05
set
2016
Crítica: “Aquarius”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Aquarius

Kleber Mendonça Filho, 2016
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Vitrine Filmes

5

No sábado, quando estava no metrô do Rio de Janeiro, me deparei com totens espalhados pela estação com uma propaganda do “Google Translator”. Desde o primeiro momento me interessei por aquelas propagandas, muito pela curiosidade em saber como nossas gírias e expressões são traduzidas para outras línguas. Em determinado momento aparece a palavra “saudade” e logo em seguida tradução alguma. Mais tarde, enquanto assistia ao belo Aquarius do pernambucano Kleber Mendonça Filho essa mesma palavra me veio à cabeça. É impressionante como essa palavra consegue carregar tanta complexidade e simplicidade ao mesmo tempo em seu significado. E, se é difícil defini-la, imagino que buscar uma tradução em qualquer outro idioma seja realmente complicado.

Aquarius começa na década de 1980, mostrando a personagem protagonista ainda jovem, recém-curada de uma doença e comemorando, junto da família e amigos, o 70º aniversário de sua tia querida. Não demora muito e o longa pula de seu prólogo para narrar (já em tempos atuais) a briga de Clara (Sonia Braga) com uma construtora, interessada em derrubar o edifício onde mora para dar lugar a um novo empreendimento, completamente moderno. O roteiro, escrito pelo diretor, acerta em nos trazer uma pequena introdução da protagonista, não só para que o espectador conheça histórias de seu passado, por exemplo, o fato de ter sido curada do câncer, mas também porque através do agradável prólogo, o filme consegue desde o início causar uma empatia com o público, que será deveras importante lá na frente, durante os momentos mais tensos e densos da narrativa.

Inacreditável a forma como Kleber consegue direcionar o espectador para onde ele quer. É o que se espera de um diretor de seu gabarito, porém não são todos os cineastas (mesmo os mais renomados) que conseguem essa proeza. Ao dividir o longa por capítulos, em três mais especificamente, Mendonça Filho não só aponta para o público o início e fim de todos os atos, como também cria expectativas naquele que contempla sua obra, para logo em seguida surpreender.

No primeiro ato, intitulado de “O Cabelo de Clara”, o roteiro nos apresenta a personagem protagonista, tanto jovem, quanto mais experiente aos 65 anos. Os cabelos curtos da mais jovem (interpretada por Barbara Colen) sugere que a personagem tenha/teve câncer (e em determinado momento isso é confirmado), mas é totalmente crível à década de 1980, ainda durante a ditadura militar e no auge de Elis Regina, cantora que usava o mesmo corte. A importância do cabelo pra protagonista é enorme, tanto que aos 65 anos, não são poucas as vezes que Clara mexe no cabelo, prendendo e soltando o mesmo, dependendo do seu humor. A experiência de ter passado pela doença e precisar raspar o cabelo por causa do tratamento de quimioterapia certamente a marcou e ela tem em seu cabelo o símbolo da superação. Em O Som ao Redor, Kleber já havia demonstrado todo seu talento em trabalhar com símbolos e o cabelo não é o único aqui. Se esse fica mais a critério da interpretação de cada espectador, o cineasta também introduz outros e explica. Um exemplo disso é o móvel antigo na sala de estar do apartamento, que faz com que Tia Lúcia se lembre de momentos sexuais com seu amante, enquanto seus sobrinhos netos faziam um discurso em seu aniversário. Já na fase atual, a câmera desvenda novamente esse móvel, intacto no mesmo lugar do apartamento e agora quem se recorda daquelas cenas de sexo é o espectador.

Além dessa simbologia clara e didática, o móvel, assim como o apartamento são os primeiros detalhes que faz com que se perceba o apego de Clara ao passado, ou melhor, às memórias de tudo aquilo que ela viveu. Nesse sentido a direção de arte (Juliano Dornelles e Thales Junqueira) tem papel fundamental na narrativa, já que consegue construir um ambiente que remete ao passado, ao mesmo tempo em que não evita um tom de modernidade. E, durante a entrevista que a protagonista dá para um dos jornais da cidade, percebemos o porque de toda aquela decoração de sua casa. Ao ser questionada sobre gostar ou não de música digital, Clara é sucinta ao dizer que a preferência pelos vinis é porque objetos físicos carregam uma história particular, ou seja, ela não é contra a modernidade e ao MP3, apenas gosta de manter viva em sua mente suas memórias e também a história de cada um daqueles discos e objetos que ela mantém em casa. Dessa forma nota-se que seu apego não é apenas material. Não guarda as coisas somente por guardar, seu prazer é cada vez que olhar as coisas que guarda, lembrar exatamente de tudo que envolve aquilo.

Os diálogos, durante todos os 140 minutos de exibição, podem parecer banais e expositivos demais, porém completam a intenção da narrativa. Nesses momentos a câmera age como uma mera espectadora, guiando o espectador pela vida de Clara e sua família. São os diálogos que faz com que se entenda toda a história escondida por trás daquele cotidiano. Mesmo trazendo uma trama firme, como um vilão definido, talvez seja ela apenas um pano de fundo para tudo aquilo que o diretor quer passar através de seu roteiro. Não que a história envolvendo Clara e a construtora não tenha peso ou seja menos importante, mas ela está ali para guiar todos os outros conflitos. Sejam eles sociais, familiares ou apenas cotidianos. São os momentos de Clara com seus filhos, sobrinhos e irmão que nos reservam as maiores emoções.

Em especial, o “embate” entre mãe e filha foi aquele que mais emocionou esse que vos escreve. Considero essa passagem como aquela peça chave do roteiro. Primeiro porque ali é quebrada a casca perfeita da protagonista, nesse momento o espectador consegue enxergá-la com mais humanidade, é quando Kleber deixa os defeitos de Clara à tona que ela se aproxima de vez do público. A singela frase de agradecimento da escritora no livro publicado durante o período que deixou os filhos apenas com seu marido deixa os olhos cheios d’água. Além disso, é importante destacar a atuação das atrizes. Maeve Jinkings brilha na pele de Ana Paula nos poucos minutos que está em cena, trazendo uma força e ao mesmo tempo uma fragilidade daquela mulher que tem problemas internos com sua mãe, trazendo em seu olhar toda a mágoa pelo “abandono” em parte da vida. Já Sonia Braga, que brilhava desde sua primeira aparição no longa, se agiganta nessa sequência e a partir de então o show só cresce. É impressionante como a atriz não faz esforço nenhum para dar vida àquela jornalista pernambucana cheia de vida e histórias pra contar. Sabendo que o roteirista escreveu aquela personagem especificamente pensando em Braga, a sensação é de que a estrela nasceu pra interpretar Clara. Considero, sem medo de errar ou parecer exagerado, a melhor atuação feminina de 2016.

Voltando a falar de como o cineasta consegue guiar o espectador com facilidade durante a projeção, chegamos ao segundo ato, intitulado de “O Amor de Clara”. É necessário, porém, destacar que o final da primeira parte, Diego (Humberto Carrão), engenheiro da construtora que quer comprar o apartamento e vilão do longa, é apresentado antes de mais nada como um jovem sedutor e gentil. E, mais a frente, é definido muito bem como um “passivo agressivo”, ou em português mais claro, o “falso fofo”. O primeiro caminho que Kleber traça na cabeça do espectador é supor que Clara se apaixonaria por Diego. Logo depois o roteiro nos apresenta seu sobrinho Tomás (Pedro Queiroz) em uma cena romântica, onde apenas no final da sequência é dito o parentesco dos dois. Mais tarde, durante um “baile da melhor idade”, Clara flerta com um viúvo de sua idade, chega a se envolver com o homem naquela noite, mas ao saber de sua cirurgia nos seios, o relacionamento não passa daqueles primeiros beijos no carro. Sendo uma mulher madura, Clara consegue sair muito bem dessa última situação, assim como lida bem com o fato de ter contratado um garoto de programa, vivido por Allan Souza Lima. O amor da protagonista é acima de tudo por ela mesma. Mesmo quando se sente sozinha, com saudades de seus filhos que a visitam esporadicamente, Clara não sofre. Ela está bem. Ela se ama, aprendeu a se amar mais do que tudo durante todos os anos. A vida certamente ensina isso.

Se Kleber Mendonça Filho consegue guiar o espectador com tanta facilidade, deve-se muito à montagem (Eduardo Serrano), seja com o raccord conseguido na sequência em que Clara e Diego manobram o carro na garagem do edifício que dá nome ao longa, ou então pelos cortes secos que ligam uma situação a outra sem se importar com o desconforto que aquilo pode causar no espectador. A intenção do diretor não é contar passo a passo tudo que acontece na vida daquelas personagens durante o período registrado. O diretor, na verdade, nesse sentido pouco se preocupa com o espectador, ele está contando a história à sua maneira. E isso torna ainda mais forte o roteiro.

Trazendo a questão agora para o centro do longa: “Clara vs Construtora”, ou então o “Câncer de Clara”, título do último ato do longa. O assunto mais político e mais atual de todo o roteiro. Uma construtora comprando um prédio antigo para dar lugar a um edifício novo, que gere muito lucro aos empresários de mais uma obra superfaturada. É interessante perceber como nesse momento é desenhado ainda com mais clareza as personalidades de cada um. Se Clara mostra que não vai abrir mão de suas memórias por qualquer quantia de dinheiro, deixando claro o quão importante pra ela é tudo aquilo que ela viveu – e essa postura da personagem pode muito ter a ver com a superação de uma perigosa doença -, a construtora, através principalmente de Diego mostra como é a personalidade de parte da elite brasileira: o lucro acima de tudo e de qualquer pessoa. Já que não consegue comprar o apartamento e as memórias de Clara, a empresa mostra que é capaz de qualquer coisa para conseguir aquilo que quer. E a partir de então começa a perturbar o sossego da única moradora restante naquele prédio, indo de um extremo ao outro, já que se um dia promove uma festa com direito a suruba, logo em seguida promove cultos evangélicos no apartamento acima do seu.

Com o passar do tempo, conforme essa trama anda pra frente, a tensão começa a tomar conta da tela, trazendo mudanças significativas na narrativa: a fotografia que em grande parte do longa é ensolarada e viva, começa a destacar tons mais sombrios e movimentos de câmera cada vez mais inquietos, abusando cada vez mais de takes no vazio e “zooms” gratuitos que trazem um desconforto grande ao espectador. A trilha sonora composta o tempo todo por músicas alegres, tanto da MPB, quanto do Rock, dá lugar ao instrumental quase clichê do suspense. E, por fim, o figurino e a caracterização de Clara começa a criar um desconforto grande, já que a personagem sempre elegante (mesmo trajando roupas simples de uma mulher que mora na frente da praia no Recife), começa a parecer mais desarrumada, com roupas “jogadas” no corpo e cabelo totalmente desarrumado, com destaque para a sequência que ela descobre os cupins implantados nos apartamentos vazios de andares acima do seu.

Longe de ser um filme somente político, Aquarius consegue trazer importantes discussões sociais do Brasil contemporâneo, sem deixar de lado sua essência. Kleber Mendonça Filho opta por uma abordagem crua da saudade e das relações humanas, sem deixar de lado a ternura. Se acredito ser quase impossível explicar e demonstrar a “saudade”, o cineasta pernambucano faz isso com maestria, tirando o rótulo de que é somente um sentimento (triste ou feliz) e mostrando que na verdade ela está atrelada às nossas memórias. No fim das contas, a saudade é parte importante do nosso amadurecimento e da construção de nossa personalidade e caráter. Sem a saudade o ser humano seria muito mais infeliz. Diego, ao pensar somente em dinheiro e esquecer completamente o valor sentimental das coisas, certamente será muito menos feliz do que Clara quando chegar aos 65 anos.

Kleber Mendonça Filho me convence cada vez mais de que é o melhor diretor brasileiro da atualidade.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.