01
set
2016
Crítica: “Star Trek: Sem Fronteiras”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno
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Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek: Beyond)

Justin Lin, 2016
Roteiro: Simon Pegg e Doug Jung
Paramount Pictures

4

Star Trek: Sem Fronteiras é sem dúvidas um dos filmes mais divertidos do ano. Compreendendo seu universo e nunca fingindo ser o que não é, o filme é divertido da primeira à última cena, equilibrando muito bem o senso de humor com uma boa ação e até momentos emotivos.

Acompanhando mais uma vez a tripulação da nave Enterprise, o filme se passa no terceiro ano de uma missão de cinco que os tripulantes levam no “automático”. Mas após receberem um pedido de socorro em um local não mapeado, eles acabam encontrando o maléfico Krall, que está em busca de uma arma de destruição em massa.

Adotando um tom bem humorado que é inevitável quando você está lidando com personagens em uniformes coloridos e criaturas bizarras que se teletransportam, o filme evita como pode a mesmice de tantos outros filmes blockbusters – sendo admirável que durante a principal sequência de explosões e desmoronamentos da trama a trilha sonora seja composta não de uma música orquestral convencional, mas sim de um rock and roll ligado pelos próprios personagens, o que dá um toque bem humorado e bem vindo à cena.

Também é interessante como o diretor Justin Lin e o diretor de fotografia Stephen Windon respeitam a lógica visual criada pelos dois filmes anteriores dirigidos por J. J. Abrams, utilizando constantemente a câmera desrespeitando a lei da gravidade (o que é ainda mais coerente pelo filme se passar quase todo no espaço), acertando também por não economizarem nas cores, impedido um visual sombrio que além de incoerente com o bom humor dos personagens também prejudicaria o 3D – e o plano vertiginoso que mostra com detalhes uma instalação em um planeta artificial é um dos melhores momentos que eu vi no cinema este ano.

Além disso, é louvável que o diretor confie na dinâmica dos atores (que em sua maioria estão trabalhando juntos pela terceira vez) para os alívios cômicos, deixando assim as piadas surgirem de maneira natural e sem chamar a atenção para si (como ao evitar parar a trilha sonora para uma fala “engraçadinha” ou cortar para um plano fechado para reforçar alguma sutileza de interpretação – técnicas ultrapassadas, mas que ainda são muito usadas).

O roteiro de Simon Pegg e Doug Jung também não decepciona, já que aposta em uma trama simples, mas eficiente, e não comente um erro comum em filmes de sagas: o excesso de personagem. Além dos personagens já conhecidos, temos apenas outros três novos que são importantes, e nenhum deles traz subtramas: temos o vilão (que tem motivações convencionais, mas convence como ameaça), uma guerreira “do bem” (que tem uma função mais de ação), e uma personagem com motivações dúbias (e aqui o roteiro tem um pequeno problema, já que esta personagem passa metade do filme com uma importância grande, apenas para não desempenhar função alguma conforme a trama se encaminha para o fim). E além do já citado bom humor, que é muito bem dosado e nunca parece existir apenas por obrigação, o roteiro encaixa ainda uma bela e emocionante homenagem a Leonard Nimoy (ícone da série que morreu ano passado) – e a frase “quando você viveu tantas vidas quanto ele, ter medo da morte é injustificável” funciona tanto dentro do filme quanto fora dele, pois qualquer ator querido tem a oportunidade de viver para sempre nos personagens que fez para o Cinema.

Sendo melhor do que seu antecessor (Star Trek: Além da Escuridão, 2013) e tão bom quanto o trabalho anterior a este (Star Trek, 2009), Star Trek: Sem Fronteiras é diversão de primeira, que não se leva a sério e sabe quando e como fazer piada, mas não se torna menos competente por conta disso. E se for para continuar nessa linha, que venha o próximo filme!



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael