vão sendo resolvidos com mais tempo; as consequências de certas decisões, por exemplo. É notável observar que quando algo acontece com Lorelai e Rory separadamente, os conflitos que as duas têm durante o episódio acontecem de forma semelhante, mostrando que as duas são personagens interligadas e muito parecidas em suas personalidades; Lorelai é racional e muito impulsiva e Rory está experimentando quase tudo pela primeira vez.

Há de se elogiar (e muito) o roteiro e a direção dos episódios, que varia quase sempre, mas que mostra-se bem amarrado em suas conclusões. No entanto, é de se dizer que há alguns erros de continuidade na maioria dos episódios onde há grandes eventos que olhos mais atentos sempre percebem. A trilha sonora é muito interessante, pois as músicas incidentais possuem um toque suave que contrasta com as emoções dos personagens, ou dos conflitos e suas resoluções. Quase sempre trata-se de um coral feminino com melodias marcantes e que aparecem bastante conforme os episódios vão passando. A música de abertura é, aparentemente, a mesma para todas as temporadas e dialoga com algumas coisas presentes no roteiro do seriado.

Uma coisa interessante a ser observada também são as incríveis referências deixadas pelos personagens no decorrer de seus diálogos, sobretudo Lorelai e Rory que são grandes amantes da literatura e do cinema, citando sempre muito sobre seus livros favoritos e filmes marcantes. Os quotes sempre fazem parte também de algum trocadilho ou piada, aliás, não só filmes e séries, mas cantores, bandas, músicas e personalidades influentes. Rory, por exemplo, se inspira muito na jornalista britânica Christiane Amanpour e Lane é viciada em bandas de rock, o que é abominável para sua mãe. Uma relação interessante e que tem tudo para continuar a ser melhor desenvolvida nas próximas temporadas, além das familiares, é a de Rory com Paris. A menina demonstra ser um carrasco, à primeira vista, para Rory, mas aos poucos vão se conhecendo melhor e vendo que as duas não precisam dessa rixa, algo que ainda parece distante, mas que algum dia irá se resolver, pois Paris é uma personagem encantadora com todos os seus dramas e bagagem e que não merece ser odiada. Além disso, a série passa com êxito no teste de bechdel e mostra a força de suas personagens femininas a cada instante. Outra coisa bastante notável é a tecnologia que está engatinhando e ainda não há muito sobre a internet e nem celulares como conhecemos hoje, aliás, eles já haviam mudado bastante (estamos falando do começo do século XXI, afinal).

É uma série que merece ser vista por todos os públicos, sobretudo aqueles que gostam de bons dramas familiares e que se passam em cidades pequenas, proporcionando bons risos aos moradores excêntricos com suas próprias histórias. O roteiro é fascinante ao explora-los de forma tão humana e inteligente, deixando ao espectador muitas dicas de coisas para ler e assistir. Em breve, provavelmente, terá a crítica da segunda temporada. Corre pro Netflix e divirta-se!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.