14
ago
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “O Sonho de Wadjda”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva
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O Sonho de Wadjda (Wadjda)

Haifaa Al Mansour, 2012
Roteiro: Haifaa Al Mansour
Arábia Saudita
Imovision

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Depois de passar pela Angola, nossa viagem volta agora para onde tudo começou: o Oriente Médio. E o tema, coincidentemente, também é o mesmo da nossa primeira parada. Assim como A Pedra de Paciência, O Sonho de Wadjda – representante da Arábia Saudita na maratona – expõe a opressão sobre as mulheres em países de maioria islâmica. Mas, ao contrário do filme afegão, em que temos uma mulher adulta e já casada como protagonista, o longa-metragem da diretora Haifaa Al Mansour mostra tudo pela óptica inocente de uma menina de dez anos.

Na trama, Wadjda (Waad Mohammed) é uma garota cheia de energia que vive na cidade de Riad, capital da Arábia Saudita. Certo dia, vê uma bicicleta verde à venda e passa a querer comprá-la para brincar com o amigo Abdullah (Abdullrahman Al Gohani). Mas, na sociedade em que vive, essa não é uma brincadeira para meninas. Como ninguém leva seu desejo a sério – “Onde você já viu menina andar de bicicleta?”, é a frase que escuta da própria mãe (Reem Abdullah) -, Wadjda percebe que vai ter de arrumar dinheiro por conta própria. A oportunidade surge em um concurso de recitação do Alcorão de sua escola, que dará a quantia de mil riads para o vencedor. Determinada a conseguir o dinheiro, ela começa a estudar incansavelmente para a competição – e, a cada dia que passa, seu sonho de ter uma bicicleta só aumenta.

Premiado no Festival de Veneza, O Sonho de Wadjda é o primeiro longa filmado e produzido na Arábia Saudita. Por conta das rígidas restrições impostas às mulheres, a diretora Haifaa Al Mansour não podia interagir com o elenco masculino – ela teve que dirigir muitas cenas do interior de uma van, de onde acompanhava a filmagem por um monitor e passava orientações por walkie-talkie. Mesmo com essa limitação, Al Mansour demonstra total controle sobre os atores. O destaque, inegavelmente, fica por conta de Waad Mohammed, que dá vida à personagem-título.

Atuando com extrema naturalidade, a novata torna Wadjda uma protagonista cativante. Uma menina sonhadora, inquieta, que se recusa a utilizar o véu no caminho da escola, joga videogame, sonha em andar de bicicleta e prefere usar all-star em vez de sapatos convencionais pouco tem a ver com a rígida tradição religiosa do seu país (vale lembrar que 97% da população saudita é muçulmana). Se de um lado temos Wadjda simbolizando uma espécie de quebra silenciosa dos dogmas, do outro, há mulheres empenhadas em garantir que eles sejam cumpridos (a diretora da escola, por exemplo, pune alunas que leem revistas no fundo do pátio e implica com o all-star de Wadjda).

A relação da personagem principal com a família também recebe atenção do roteiro. Ao contrário do pai (Sultan Al Assaf), uma figura ausente e que está prestes a assumir seu segundo casamento (a poligamia não é ilegal para os homens), a mãe possui uma relação afetiva muito forte com a garota. O jovem Abdullah – interpretado pelo talentoso Abdullrahman Al Gohani, excelente em cena – também constitui um importante ponto de apoio para Wadjda, levando em conta o fato de ele ser, aparentemente, o seu único amigo.

Quando o espectador chega aos créditos finais, é possível ter a certeza do potencial transformador dos pequenos e singelos atos. As mulheres ainda têm muito a conquistar na Arábia Saudita. Mas, felizmente, vão surgindo boas notícias de pouco em pouco. No ano de 2013, elas foram autorizadas a andar de bicicleta (com algumas restrições, é claro). Em 2015, pela primeira vez na história, mulheres puderam votar e se candidatar nas eleições do país. A cada Wadjda, uma revolução – ainda tímida e silenciosa – dá seus primeiros passos. Ou melhor: suas primeiras pedaladas.

Na próxima semana, é a vez de visitarmos a Argélia, que será representada pelo filme Mascarades. Não deixe de nos acompanhar nessa Volta ao Mundo em 80 Filmes!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!