09
ago
2016
Pipoca Clássicos: “Fahrenheit 451”
Categorias: Pipoca Clássicos • Postado por: Matheus Petris
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Fahrenheit 451

François Truffaut, 1966
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard
Universal

5

O futuro é nebuloso, incerto. Viver em uma distopia pode ser uma realidade não tão distante. Se acontecerá, só o tempo dirá. Fahrenheit 451 é mais uma daquelas obras que servem como um grito de aviso – ou socorro. Baseado em um livro homônimo, o filme nos permite refletir durante toda cena apresentada.

Já nos créditos iniciais, observamos diversas antenas parabólicas acima das casas, assim já sendo possível antecipar o clima de alienação. Truffaut opta por nos mostrar cada uma dessas antenas o mais próximo possível, utilizando do zoom até fechar o plano, assim passando a impressão de um estado de prisão – o que futuramente será evidenciado ao entendermos a função da TV neste mundo.

Assertivamente escolhido para a função, Bernard Herrmann compõe uma trilha que ao mesmo tempo consegue passar mistério, suspense e tensão – à la Hitchcock, diga-se de passagem. Esse mistério por trás da trilha, reforça a dúvida do telespectador – principalmente aquele que não leu o livro – no primeiro chamado dos “bombeiros”, fardados com seus uniformes pretos e usando seus veículos vermelhos, apresentando um tom de autoridade.

É um baque para esse telespectador o motivo da visita: confisco de livros. E não só isso: os “bombeiros” fazem o inverso de sua função. Eles usam o fogo como “instrumento de trabalho”. Os livros confiscados são queimados na hora, não deixando a possibilidade de rastros. Os livros são evidenciados em alguns planos-detalhe, enquanto o fogo consome aquilo que resta.

O fato aqui não é apenas privar a liberdade, é privar o intelecto, a cultura, a propagação de ideias, a informação, é limitar o ser-humano, é nos tornar em um ser completamente incapaz, um ser vivendo em um prol de um sistema. Os livros nos dão oportunidades infinitas, sejam elas de aprendizado ou fantasia, privar essa possibilidade é o mesmo que privar a vida.

O personagem de Oskar Werner (Guy Montag) é o típico escravo do sistema, completamente limitado a aquilo que lhe é ordenado, segue sua vida sem questionamentos, fato que muda ao conhecer a personagem de Julie Christie (Clarisse) – que também interpreta sua esposa (Linda Montag). Se os livros não são permitidos, apenas a interação humana é possível para provocar os questionamentos necessários, assim encontrando companheiros na luta contra o sistema.

Já alguns personagens dentro da trama são justamente o oposto, estão dispostos a entregar sua vida por aquilo que acreditam. Essa personagem figura uma das cenas mais emblemáticas do filme – e mais belas.

Os artifícios utilizados no processo de alienação ainda são tão atuais em nossa realidade, que chega a assustar. Nessa sociedade, a televisão é o único método “informacional”. Frente a isso, as pessoas utilizam desse meio para se comunicar, informar, aprender… Basicamente tudo. Fazendo um paralelo: lembra algumas peculiaridades da “tele-tela”, do romance orwelliano: 1984 – que também foi adaptado ao cinema.

Se o próprio esporte é utilizado como meio de alienação, o que resta a essa sociedade?

A coletividade! E essas questões são tão bem utilizadas, que justo a família que causa o desconforto no protagonista é a única sem uma parabólica em sua casa. É essa família unida que consegue fazer com que ele perceba os terríveis erros cometidos pelo sistema.

É aí que a esperança vive, nas pessoas e na sua coletividade em prol de um bem maior. Nas pessoas que estão dispostas a se arriscar, em dar suas vidas pela sociedade. Ou, como num lindo gesto, decorando os livros que assim não poderão ser destruídos e passando eles a suas gerações. Se nós nos unirmos, todo obstáculo pode ser derrotado. E o poder dos livros está aí: em unir, ensinar, fantasiar, e criar o temor nos comandantes que sabem o poder que uma ideia impõe.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: "Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente". Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.