23
ago
2016
Crítica: “Quando as Luzes se Apagam”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva
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Quando as Luzes se Apagam (Lights Out)

David F. Sandberg, 2016
Roteiro: Eric Heisserer, baseado no curta de David F. Sandberg
Warner Bros.

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Todo mundo alguma vez já temeu – ou ainda teme – o escuro, que, em nossa cabeça, guarda o desconhecido, o oculto, o misterioso. Nele, nos sentimos vulneráveis a ponto de imaginar que alguma criatura poderia surgir a qualquer hora. E é nesse sentimento de medo que o longa de terror Quando as Luzes se Apagam aposta suas fichas para conquistar – ou melhor, assustar – o espectador.

Baseado no curta-metragem Lights Out (ele, inclusive, já foi destaque na nossa coluna Curta1Curta), o filme conta a história de Rebecca (Teresa Palmer), uma jovem que, na infância, conviveu em sua casa com uma entidade sobrenatural que só aparecia no escuro. Agora, é o seu irmão mais novo (Gabriel Bateman) que tem passado pela mesma situação. Temendo pela segurança do menino, Rebecca decide investigar por conta própria e acaba descobrindo que a chave do mistério está no passado da sua mãe (Maria Bello), mais precisamente na amizade com a perigosa e já falecida Diana. O problema é que, de alguma forma, ela ainda está conectada à mãe de Rebecca e se mostra disposta a matar todos que tentem acabar com sua presença no mundo.

Se não é um filme inovador, Quando as Luzes se Apagam ao menos evita os clichês mais irritantes do gênero: nada de casa mal-assombrada, de personagens que se mantêm céticos até o último ato e padres ou detetives paranormais que surgem no meio da trama com a solução. Toda a história é costurada com cuidado, evitando-se furos e excessos – cada segundo dos 80 minutos de duração é muito bem aproveitado.

Estreante na direção de longa-metragens, o sueco David F. Sandberg (o mesmo diretor do curta que inspirou a produção) demonstra amplo controle dos elementos que tem à disposição. A fotografia, por exemplo, é fundamental para a construção das cenas, trabalhando muito bem com os contrastes e as variações de claro-escuro. Já o som assume importância à medida que, em alguns momentos, denuncia a presença de algo que não se vê – o barulho de Diana arranhando o piso do apartamento de Rebecca é de causar calafrios em qualquer espectador.

Sandberg também mostra que sabe escolher e dirigir bem o elenco: os atores estão perfeitos em seus respectivos papéis. Teresa Palmer funciona como uma protagonista inteligente que, mesmo em momentos de desespero, aparenta calcular bem suas ações e demonstra estar longe de ser a típica mocinha ingênua e vulnerável (mais um clichê que o filme, acertadamente, evita). Se Palmer continuar escolhendo bem seus projetos – e deixar de lado obras do nível de O Aprendiz de Feiticeiro Eu Sou o Número Quatro – , ela tem tudo para se destacar em Hollywood. Quem também exibe talento é Maria Bello, perfeita no papel da instável mãe da protagonista; ao passo que Gabriel Bateman e Alexander DiPersia, irmão e namorado de Rebecca, respectivamente, cumprem com competência suas funções na trama.

Em uma época de escassa criatividade na indústria do terror, na qual é possível contar com os dedos de uma só mão os bons filmes lançados no intervalo de um ano, é sempre animador ver longas como Quando as Luzes se Apagam, que certamente levará o espectador a ir dormir com uma ou outra cena aterrorizando seus pensamentos. Se o medo vai ser tão grande a ponto de fazê-lo passar a noite com a luz acesa, aí já é outra história.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!