19
set
2016
Crítica: “O Homem nas Trevas”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
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O Homem nas Trevas (Don’t Breathe)

Fede Alvarez, 2016
Roteiro: Fede Alvarez e Rodolfo Sayagues
Sony Pictures

4

O Homem nas Trevas é um filme envolvente e assustador que mesmo com um roteiro esquemático consegue se estabelecer como um dos melhores grandes lançamentos do ano.

A história se passa em Detroit, cidade americana que pediu falência após a crise de 2008 e que está praticamente abandonada, e acompanha três jovens criminosos que decidem roubar uma grande quantia de dinheiro de um velho militar cego que mora sozinho. Mas quando eles invadem a casa descobrem que o senhor não é tão debilitado quanto parece, e logo se encontram sem saída tendo que lutar por suas vidas.

A direção segura de Fede Alvarez talvez seja a principal força do filme. Eficiente em estabelecer a geografia limitada do filme em sua meia hora inicial, com longos planos sequência que passeiam pela casa apresentando os diversos elementos que eventualmente serão fundamentais, o diretor ainda brinca com a expectativa do público e dosa muito bem os sustos mais exagerados.

Já a fotografia de Pedro Luque merece créditos por conseguir se manter compreensível mesmo o filme se passando praticamente todo de noite em um lugar mal iluminado, equilibrando muito bem as sombras e as luzes amareladas ameaçadoras. Além disso, a decisão de mergulhar a tela em luz cinza para sugerir a total ausência de luz é de uma beleza plástica sublime e foge do que seria o convencional (o verde de visão noturna).

O trabalho de som também não fica para trás. Trazendo em diversos momentos um silêncio praticamente absoluto que gera uma tensão absurda, o filme também não exagera em músicas instrumentais óbvias e valoriza muito os sons diegéticos (aqueles que os personagens também ouvem), o que é uma decisão acertada e coerente tendo em vista que a audição representa a força do vilão e, por consequência, a fraqueza dos heróis.

O roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com Rodolfo Sayagues tem seus clichês de gênero, mas traz um subtexto interessante e crítico sobre o “American Dream” (o fato de o homem cego ter perdido a visão na Guerra do Iraque, a história se passar em uma cidade falida, e a casa de um dos personagens trazer uma enorme bandeira dos Estados Unidos em sua fachada não é à toa). Além disso, a construção dos personagens é bastante esquemática, mas não deixa de ser eficiente (um criminoso inconsequente, dois anti-heróis que agem por motivações humanas para gerar identificação com o espectador, e um vilão indestrutível). O texto só erra mesmo ao se render a um moralismo e sugerir que o sadismo do vilão se deve à sua falta de fé.

Se encerrando em uma nota que equilibra muito bem todos os possíveis caminhos que a história poderia tomar (mais pessimista, mais cínico, mais recompensador, etc.), O Homem nas Trevas é um ótimo filme, que prende a atenção até seu segundo final e mostra que mesmo uma premissa convencional pode gerar bons frutos se estiver nas mãos certas.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.