07
ago
2016
Volta Ao Mundo Em 80 Filmes: “Oxalá Cresçam Pitangas – Histórias de Luanda”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita

Oxalá Cresçam Pitangas  – Histórias de Luanda (Oxalá Cresçam Pitangas)

Ondjaki e Kiluanje Liberdade, 2007
Roteiro: Ondjaki e Kiluanje Liberdade
Angola
Mar Filmes

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O cinema africano desembarca na Volta ao Mundo em 80 Filmes do Pipoca Radioativa com a Angola.

Infelizmente, o cinema africano não é muito visto pelo mundo. Não chega nem mesmo em grande número aos principais festivais do mundo. Muito menos nas salas comerciais. Aqui no Brasil, para conseguir assistir a um filme do continente só por meio da internet ou em raras mostras da cultura africana. É uma pena. Não acredito que existam tantas obras-primas no cinema africano, porém, através da sétima arte se consegue levar um pouco do retrato das diversas partes do mundo. É importante, principalmente aqui no Brasil, conhecermos mais daqueles que tanto ajudaram na criação social e cultural do nosso país.

A ideia do nome Oxalá Cresçam Pitangas foi extraída de um poema do escritor angolano António Gonçalves. Ao assistir ao longa, é possível interpretar a escolha do nome como um pedido, uma torcida, ou até uma súplica para que o desenvolvimento chegue ao país e sua capital. Com um passado marcado por guerras civis (um fato preocupante em toda a África até os dias atuais), Angola vive atualmente uma recente época de paz. A ideia central do documentário é analisar com os jovens estão vivendo nesse “novo” país. A escolha em realizar as filmagens na capital se dá não só por ser a cidade mais importante, mas também por toda a pluralidade étnica e religiosa de Luanda.

É interessante notar, portanto, que a capital do país africano muito se parece com outras cidades importantes ao redor do mundo. Claro que estamos falando de um lugar subdesenvolvido, mas o que se vê em Luanda não é muito diferente do que acontece em São Paulo, guardadas as devidas proporções. A diversidade das 10 personagens existentes no documentário consegue ilustrar um pouco essa semelhança. Tal diversidade inclusive é sempre lembrada por um dos entrevistados, o mais velho e mais sábio deles. A capital tornou-se refúgio daqueles que fugiam da guerra que acontecia no interior e, a partir de então, Luanda passou a comportar não só diversas culturas e religiões, como também uma população maior do que o ideal. Em São Paulo, diariamente chegam pessoas nascidas em diversas partes do Brasil, não fugindo da guerra, mas em busca de uma qualidade de vida, que muitas vezes não se acha.

A super população de Luanda trouxe problemas estruturais pra cidade, principalmente: segurança, trânsito e saneamento básico. Se esse último não é um problema geral na principal cidade brasileira (mas existente em sua periferia), os outros dois estão muito presente no cotidiano dos habitantes de São Paulo. É claro, porém, que na cidade africana não existe só miséria. A população rica (grande minoria do local) consegue usufruir de praias, bares, boates e toda uma região de entretenimento, não retratada no documentário, já que a ideia dos cineastas era mostrar como a população mais carente, a maioria, está vivendo em um país que conheceu a paz há pouco tempo.

Momento interessante do documentário é quando se fala da criação do Kuduru – ritmo africano que ficou muito conhecido no Brasil em 2012, com a novela Avenida Brasil da Rede Globo -, que já em 2007 era um motivo de orgulho para aquele povo, mostrando quão rica é a cultura africana e quanto eles devem se orgulhar daquilo que criam.

Trazendo a discussão para o cinema, Oxalá Cresçam Pitangas é um documentário fraco, já que pouco (ou nada) inova em sua linguagem. Feito nitidamente com poucos recursos, o longa não preza por uma qualidade técnica. Mas o que realmente o torna fraco é o fato de ser arrastado. A escolha dos diretores em entrevistar pessoas que eles já conheciam não pareceu ser a decisão mais acertada, já que nos trouxe histórias mornas que deixaram o ritmo do documentário totalmente arrastado e mesmo tendo somente 62 minutos, a impressão é que temos ao menos o dobro do tempo de tela.

Trazendo para o público uma realidade não tão conhecida mundialmente, contrastando imagens tristes com uma alegria evidente no semblante daquele povo, Oxalá Cresçam Pitangas não é um desastre justamente pelo carisma africano. É uma pena, já que ao final da exibição, fica a sensação de que, nesse mesmo formato, seria possível colher melhores histórias e personagens mais interessantes.

Na próxima semana a Volta ao Mundo em 80 Filmes desembarca em mais um país do Oriente Médio. Dessa vez na Arábia Saudita com o longa O Sonho de Wadjda.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.