02
ago
2016
Crítica: “Mãe Só Há Uma”
Categorias: Críticas • Postado por: Raphael Cancellier
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Mãe Só Há Uma

Anna Muylaert, 2016
Roteiro: Anna Muylaert
Vitrine Filmes

5

Sempre que assisto a um filme genial de determinado diretor e aguardo pela sua próxima produção fico temeroso em saber se o nível alcançado anteriormente será mantido. E foi assim com Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, filme que procedeu o sensível Que Horas Ela Volta (2015), sucesso de crítica no Brasil e no exterior.

Mãe Só Há Uma conta a história de Pierre (Naomi Nero), adolescente que vive com a mãe (Daniela Nefussi) e a irmã no subúrbio. O mundo do jovem vira de ponta cabeça quando ele descobre que foi roubado na maternidade. Após a prisão da falsa mãe, Pierre (agora Felipe) precisa se adaptar à sua nova realidade, com a sua nova família.

A produção possui um primoroso estudo de personagens, com características e níveis sociais diversos. Pierre é o reflexo dos adolescentes alternativos do mundo underground atual, com alguns traços andróginos e um flerte com a hibridização de gêneros e sexualidades. Ele beija meninas e meninos, pinta as unhas, usa batom e calcinha escondido das pessoas, vestidos, e possui um corpo indefinido, sem pelos e delicado. Seu irmão de sangue mais novo, Joca (Daniel Botelho), é o retrato da maioria das crianças que possuem uma certa adultização em seu perfil, com um vocabulário recheado de sinônimos, rolos românticos com garotas do colégio de classe média alta, que se vestem com roupas de mulheres mais velhas e não saem da frente do celular.

Além dos personagens, o roteiro explora com maestria as variadas configurações de famílias contemporâneas: dura e de subúrbio com a falsa mãe, a tia e os seus vizinhos, mais compreensiva e dilapidada no universo dos pais verdadeiros, cuja situação financeira é superior à da sua primeira família, invasiva e acelerada com os verdadeiros pais da irmã de Pierre, mostrando que eles têm uma situação inferior à dos pais biológicos dele, porém, com mais condições do que a mãe que o roubara (vemos referência à Disney, Coca-Cola e fast-food, por exemplo, e logo inferimos que eles fazem parte do contexto da “nova classe C”). Muylaert consegue fazer isso sem cair no estereótipo. Os diálogos são bastante naturais e realistas, dando a impressão de conversas despretensiosas.

A direção de arte também consegue dar o tom da infinidade de universos contidos em Mãe Só Há Uma – a família de subúrbio possui a casa com parede rachada, móveis simples, copos e pratos diferentes durante a refeição, denotando uma certa confusão e bagunça; a família mais abastada transita em ambientes claros, assépticos e clean. Quando Pierre está com os amigos da banda de rock e nas festas de rua, a paleta de cores nos transporta diretamente para o ambiente alternativo.

O posicionamento de câmeras também é muito eficiente em evidenciar a aura melodramática do filme, sempre em subjetiva, na altura dos nossos olhos, com planos fechados e closes. Por conta disso, em muitos momentos temos a impressão de estarmos assistindo a uma novela. Essa estratégia ressalta o caráter intimista e familiar da obra.

Três cenas são os grandes destaques do filme: quando a irmã de Pierre é levada pelos pais verdadeiros, Jaque (Luciana Paes, sempre excelente na defesa de seus personagens, mesmo que pequenos), “falsa tia” de Pierre, entrega pratos para o jovem e ambos os atiram na parede com gritos dolorosos e tristes pela partida da irmã dele. É uma cena com poucas falas, no entanto, bastante significativa. O desfecho de Pierre com os seus verdadeiros pais também é sensacional. O jovem vomita toda a sua dor guardada para eles e sentimos a sua angústia. A última cena com Pierre e Joca fecha a produção com chave de ouro.

Todos os atores, inclusive os coadjuvantes, brilharam em seus papéis. Pierre e Joca são as mais novas promessas do cinema brasileiro. Curiosamente, Daniela Nefussi interpreta dois papéis: a mãe biológica e mãe que sequestrou as crianças. Inclusive, só tomei conhecimento ao pesquisar sobre o filme após assisti-lo. A caracterização distinta de Aracy e Gloria foi impecável e esse fato passaria despercebido por mim.

Respondendo ao meu questionamento do começo do texto, Mãe Só Há Uma não deixa a desejar a Que Horas Ela Volta. É um filme sensível e excelente para que reflitamos sobre a diversidade familiar, social e o mundo contemporâneo dos jovens brasileiros.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.