20
set
2016
Crítica: “Tomboy”
Categorias: Críticas • Postado por: Matheus Petris
tomboy-poster

Tomboy

Céline Sciamma, 2011
Roteiro: Céline Sciamma
Pandora

3.5

Ainda que a inocência seja algo intrínseco à infância, a descoberta da sexualidade costuma acontecer quando ainda se é criança, tal como apontou Freud. Mesmo após um século da publicação dos seus trabalhos, o assunto continua a ser um tabu. Por sua vez, mesmo hoje, muitos atrelam a homossexualidade a um “problema patológico”, algo já desmistificado por Foucault e diversos outros pensadores.

Tomboy é extremamente corajoso e provocante ao retratar a orientação sexual na infância e sobre os problemas psicológicos decorrentes da sociedade retrógrada em que vivemos. A direção de Céline Sciamma, juntamente à sua parceira na direção de fotografia, Crystel Fournier, opta por utilizar planos fechados na maior parte do filme, em um tom claustrofóbico, algo excessivo e incômodo em alguns momentos do filme. A opção do primeiríssimo plano foi pontualmente assertiva quando puderam mostrar a dimensão do sofrimento vivido pelo(a) protagonista Mickäel/Laure (Zoé Héran). Felizmente, o longa acerta em outros aspectos em que seria comum a entrega aos clichês do gênero, fugindo da famosa estratégia de tentar a todo custo arrancar lágrimas do telespectador. O filme está ciente da proposta de estudo de personagem e o abraça com certas qualidades.

Quando Laure é confundida com um menino por uma menina da vizinhança, a hesitação nas respostas já deixam claros os problemas que se passam naquela jovem mente. A atriz Zoé Héran trabalha essa condição de seu personagem de forma natural e demonstrando certa experiência. Assim como na cena da banheira, em que nos é mostrada a sexualidade congênita do personagem, tudo em um tom simplificado, belo e contemplativo. Em outro momento, após uma partida de futebol, quando os garotos correm ao canto do campo para urinar, Mickäel se vê encabulado, pois sabe que não poderá fazer o mesmo naquele momento, e corre floresta adentro para urinar escondido.

A aproximação do protagonista com uma menina torna claro um estágio de atração entre eles – a menina obviamente não sabe a verdade. Em uma cena extremamente minimalista e eficiente, ele molda uma massa de modelar em um formato fálico, que posteriormente é utilizado dentro de sua sunga, pois havia sido convidado para nadar com seus amigos e isso, em sua cabeça, era uma questão necessária.

Desde as primeiras cenas do filme, vemos uma bela relação entre irmãos, a qual acaba desencadeando algumas ações dentro da trama, nem sempre de forma eficiente. Quando a mãe descobre aquilo que atormenta seu(ua) filho(a), ela reage de forma tipicamente conservadora e, sem pestanejar, acaba por agredi-la. Sem qualquer indício de diálogo ou de entendimento com a complexidade da questão, ela parte para uma ação brusca e desalmada, fazendo Mickäel/Laure passar por momentos ainda mais constrangedores, contando a verdade aos familiares e amigos, fazendo-o usar um vestido frente às pessoas que ele convivia, mostrando na verdade ser uma menina. Em um outro plano eficiente, no momento que observamos Mickäel/Laure próximo a parede no canto esquerdo do quadro, vemos a porta fechada, e ele corre em direção a ela em um momento de desespero e foge da realidade à qual não quer pertencer – um plano longo no momento certo. Detalhes assim poderiam ter sido feitos em diversos outros momentos do filme, algo que a montagem não permitiu.

Talvez o momento mais dramático, pós-climax, seja o momento da confissão à sua “paixão”, que se mostra frustrada com a verdade, e em silêncio se retira do recinto.
Há um ponto incômodo que demonstra a selvageria da sociedade, representada de forma fiel, porém brusca. Expor isto utilizando a naturalidade e a inocência da infância, fazendo com que os personagens hostilizem a protagonista, almejando a verdade, talvez não tenha sido a melhor escolha de direção e roteiro.

Como redenção, temos o plano mais eficiente do filme, o qual mostra Mickäel/Laure tirando seu vestido – aquilo que representa a sua sexualidade congênita – e o deixando pendurado em uma árvore, se virando contra isso e novamente correndo, só que desta vez rumo ao futuro que almeja.
Por fim, fica claro que nossa sociedade ainda carece de evolução e compreensão, pouca coisa tendo mudado com o passar dos séculos. Enquanto estivermos presos a conceitos religiosos e clássicos que determinam como “devemos” ser ou como “devemos” agir, a mente humana continuará atrofiada.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: "Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente". Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.