06
ago
2016
Crítica: “Julieta”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier
julieta capa
Julieta

(Julieta)

Pedro Almodóvar, 2016
Roteiro: Pedro Almodóvar
Universal Pictures

4

Antes de tomar coragem para ir ao cinema ver o novo filme de um dos meus cineastas preferidos, ouvi muita crítica negativa acerca de Julieta: “é fraco!”; “Almodóvar está perdendo a sua identidade!”; “comercial demais!”; “cansativo!”, entre outros impropérios que já me fizeram assistir à obra com um pé atrás. No entanto, todas essas críticas estavam equivocadas.

Para começar, a primeira cena do filme é um plano detalhe das dobras do tecido da camisa da protagonista, cujo tom é vermelho encarnado. As dobras e seus movimentos logo remetem à uma vagina pulsante. Em seguida, abre-se o quadro e vemos em close uma estátua de uma entidade com o pênis ereto sendo embalada por Julieta (Emma Suárez). Esse contraponto entre os órgãos masculino e feminino, ambos com uma coloração quente e over é parte indissociável da identidade de Almodóvar!

É fato que o diretor pisou muito na bola com a sua última produção, a fraquíssima comédia quiprocó Amantes Passageiros (2013). Por outro lado, sabemos que Almodóvar gosta de brincar com os gêneros e sempre se reinventar, como foi com o perturbador trhiller A Pele que Habito (2011). Com Julieta o artista volta à matriz clássica do melodrama descarado presente na maior parte de suas produções.

Ainda falando sobre identidade, assim que o conflito principal é estabelecido e Julieta sai do ambiente clean e sem cores em que ela vivia para esconder seus sentimentos e seu passado, somos transportados ao universo melodramático típico do diretor. Toda a paleta de cores do cenário, figurino, móveis e locações, a partir daí, abusam do vermelho, do amarelo, do laranja e do azul intensos, nos trazendo a ideia de uma história quente, viva e conflituosa.

Julieta é uma mulher de meia-idade que vive em Madri e está de malas prontas para se mudar para Portugal com o namorado. Porém, ao cruzar com uma antiga amiga de sua filha que a abandonara, todas as cicatrizes de seu passado são reabertas. A protagonista, então, desiste de viajar com o namorado, se muda para o seu antigo apartamento e começa a escrever uma carta para entregar à filha contando toda a sua história e todo o sentimento de solidão que ela tentara esconder durante esses anos que se passaram.

Logo nas primeiras cenas do passado de Julieta notamos a impecável caracterização temporal, desde os cabelos, cenários, roupas e figurinos, todos com uma excessiva coloração. A performance dos atores, principalmente nesta primeira parte do filme, são alegóricas e melodramáticas demais. No entanto, estamos falando de Almodóvar e isso é facilmente perdoável. Não podemos deixar de ressaltar a excelente performance de Rossy de Palma com a sua amarga Marian. De Palma é, ao mesmo tempo, o alívio cômico da produção e a responsável por toda a desgraça de Julieta. Marian nos faz rir não por conta de chavões e de um humor fácil, mas com os seus olhares de canto de olho, a sua caracterização e, obviamente, com o excelente entrosamento de anos que existe entre Almodóvar e a atriz.

Os enquadramentos propostos pelo cineasta também são um prazer às nossas vistas com todo o seu hiperestímulo característico. Temos excelentes planos com profundidade de campo em diversos momentos do filme que realçam a beleza e a solidão, e também temos planos detalhes que nos remetem a Volver (2006), dando a sensação de suspense e mistério que essas cenas propõem, porém, com objetos em excesso, dando a ideia de movimento e ação.

Em grande parte de suas produções Almodóvar utiliza doenças de alguns personagens para tocar em assuntos sensíveis à sociedade – artifício muito utilizado pelas telenovelas brasileiras, o merchandising social. No caso de Julieta, são discutidos o alzheimer e a síndrome da esclerose múltipla. O cineasta aborda os temas de uma forma sutil e não-enfadonha.

Sobre o roteiro, diferente de seus outros filmes em que a narrativa realiza rupturas e traz a possibilidade de múltiplas histórias dentro de um único longa, Julieta é uma história tradicional, com começo, meio e fim e acessível para um público diverso. Porém, a voz off utilizada pela protagonista ao longo do filme para contar a sua vida é utilizada excessivamente, causando um pouco de cansaço no desenrolar da trama, não deixando espaço para a subjetividade.

Julieta foi um filme que me trouxe como lição para que eu não seguisse as críticas e tirasse as minhas próprias conclusões. Posso dizer que é uma produção que nos apresenta todos os artifícios que caracterizam a identidade de Almodóvar, com uma história sensível e inspiradora, mostrando todo o fôlego que esse monstro do cinema ainda tem para queimar.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.