25
jul
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Vida, Acima de Tudo”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier
A Vida, Acima de Tudo

A Vida, Acima de Tudo (Le Secret de Chanda)

Oliver Schmitz, 2011
Roteiro: Dennis Foon, Oliver Schmitz
África do Sul
Sony Pictures

4

Dando continuidade à nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes, aterrissamos na África do Sul com A Vida, Acima de Tudo. A obra, uma coprodução entre a África do Sul e a Alemanha, conta a história de uma humilde vila nos arredores de Joanesburgo. Após a perda de seu irmão recém-nascido e a depressão de sua mãe, Chanda (Khomotso Manyaka), uma adolescente de 12 anos, toma as responsabilidades de uma mulher adulta para cuidar da casa e dos seus irmãos mais novos. Em contraponto com as tradições religiosas de seu bairro, a jovem desafia as crenças e o preconceito dos seus vizinhos para conseguir levar a sua vida.

A produção possui belos planos gerais que integram cenários e personagens, além de diversas externas da região que ressaltam a carência de recursos sofrido pelo local. O filme possui uma fotografia com tons frios e sóbrios que evidenciam a tristeza em que os protagonistas estão imersos.

Os personagens possuem características marcantes e camadas que os complexificam e os tornam muito ricos. Foon e Schmitz fizeram um excelente trabalho de construção de personagens, principalmente ao mostrar crianças que adquirem a personalidade de adultos, por meio da maturidade de Chanda e de Esther (Keaobaka Makanyane), esta, melhor amiga da protagonista, que se prostitui e é julgada por todos. O filme também é composto por diálogos fortes e brutos nos principais momentos de confronto.

O conflito entre o tradicionalismo cristão, por meio da culpa e do pecado, e o universo de Chanda, que é oposto ao de seus vizinhos, também é explorado com muita intensidade. As cenas de ritual religioso são bastante curiosas, pois mostram uma forma diferente de culto evangélico com o qual estamos acostumados. Inclusive, a trilha sonora composta por cânticos litúrgicos em acappella, traz uma grande sensibilidade à produção.

A Vida, Acima de Tudo também discute a AIDS, uma das principais doenças disseminada na África do Sul. Em 2005, a doença chegou a atingir 31% das mulheres grávidas no país. A taxa de infecção nos adultos chega a 20%, resultado da negligência dos governantes, que negavam o problema e culpavam a má nutrição e a pobreza como principal causa de morte. A partir de 2007, devido às pressões internacionais, o governo começou a se mover para combater a AIDS.

O filme foi indicado e venceu diversos festivais de cinema mundiais, com destaque para o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. A Vida, acima de Tudo foi o primeiro filme sul-africano que eu assisti. A experiência foi muito interessante, principalmente ao escutar um sotaque diferente do que estou acostumado e por conhecer um pouco mais da cultura e dos gostos dos habitantes do país.

A Vida, Acima de Tudo é um filme de abraços, de afetividade e extremamente emocional.

E não se esqueçam: no próximo domingo embarcamos para a Alemanha com o filme Queda Livre.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.