31
jul
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Queda Livre”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin
Queda Livre

Queda Livre (Freier Fall)

Stephan Lacant, 2013
Roteiro: Stephan Lacant e Karsten Dahlem
Alemanha
Kurhaus Production & Südwestrundfunk

3.5

Viajamos pra Europa para visitar a Alemanha e conhecer uma história de amadurecimento e descobertas. O título Queda Livre (Freier Fall, no original) se mostra bastante apropriado quando o longa termina de ser projetado para o espectador, mostrando, junto de seus simbolismos, o propósito de sua narrativa. Algumas coisas podem ser confundidas quando pensadas e comparações (quase) inevitáveis vão sendo feitas à medida em que as situações retratadas vão sendo montadas; e o filme é eficiente, neste sentido.

Esta é a história de um determinado rapaz, Marc Borgman (Hanno Koffler) que treina em uma academia de policiais em formação. Um de seus colegas é Kay Engel (Max Riemelt), que carrega consigo uma aura misteriosa e ao mesmo tempo previsível; trataria apenas de um rebelde sem causa. Ledo engano, o rapaz aos poucos vai demonstrando um interesse latente em Marc, que acaba não entendendo, de início, tal aproximação. Borgman está passando por um período de intensas novidades e mudanças e indo morar novamente com os pais junto de sua esposa grávida, Bettina (Katharina Schüttler). Aos poucos, o espectador vai conferindo mais da rotina da vida profissional de Marc, com todas as suas provas e desafios (que também inclui corridas por estradas desertas ao lado de Engel) e sua vida amorosa.

O conflito em questão se dá quando Marc percebe que talvez esteja apaixonado por Engel, mesmo que tente não demonstrar com tantos artifícios e que ao mesmo tempo também continue amando a esposa, Bettina e a chegada de seu filho. É a partir de sua entrega de coração e corpo presente a um outro rapaz que as coisas começam a desmoronar, já que é visível que o protagonista tenta a todo custo se desvencilhar de suas emoções e não encarar os fatos. Fica a impressão de que ele tenta a todo custo negar seus desejos e não pensar muito em suas atitudes. É quase inevitável neste sentido não lembrar-se de Brokeback Mountain, filme estadunidense dirigido por Ang Lee em 2006, por tratar de questões muito parecidas. E mesmo com essa lembrança, acho o longa de Stephan Lacant muito mais próximo de Azul é a Cor Mais Quente (Abdellatif Kechiche, 2013), pois os dois filmes trazem “histórias de formação” à tela, mostrando profundamente as descobertas de seus protagonistas e suas dimensões como pessoas palpáveis e verossímeis.

O roteiro não deixa claro sobre a sexualidade do protagonista, tendo em vista que tal tema também é bastante complexo para ser definido com tanta precisão. É interessante notar, com as evidências deixadas em algumas cenas e fazer suposições, que o protagonista parece ter amadurecido em sua jornada. É sabido que houve uma traição de sua esposa com Engel, mesmo que ele ainda afirme que a ame e também que este sente algo muito forte pelo companheiro de polícia. A cena em que seus pais conversam com Engel também é muito pesada para a situação. Algumas questões são deixadas para que o público tire suas próprias conclusões, ainda mais que o filme anseia por diálogos que poderiam ser gritantes, mas que não conseguem sair das personalidades introspectivas dos personagens retratados em cena. Tal fato soa muito incômodo para alguns espectadores, sobretudo aqueles que sentem na necessidade da conversa para a resolução de problemas. Não é o que acontece em Queda Livre, Marc simplesmente acaba caindo e não consegue nem dizer como. De certa forma, a “queda” é positiva.

O meio opressor também é retratado. O ambiente cujos personagens estão inseridos é extremamente machista e conta com figuras até carimbadas em histórias do tipo. Há o machão homofóbico que acha que relações homoafetivas são extremamente nojentas e que merecem seu ódio (sendo que sua visão completamente atrasada é que merece retaliação). Este personagem é confrontado nas entrelinhas por diversas vezes ao longo do filme e, a fim de contextualizar a situação política do país com relação a este assunto, recentemente, a chanceler alemã, Angela Merkel, em discurso pediu respeito aos homossexuais com pesquisas apontando um elevado índice de homofobia, fato curioso sendo que desde a década de 90 o governo distribui em escolas uma cartilha que ensina suas crianças a respeitarem o próximo acima de tudo independente, também, de sua sexualidade.

Os simbolismos com relação ao protagonista, cujo interesse da direção é visível, principalmente quando ofusca outros personagens que também poderiam ser considerados como importantes, são deixados sutilmente em cenas que aproximam de seu desfecho. A arte trabalha com cores extremamente frias, neutras e até melancólicas com raras oscilações, ajudando a demonstrar a atmosfera pesada que o filme traz consigo. A fotografia também é competente e os planos utilizados tentam trazer seus espectadores para dentro da narrativa, mas a frieza é maior que a imersão e talvez o êxito não seja obtido através deste recurso.

Mesmo com um distanciamento quase iminente e um roteiro, por ora, bem trabalhado, Queda Livre é um filme bom sobre um único personagem, mas que se for muito problematizado por conta de sua trama um tanto quanto batida pode ser desgastante e decepcionante para um determinado tipo de público; aos românticos e/ou sensíveis é melhor não ir com tanta sede ao pote. Para quem gostar, foi anunciada uma sequência para o longa prevista para o ano que vem.

Da primeira parada na Europa, voltaremos para o continente africano, especificamente em Luanda, na Angola, onde assistiremos Oxalá, Cresçam Pitangas, documentário que dá sequência à nossa volta ao mundo.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.