06
set
2016
Crítica: “The Night Of”
Categorias: Séries de TV • Postado por: Matheus Benjamin
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The Night Of

Richard Price, Steven Zaillian e James Marsh, 2016
Roteiro: Richard Price e Steven Zaillian
8 Capítulos (50 min.)
HBO

4.5

Uma minissérie altamente promissora iniciou em Julho no canal fechado HBO. O canal que tem tradição em trazer produtos com tramas pesadas, sem censuras no quesito artístico da coisa, podendo contar com cenas de sexo explícito, drogas, nudez e violência trouxe à sua programação dominical The Night Of, escrita pela dupla Richard Price e Steven Zaillian, contando com 8 capítulos de 50 minutos cada, com exceção do último que contou com pouco mais de 1h30 de duração. A direção dos capítulos ficou por conta de James Marsh (também diretor dos longas Man On Wire e A Teoria de Tudo) ao lado de Steven Zailian.

A trama é um espetáculo por si só e tem um desenvolvimento altamente satisfatório, explorando diversas nuances cotidianas e palpáveis à realidade; as personagens centrais apresentadas possuem características mil que trazem à suas personalidades uma multidimensionalidade exímia. E o roteiro ainda é eficiente em suas outras formas: na representatividade, na condução e no desfecho.

Nasir Khan (Riz Ahmed) é um jovem com traços paquistaneses, mas nasceu nos Estados Unidos. Seu pai, Salim (Peyman Moaadi) é motorista de táxi, junto de mais dois amigos que dividem uma sociedade amigável. Junto dele, sua mãe Safar (Poorna Jagannathan) e irmão (Syam Lafi), eles vivem em um aconchegante e simples apartamento em Nova York. Até que um dia, disposto a ir a uma festa, Naz (como é chamado intimamente), com o táxi emprestado de seu pai, acaba conhecendo Andrea (Sofia Black D’Elia), uma jovem problemática que acaba pedindo que o rapaz a leve para longe de onde estava. Os dois acabam passando por uma pequena aventura pela cidade até pararem na casa da moça, onde usam drogas, brincam com facas e transam. O tempo passa e Naz acorda de madrugada na mesa da cozinha e ao subir para pegar suas coisas e ir embora se depara com Andrea esfaqueada e morta. Desnorteado, o rapaz foge, mas acaba se complicando e sendo pego pela polícia.

É desse ponto que a trama parte. Com ela novos personagens vão sendo apresentados. Naz, na cadeia é apresentado ao detetive Dennis Box (Bill Camp) que parece ser um homem correto e determinado a investigar o que está acontecendo. O espectador também conhece o excêntrico John Stone (John Torturro), um advogado de porta de cadeia cheio de manias e que sempre defende prostitutas e pessoas pobres que ele sabem serem culpadas para selar acordos e evitar os tribunais. Seu slogan é “só pague quando sair” e com Naz enxerga a possibilidade de ganhar um bom dinheiro tendo em vista que aparentemente trata-se de um caso complexo e sem escapatórias para o rapaz. Mas é com isso que a trama mais se beneficia: a dúvida. E elas são inúmeras, tanto para o próprio Nasir Khan, quanto para sua família e advogados. Os únicos que parecem ter certeza, mas que no fundo no fundo não a tem, são o detetive Box e a promotora Helen Weiss (Jeannie Berlin), encarregada de levar o caso aos tribunais.

Nasir Khan é preso e as tramas são bem divididas. Temos a nova vida dele na cadeia, onde conhece Freddy Knight (Michael K. Williams), um presidiário cheio de nuances que acredita na verdade de Khan, mesmo que ela custe alto. Freddy é um dos melhores coadjuvantes da minissérie por conta de sua inteligência, perspicácia e maldade latente que carrega dentro de si, até nas entrelinhas. É um personagem complexo que caminha lado a lado com a aura de dúvida da trama; até mesmo Naz parece não confiar cegamente neste que acaba de lhe oferecer proteção plena e amizade enquanto estiver preso. Uma das melhores cenas entre os dois se dá quando Naz o questiona sobre querer ser seu aliado e a resposta é simples: o jovem era alguém diferente dos outros. Alguém que carregava nos olhos a inocência e não apenas a vociferava. Além dessa trama, acompanha-se os advogados de defesa procurando por provas que atestem a inocência de Naz, creditando o crime a terceiros. Chandra (Amada Karan) é a advogada “titular” do caso, depois da desistência de sua chefe em determinado momento da trama (talvez isso seja um spoiler). A jovem que possui ascendência de algum país do Oriente Médio, assim como Naz que tem ascendência paquistanesa, acaba se identificando com o caso a cada nova informação e promete à sua família total apoio.

The Night Of também fala muito sobre a evolução dos personagens. Há a corrupção em duas instâncias, há o amadurecimento profissional, há a desconfiança familiar e há a representatividade junto de denúncias a preconceitos da sociedade. No âmbito da corrupção temos Nasir na prisão, onde ao se envolver com Freddy se envolve com o tráfico de drogas. Ele acaba sendo o vetor necessário para o transporte de pacotinhos trazidos pela mãe de um dos aliados de seu amigo durante visitas rotineiras. Mas SPOILER: prova-se adiante que Naz já não era um garoto 100% do bem conforme as investigações vão avançando. Além desta, há a corrupção da promotora Helen e do detetive Box, que querem se livrar logo do caso (já que trata-se do último caso de Dennis antes da aposentadoria), jogando a culpa em alguém que tem mais evidências contra do que realmente investigar a fundo o que poderia ter ocorrido, tendo em vista que várias provas atestam que Andrea possuía inimigos já que era jovem e rica (sua mãe deixara tudo para ela ao morrer), como seu padrasto Taylor (Paul Sparks).

O amadurecimento profissional é mostrado com Chandra. Uma jovem e aparentemente tímida advogada tem uma das lições mais comoventes  em seu desfecho, motivado pelas convicções de seu colega e também de seu cliente. A advogada protagoniza intensas cenas onde confronta a promotora Helen, o que mostra um ponto favorável no roteiro da minissérie ao retratar mulheres que conversam entre si sem ser sobre homens (um beijão pro teste de Bechdel), com nomes próprios, profissões e objetivos claros traçados. Aliás, o tribunal é delas. São elas é que fazem tudo acontecer. Inclusive, a policial que prende Khan pela primeira vez é uma mulher negra. Um dos principais coadjuvantes (Freddy) é negro, além de diversos outros policiais e testemunhas que aparecem durante a trama, o filho de John, sua ex-mulher, sua amante e enfim, ponto pros roteiristas. Tudo isso está aliado ao preconceito e a discriminação que é muito bem encaixada à trama. A família Khan é vista como terrorista por conta de sua ascendência paquistanesa (e os atores escolhidos para interpretá-los são de países como Tunísia e Irã), a promotoria o questiona desta forma quase a todo momento e inclusive personagens pertencentes a outras minorias étnicas que também geralmente são segregadas cometem o erro de xingar e humilhar Naz com essas motivações. Tudo isso é muito bem apresentado e executado.

Com a família Khan ainda há dúvidas. Eles perdem tudo. A mídia dá uma grande ajuda nesse aspecto. Segundo John Stone, “todo acusado é inocente até que se prove o contrário”, mas não é o que se vê na prática. Safar Khan, a mãe, conforme o tempo vai passando vai desacreditando na inocência do filho, não querendo mais visitá-lo, atendê-lo ou até mesmo confrontá-lo. Já Salim, o pai, parece ser o único que verdadeiramente crê na inocência do filho e sofre duras represálias de amigos (como os seus sócios que querem o táxi de volta, mas não podem tê-lo por ter sido apreendido pela polícia e acusam Naz de roubo para reinvidicá-lo).

E sem falar de John Stone, com atuação exímia do incrível John Torturro a crítica não estaria completa. O personagem é um dos meus favoritos de minisséries e/ou seriados do ano por uma série de fatores e a principal delas é a união de todas as suas camadas. John possui uma alergia irremediável, sobretudo nos pés, que o obriga a andar de sandálias pra lá e pra cá. Ele frequenta um grupo de auto ajuda com outros que têm os mesmos problemas e conforme os capítulos vão avançando o espectador vê suas várias tentativas de se curar. Além disso, o mesmo possui alergia a gatos e acaba adotando a gatinha de Andrea, perdida em seu apartamento quando foram fazer a perícia. Essa gata, inclusive, é o que faz do último episódio ainda mais sensacional do que já é, mostrando a riqueza e importância de Stone para a construção da narrativa (mesmo com seus pequenos erros de conduta para favorecer alguém). Com todos os problemas de trabalho envolvendo seu histórico na profissão e o caso de Naz, John é frustrado no amor; seu filho não lhe dá muita bola, sua ex-mulher o repreende em algumas ocasiões e ele é apaixonado por uma prostituta que já lhe alertou a respeito de seus sentimentos. Seu coração é grande e ele acaba se tornando um grande amigo de Nasir Khan. Destaco também a atuação e o personagem de Chip Zien, que interpreta o sr. Katz, um perito criminal que refuta algumas teses levantadas pela acusação.

Com um roteiro passível de muita discussão, um ritmo insanamente delicioso de acompanhar (mesmo que muita gente reclame que os episódios são soltos demais, colocando muita informação em alguns e quase nenhuma em outros) e aspectos altamente respeitáveis no campo da direção de arte (que é fria e tensa, com uma escala evolutiva impressionante nas metáforas visuais presentes nos sentimentos dos personagens), na fotografia (com seus planos bem distantes e em algumas vezes claustrofóbicos que causam sério desconforto; a fotografia é a responsável pelas três cenas mais impressionantes da trama serem altamente angustiantes), The Night Of é uma minissérie para ser revista de diversos ângulos, sobretudo pelas suas referências. Nessa primeira vez os conflitos levantados pelo roteiro chamam a atenção, na segunda podemos identificar alguns aspectos que nos levariam para o desfecho apresentado e as lições que são deixadas são incríveis para se refletir. Vale a pena conferir!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.