28
ago
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A História Oficial”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier

A História Oficial (La Historia Oficial)

Luis Puenzo, 1985
Roteiro: Luis Puenzo, Aída Bortnik
Argentina
Europa Filmes

4

A sétima parada da nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes é aqui do lado, na Argentina, com A História Oficial. A produção é de 1985, dirigida por Luis Puenzo e vencedora de diversos prêmios, dentre eles, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Roteiro Original, em 1986.

A história se passa em 1983, ano em que foi encerrado o regime militar na Argentina (1976–1983). Alicia (Norma Aleandro) é uma professora de história, cuja personalidade é consideravelmente dura e fria. Após reencontrar sua melhor amiga, Ana (Chunchuna Villafañe), que fora exilada durante a ditadura, e tomar conhecimento das torturas sofridas pelos militantes, a professora acredita que Gaby (Analia Castro), sua filha adotiva de cinco anos, possa ser uma criança roubada de pais vítimas da ditadura. A partir de então, Alicia começa a juntar evidências para tentar descobrir a verdade sobre Gaby.

O filme possui muitos momentos fortes, principalmente por estar inserido em um contexto real do país. Durante o seu desenrolar, a obra nos apresenta cenas reais das Mães da Praça de Maio, cujo grupo é formado por mães e avós que perderam seus filhos durante o regime e protestam para descobrir onde foram parar seus entes.

A cena em que Ana conta para Alicia o que ela sofreu e viu durante as sessões de tortura e violência é uma das mais incômodas do filme, parte disso devido à excelente performance de Aleandro e Villafañe. Aleandro, inclusive, foi obrigada a se exilar durante a ditadura e só voltou ao país após a queda do regime militar, o que trouxe muita verdade para as suas cenas. A sequência em que a possível avó de Gaby relata a Alicia a história da sua filha desaparecida também é carregada de muita emoção e a protagonista, mais uma vez, imprime um tom de dor e de tristeza que nos arrebata do começo ao fim da cena.

Outro grande destaque de A História Oficial é a forma como Puenzo distribuiu suas cenas, mesclando o drama da personagem e os questionamentos políticos, tanto com as cenas das Mães da Praça de Maio, os professores e os alunos de esquerda, nos fazendo refletir sobre a forma como o mundo real se engendra em um filme dito como ficção e vice versa, embaçando essa linha tênue que divide a ficção e a realidade.

Alicia é o presente do filme para os espectadores. A personagem possui muitos atravessamentos e percebemos que a sua postura dura e os tons sóbrios de seu figurino no começo do filme fazem parte da culpa que a personagem carrega em suas costas. A partir do momento em que a professora começa a buscar a verdade sobre a sua filha adotiva, conseguimos observá-la, também por meio de seu figurino e da sua postura, se livrando aos poucos do seu fardo, mesmo com o medo de perder Gaby.

Apesar de ser um excelente filme, a produção peca em apresentar um número excessivo de personagens que não são importantes para o desenrolar da trama e algumas cenas longas, com diálogos intermináveis (no entanto, estamos falando de cinema argentino e de um outro momento do cinema, não-contemporâneo).

A História Oficial é um filme que possui um tom de denúncia, por meio dos ataques que os militantes sofreram nas mãos da ditadura, mas também possui um quê de melodrama, ambos bem dosados pelas mãos certeiras de Puenzo. Aqui no Brasil também passamos por esse difícil período e, dessa forma, conseguimos nos identificar com a realidade sofrida pelo país e com os dramas presentes tanto nos personagens, quanto em seu enredo.

E apertem os cintos, passageiros! A nossa próxima parada é a Austrália, com Candy (Neil Armfield, 2006), no próximo domingo. Não percam!



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.